08 janeiro, 2016

O Don Juan

Você bem que viveu intensamente ao meu lado por alguns anos. Pensei várias vezes que o meu gostar não seria finito. Bobagens que se fixam na mente de pessoas de minha idade. Sua pele branca, voz altiva e detalhes que apenas o bom observador, como eu, poderiam notar, sacudiram meu coração. Eu, mesmo seguro despreocupei-me quando estava em sua presença. Foram horas um ao lado do outro. Como irmãos de sangue, grau que sempre reivindiquei, pensava a cada momento que meu gostar fosse cristalizar e engrandecer. Também pudera, nós humanos somos sempre trapaceados por nossas ideologias e sentimentos infantis. Os meus sempre foram muito claros para você e agora caros a mim. Verdadeiramente, não escondi qualquer nuance sobre minhas vergonhas. Mal eu pude reparar que elas apenas o feriam. Eu declarei aos cantos dessa cidade mesquinha que o seu nome era mais que um gostar, era amor. Havia em nós dedicação, companheirismo e uma sutil alegria. Qualquer casal amoroso nos invejaria. Qualquer casal fraternal reclamaria. Os meus sonhos, os maiores, foram todos compartilhados com você. As minhas falhas e queixumes. Doei-me. E agora? Não tenho mais a sua companhia. Não sei se tenho mais o mesmo amor. Tenho a mim mesmo, como sempre tive. Dores divididas são sempre eternas. Isso você descobrirá. A qualquer momento podemos nos tropeçar. Devo cair ou negar nosso passado? Se eu não mais o vir, caberá a mim o título de Pedro, aquele chamado também de “o traidor”? O tempo faz graças e malefícios. Como não o controlamos, apenas vivemos suas decisões, eu cá, mesmo adoecido, e você, ai, sabe-se como, seremos atingidos pela aguda e avassaladora flecha do desconhecido, antes da morte. A cada momento sinto esvair de minha mente o seu sorriso deslumbrante. E a certeza de que eu não me aproximei da cela que havia preparado para mim. Mãos em meus ombros? Jamais ousou se aproximar de um corpo com tamanha felicitação. Cabeça em meu colo para um cafuné inesperado? Ainda bem que eu soube teatralizar. No fundo eu já sabia de tudo. Confesso: era uma nova relação, porém. Talvez não para você. Há anos venho refletindo sobre minhas limitações e me esquecendo das astutas habilidades. Resisti e não cedi aos possíveis encantos oriundos de sua natureza direcionados a mim. Talvez estivesse ai a sentença de nossa finitude. Claro, eu mesmo me esquecendo de verificar minhas lembranças, dei atenção àquela “voz” intuitiva que sempre me salvou. Parece que devo a mim mesmo o fabuloso modo de me distanciar dos humanos, pois deles só encontrei o dissabor ou estou eu tomado pelo desterro arfante da desesperança. Tenho em meu mural de fotos sua imagem e a cada dia, desde nosso distanciamento, relembro cada “eu te amo” que proferiu a mim, para que jamais eu volte a acolher novamente alguém em zelo. Ao som De tanto amor, de Roberto Carlos, encerro.

06 dezembro, 2015

Marília Pera

Eita, que meu coração se acabe em revolta e depressa se refestele com as finalidades da natureza física. Eita, que o corpo não resistindo ao transbordar da vivacidade humana se exploda em pedaços aquietados pela própria energia. Vai-se morrendo devagarinho, sem pressa. Quando não estamos do outro lado de nós mesmos e morremos é como se nossa existência estivesse derrotada, falida. Quando pensamos que somos nós os barões de um interior é ali, no ressentimento de que não somos heróis de nós mesmos, que o fim se inicia. Do nosso outro lado de cá, ficam as cicatrizes, as mágoas, as conquistas, os flashes de lembranças que só são revividos graças à eficiência de uma parte da natureza física.
Seja noite ou tarde, não importa o horário exato, desde que não seja pela manhã, o ócio se aproveita e vai roendo a carne. A pessoa quanto mais experiente é mais o corpo vai resistindo ao crescimento de nossos lados internos. É forte demais a humanidade de alguém que se entrega em arte. É demasiadamente incrível como uma só mergulhada no lago do teatro e do canto nos faz condenados a uma vida imensamente bela.
É na manhã que partimos para o sagrado, o pueril, o eterno silêncio e também árduo embruscamento. É pela manhã que todo início parece não ter término, que toda imensidão pode ser revelada e que todo ar nos revigora.
Há mais certezas na manhã que a tarde, mesmo preguiçosa, e a noite, a mais lasciva das forças, podem alcançar.

21 outubro, 2015

Quando eu morrer

Quando eu morrer qual será o último filme assistido por mim?
O desgosto não arrependido que me amargará a garganta?
O sonho não realizado confortavelmente?
A música ouvida e gravada no histórico?
A página do livro lido incompletamente?
A deliciosa refeição sem sobras e o sabor do suco que degustarei?

Quando eu morrer
Qual será o gesto incompreendido que afetei outrem sem intenções grosseiras? E as provocações?
As palavras mais doces que proferirei?
O encanto escondido e não declarado a um confidente?
A mensagem sem resposta no aplicativo do celular?
O lençol ainda desarrumado na cama que descasei sozinho?
A cor do sabonete ainda no chão no banheiro?
O meu perfume preferido não esborrifado?
A minha paquera conquistada e ainda em flertes comigo? Os minutos de espera até saber que nunca mais irei escrever a ela.
A contagem correta e precisa dos anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos vividos e compartilhados?

No exato momento de minha morte
Qual será o nome da pessoa que ouvirá o último bater de meu coração?
O primeiro de meus amados parentes e sua reação?
Os últimos lábios encontrados inebriadamente junto aos meus?
A minha sagaz cantada dada ao meu amor?
A derradeira curtida em uma foto?
O primeiro comentário virtual de pêsames?

A minha mais bela imagem que lembrarei de você?

17 setembro, 2015

O que eu vi em você

Percebi a primeira olhada que sua boca merecia um beijo. Um beijo que seria demorado, um pouco sem fôlego. É como eu tenho beijado ultimamente: sem fôlego. Enxerguei atentamente que seus lábios, porém, não estão preparados nem para um beijo, quanto mais para um beijo sem fôlego.
Olhei mais agudamente e ainda não tive aquele frio quando pensei em doar um beijo a alguém. Um boca que parece doar um beijo seco, assim você se mostrou.
Imagine! Um beijo árido em contato com outro sem fôlego. O que eu vi em você foi apenas a promessa de que um dia, novamente, encontraremos nossos lábios doados a seus reais benfeitores.

31 agosto, 2015

Daquele seu jeitinho

Era domingo. Mais um domingo qualquer e eu percebi o quanto você me faz falta. Nada contra o meu presente, mas você me faz muita falta. Na verdade, muita coisa me faz falta hoje. Na mais pura verdade, falta a todos nós tanta coisa que prefiro cometer erros pela própria falta de palavras que pelo excesso.
Sem desmerecer o meu presente, mas o seu toque me faz muita falta. Era ele que me deixava nas alturas do conforto emocional. Adorava a sensação de balançar meu cabelos por entre seus dedos. Sem pestanejar, lá eu estava no nosso mundo de ingênuas decisões, com os corações quietinhos e as mãos mornas do afago. Você me ouvia falar atentamente. Quase não me interrompia. Era eu o seu rei e você era todo o meu império. 
Por mais que eu não queira desdenhar o meu presente, o seu cheiro me faz imensa falta. Ele emanava um aroma de serenidade para as confusões mentais tão indignas que me submetiam as alheias almas que eu insistia em chamar de companheiras.
Jamais negaria o meu presente, mas a nossa história construída junta me faz insuportável falta. Eram os meus planos de vida que eu falava e você, como a alma mais atenta que já encontrei, acalentava minha angústia e dúvidas sobre o futuro com apenas uma entrega de olhar.
Você me faz falta porque temos um passado que eu tentei manter, no presente, mais duradouro possível. Você me faz ainda muita falta porque não é apenas mais uma memória que tento cobrar a mais pura nitidez do passado. É sim o passado que sempre nos procura e bate em nossa porta. Ah sim! Ele sempre baterá à porta, ali no futuro.

20 agosto, 2015

Fosso

Por maior que seja a falta
Nós nunca seríamos
Fomos
Aprendi que o ímpar é mais seguro que as derivações geométricas
Quem morno fica por muitos anos no espaço?
Qual gosto tem a boca que por vezes já foi mastigada?
Que aroma de pele não se torna gravado em mente insensata?
Qual rotina não os levará à própria sorte?

Por maior que seja a minha infelicidade
Nós nunca fomos pares
Fosso
Ensinei a mim mesmo que a insegurança é mais atenta que a liberdade
Por conta minha e por minha desaventura
Quem ousa dirigir novamente a palavra para o outro, tão distante já?
Que tipo de desassossego perene eleva a rispidez de toques frívolos e medianos?
Em qual ângulo o perfil de um se torna menos simétrico e indisposto ao outro?

Por maior que esteja minha sagaz procura por outro colo
soube que nós nunca teríamos nos dado dedicadamente por muitos meses o mesmo prazer
Somos
Desaprendi a arte da argumentação, pois era por ela que me embrenhava em matas desinteressantes
Quem diria que eu esqueceria a temperatura que emanava de suas mãos acariciando meus cabelos, hoje compridos?
Que maternidade desdenharia nossa concepção, a qual somente uma mãe notou minha tamanha devoção ao seu corpo e mente?

Por menor que esteja meu instinto
Por menos ar que a minha vontade de prazer epicurista inale
Já nos condenaram os estóicos
Somos da matéria e não vamos nos felicitar nunca mais

03 agosto, 2015

21.07.15

Eu não devo deixar nunca de agradecer ao tempo. Eu não devo esquecer nunca o que o tempo é capaz de construir. Já nos bastamos de limites, ainda mais os impostos pelo senhor de todos. Mas precisamos nos fartar de tudo aquilo que ele nos oferece, como se estívessemos em um banquete por toda a vida. Ele oferece um sorriso como aquele que você possui. Quanta fartura! A simpatia e alegria de conversar como aquelas encontradas em você a cada caminhada no parque. E, claro, a mais bela e frutuosa alma como aquela que habita dentro de você. De todos os desejos realizáveis, eu espero que o tempo faça o mais justo dos exercícios: o mantenha duradouramente vivo. Vida longa meu pequeno príncipe.

30 julho, 2015

O que é, é.

É, hoje a noite é para se amar. Amar de todo jeito. Várias intensidades. É, hoje a noite é para nos termos em abraços e beijos incansáveis. Demonstrarmos um ao outro quem é que manda em nossos corações: nenhum de nós, individualmente. Pensar como um nó e não dois alinhados.
É, hoje a noite é para recordar o breve histórico de nosso convívio que não inspirou mais planos futuros. Seria hoje que consagraríamos, junto à luz da lua que lá fora brilha, todo o ardor de cada lado esquerdo de nosso peito, entre mordidas no pescoço, declarações perfumadas de interesse e chamego enlouquecedor dado na nuca, puxando os fios do cabelo.
É, hoje a noite promete ficar mais incandescente que os dias mais ensolarados do verão. Hoje, eu sei, que está disposto a enterrar, definitivamente, o mais puro toque que já ofertou a alguém, em troca de uma segurança que você não tem e jamais construirá. É, hoje a noite vai ambientar palavras doadas pela sua boca, tão singelas, mas efêmeras. Hoje, a noite testemunhará o início de seu infortúnio. É o que desejo, profundamente.

20 julho, 2015

Resposta ao ódio

Fazia um bom período de tempo que não conversava mais sobre os desafios atuais do mundo. Perdeu o fino trato, isso já era mais que notável. Perdeu-se também em pensamentos quando em rodas de conversas inúteis. Quem era naquele momento em que a leitura já não o poderia salvar mais? Quem deixou de ser, intolerantemente? Alguém demasiadamente interessante para os amores contemporâneos. Ficou calado muitas vezes. Ouviu desaforos, grandiosamente insensíveis. Reclamou certa vez, como se desejasse dar um basta às incompreensões: “você consegue ser profundamente violento comigo.” É ódio que por mim sente, hoje. Então é amor, desde o passado, que irá receber de mim.

01 junho, 2015

É

Não é a falta de seu corpo que lamento.
Reivindicaria a quem?
É dos sorrisos, comuns a nós, que foram extraviados em noites quaisquer.

Não é a falta do som de suas palavras que suplico.
Ouviriam murmúrios meus? Quem?
É da conexão inegável existente entre nossos olhares.

Não é a falta dos seus comentários sobre o perfume de minha roupa.
Todas as águas do mundo poderiam lavá-la?
É do cuidado que tem quando repara em mim.

Não é a falta de um suporte que seu braço trazia a minha mão e seu ombro a minha testa.
Qual cama lhe aqueceria melhor após diversão noturna?
É do afeto que nós teimamos em negar um ao outro em silêncio.

Não é a falta de seus queixumes sobre mim e sua vida modesta.
Qual comprimido mágico recuperaria tal braveza?
É do que dividíamos para acalentar nossas almas.

Não é a falta de seus lábios permitindo que eu os mordesse.
Houve saída para o meu humor?
É do sarcasmo que nos envolvia inebriadamente durante a madrugada.

Nunca senti a falta de nossos encontros semanais, propositais.
Que deus retrocederia o grande relógio universal?
É da memória que se apagará com o futuro, por fim.

20 maio, 2015

Feliz aniversário

Ah! Pelo assopro de uma vontade existirão reconhecimentos. Expressou-se, era a única maneira de salvaguardar sua própria vida.

“Não tenho poesia para explicar poucas maravilhas em minha vida. São ímpares. Uma das mais intensas naturezas és tu. Aquele que se faz humano a cada dia. Não possuo expressão para vivenciar cada instante ao teu lado. Tu és meu, já. Tu és a mais singular alegria que uma certa divindade, ou até mesmo o destino, me ofereceu. Em todos os momentos que olho para ti enxergo a paz. Paz que em muitos dias me falta e assim me sufoco. Ao teu lado me torno gente, gente de verdade e, por essa razão, continuo a viver. Se os deuses existem, devem ter me condenado a poucos sorrisos intensos e um deles és tu. Amo-te. Amo-te como minha própria carne. Desejo que os deuses me levem se eu não mais for para ti necessário. Amo. Amo demasiadamente. Obrigado.”


E completou-se um ciclo e o início de outro, a quem pertença, logo, logo se manifestará.

13 abril, 2015

Um dia em uma loja de departamentos

Hoje, de modo quase impressionante, tive um diálogo rápido, porém frutuoso com o caixa da loja de departamentos.

Ouvi do moço: "Boa noite senhor, tudo bem"? Respondi com leve sarcasmo: "Bem para quem pode." E ele: "Verdade, né?". Continuou: "Eu não sei onde eu vi, não lembro, mas era algo coisa que falava que se o brasileiro fala que está bem ele na verdade não está!" Eu considerei: "Verdade!". Ele executando a função e colocando meus futuros bens nas sacolas: "São 26,70!" Eu interpelei com ar irônico: "Tudo isso!?" "Débito!" Ele, começando a rir: "Pode inserir o cartão!". Depois continuou, digitando repetidamente as mesmas teclas: "Esse computador é lento demais!" E eu, interessando-me pelo desfecho e já ter digitado a senha e retirando o cartão da máquina: "Obrigado!" Ele, rindo: "Não quer levar essa torradeira? Eu tenho lá em casa!" Antes mesmo que eu reprimisse a tentativa, e ele ainda rindo: "Tô brincando, tenho não!" Eu, por fim: "Valeu!" E ele gentilmente: "Obrigado senhor e boa noite! Próximo!"

Tudo muda

Eu não sou um mestre, mas sei que tudo muda. Às vezes quero acreditar ao contrário, mas além do fim tenho a certeza de que tudo nessa existência se altera, querendo ou não. As premissas estão em todos os mais desprezíveis sinais, os aparentemente insignificantes: no abraço dado, no aperto de mãos envergonhadas, no fitar dos olhos e no não esquecimento do colo seguro.

24 março, 2015

Você esteve ai o tempo todo

Nós sabemos o que deveríamos ter feito. Já não temos mais idade nem tempo para joguetes e imaturas decisões. Somos donos de nós mesmos. Foi por essa razão que não nos comprometemos? Talvez. Diga sempre que não me quis, pois saiba que intimidade é cara em dias atuais e eu continuarei a rir dessa desfeita falsa. Estava em nossos rostos o desejo.
Deixe de me elogiar, nunca foi um exercício muito gratuito a você mesmo. E nunca será. Eu compreendo. Permita que eu o alcance, todavia. Facilite a oportunidade e esqueçamos das incapacidades individuais passadas. Éramos tão senhores quando um no colo do outro confessávamos impressões subalternas. Você tentou. Eu aceitei.
Permaneça, mesmo distante, nessa postura sem filosofia e eu em minhas dúvidas perpétuas. Recrie a iniciativa, pois nosso desejo é comum e incomensurável. Eterno. Eu ainda me recordo a cada dia de seu olhar em espanto. Depois de uma boa refeição olhe para frente de seu pleito e reivindique atenção outrora unicamente por mim oferecida. Sorriso frouxo e inquietudes satisfeitas eram constantes, você sabe muito bem disso. Para de se declarar, mesmo em olhares eu percebo que já não é mais dono de si mesmo como antes. Largue o figurino de amador e torne-se protagonista dessa história. Impeça a inconstância de um devir que sabe melhor do que ninguém que sou eu quem lhe completa, sustenta e preenche. Incite mais palavras e menos silêncio, a não ser que este seja para nos reconectarmos.

Fuja o quanto pretender. Negue o máximo que resultar de seu desconforto ao me ver. Só não se esqueça de mim completamente, pois não conseguirá. Por mais árduo esforço que exercite. Por maior que seja a angústia. Pela certeza de um finito sem alguém ao seu lado. Sou eu, somente eu a parcela mais dócil que lhe conquistou. Descobri em meio a sua casa o quanto você me queria bem e por perto. Negue o seu afeto por mim, várias vezes comedido, mas sufocante ai dentro do peito. Reclame que também já não se lembra mais de meus lábios. Esnobe minhas lágrimas como o sempre fez. E sobretudo o que vivemos, recordará que foi por mim que seus motivos pelo encanto em formato de sorriso se refizeram em verdades memoráveis. Durma bem. Durmamos para o nosso contínuo sublime.

16 fevereiro, 2015

Ceia

Sofro de um mal. O mais temido por todos esclarecidos. Sou movido pelas emoções e somente elas se fazem fonte do meu escrito. Foram meses tentando segurar pelas mãos a saudade. Ela já se caduca em nosso tempo, mesmo assim é persistente. Desgasta-se dando espaço a segunda menos frágil, a contemplação do corpo alheio. Deveria ter com ela em bons esculachos! Não, neguei a mim o esforço de enforcá-la. Depois, com cantos excitantes, vem a esperança, a mais carrancuda de todas. Bela, porém mesquinha, quer se desfazer de todas as outras para ser admirada pelos humanos. Sem competidoras se refestela no salão nobre dos engodos. É nossa imperatriz, salvaguardada pelas justificativas dos leigos. E lá, mais intimidado, quieto e desajeitado está quem realmente embala meus dizeres: o... Sua beleza é ainda maior que todas do salão. Não aparece facilmente nos bailes para não atrair, mesmo sem desejar propositalmente, a atenção de todas e todos. Jamais resmunga. Serve-se dos servos que estão a renovar os alimentos e as bebidas das mesas mais assediadas. Mesmo vestido modestamente se torna o único no quadrante que provoca aquele silêncio quase enlouquecedor. Gestos seguros e pompas em todas as falas causam alvoroço nas ingênuas almas. Ficam perplexas. De sorriso invejavelmente esplêndido, esconde no mais delicado e sublime gesto labial a coragem de saber que é dono daquele império. Raramente apareceu, e para mim nunca, mas sei de sua presença ao redor, me observando. Quando dou por mim, já tomado pela curiosidade, que estrategicamente quer me pregar uma peça, estou olhando atrás das cortinas a procurá-lo. Sinto seu olhar e tenho receio de ser menos saboroso como os outros.

Hoje, por fim, não consigo mais suplicar que as tenha, que as guarde ou até mesmo alimentá-las com memórias somente a mim fundamentais. Crescer é propor uma história de vida que antes do finito se possa contemplar os êxitos, em versos expressos. Sei, de fato, que em breve me motivarei a cear com as emoções em fartos banquetes noturnos, servidos entre naturezas mortas, enquadradas nas paredes do meu desespero.

12 janeiro, 2015

Às vezes


“Tenho medo!”, gritei do interior do meu ser.
Medo não é um sentimento agradável, mas quem consegue ludibriá-lo? Eu sei! Nem mesmo os mais sábios conseguiram. Engano! Equivoquei-me. Há sim uma maneira de contornar o medo: fazendo dele cúmplice do sofrimento. Sim, olhe cá! Eu explico!
Por um lado o medo impõe as mãos contra o peito do dito cujo e o faz desistir. Isso acontece com os imaturos e assustados. O mundo gira mesmo, não é? Então, quando acontece, o tal nível de enfrentamento fica lá em baixo. Bem baixinho. Pequenininho. Quase um desalmado ser. Por sua vez, é quando os sábios emparelham medo e sofrimento formando um corpo, pois o medo é um espectro. Paira sem substância dentro de nós. Com corpo o medo inflama o sofrimento. É sua força motriz. Este fica mais pontiagudo. Rígido. Largo e sem limites. Como a alma que dizem habitar nosso corpo. Mais ou menos assim, sabe!?
Então, quando começam os sintomas em alguém que se contaminou com o próprio medo, o sofrimento se torna tão áspero e austero causando dores estomacais, risos frouxos e mãos inquietas. Deixa-se de compartilhar experiências agradáveis, desfaz-se de detalhes e teatraliza inquietudes. E no momento em que o ser se prostra frente ao medo-sofrimento daí surge a evolução do corpo: o terror.
Ah o terror! Exalta os horizontes da preocupação. Ignora a sensatez. Despedaça a paciência. Contra o medo-sofrimento em seu estágio embrionário podemos construir medidas eficazes e mais urgentes. Já com o terror alimentado! Só podemos aguardar. Aguardamos o instante mais prudente para enxergarmos o corpo-sofrimento-medo e nos aproximarmos do corpo-desejo-segurança para contrapô-los. O duelo se inicia. As horas, dias, semanas passam velozmente. Esquecemo-nos dos compromissos mais pessoais. Retornamos às ideias fixas. Suplicamos desenxabidamente por colo e a solidão se refestela.
Distanciamos pessoas que eram nossas. Não detemos mais a simpatia. Faz-se falta o colo. Os risos desaparecem na memória. A pele envelhece ausente o toque e os detalhes são esquecidos. Assim, para aqueles que não apreciam os detalhes e os menosprezam não lhes cabe um banquete. Há fome. E sem saciedade o ser não produz. Desconstrói sentidos. Emburrica. O perfume alheio já não provoca mais sorrisos gratuitos durante uma jornada de trabalho. É inflamado o orgulho. E o fim se encerra com a ironia. Sim, tenho medo! Só não posso mais afrouxar as correntes do corpo-medo-sofrimento para que alcance seu alimento mais apetitoso: a nossa vaidade.

31 dezembro, 2014

Novo feliz ano

Há tanto o que ser dito desses últimos meses. Primeiramente, completaram seus deveres. Obrigações intermináveis, mas com fim sólido. Avassalador, diriam. Conexões incompletas. Acordar tornando o presente acumulado em um passado instantâneo.

Há tanto o que se comentar dessas últimas semanas. Justamente porque figuraram uma peça com atores vorazes. Juventudes que se tornaram imediatamente velhas. Ensinamentos ditos pela falácia, com garganta apodrecida ainda em tenra idade. Olhares despedaçados. Bocas infiéis. Suspiros, contudo, que desembocaram em verdadeiras descobertas. Revelamo-nos uns nos outros, gratuitamente.

Há tanto que se dizer desse ano. De um ano que se multiplicou 365 vezes sem paradas e equilíbrios. Uma jornada indeterminada que ao menor sinal de desavença permitiu o desafeto. Paralelamente, toques dados por amor também completaram essa jornada. Curta ou não, a verdade habitante de seres sempre conectados prevalecerá. Pode demorar mais um ano, talvez, mas sempre ocupará a história de seres.

Jornada quase interminável que surrupiou liberdades, lascou vontades, ceifou alegrias e amputou momentos mágicos.
Mas deve haver mais ditos sobre esses últimos instantes, que como todo bom observador da rotina se gratifica com a incerteza do futuro para novos saberes. Não tão perto de nós, e sim em nós mesmo, lá está nosso grande desafiador, o tempo. “Você fala muito do tempo, não é?” Eu havia escondido a verdadeira resposta: é ele quem fala sobre nós, meu amado amigo. Sempre foi no ontem que nos resta a memória, durante nosso respirar enquanto acordados vivemos e no nosso futuro indevido. Sim, totalmente, impreciso. O tempo deveria ser chamado imprecisão. Perpétuo. Impenetrável. Desafiador. 
Como se disse desse último ano é: já se sabe o que dizer. O que não sabemos é escrever nosso ano sem aquela pitada desumana de incertezas, de intensos desvios e insuportáveis aprendizados. E, por fim, entre margens de rios, água pura e firmeza entre pares encerra-se uma data para surgir um dia.

17 dezembro, 2014

Conexão São Paulo

Foi uma sensação extasiante, de repente! Pensei naquelas horas quando em São Paulo, anos atrás, ocorreu o encantador encontro. Pensei naquele ano que nos reconhecemos abaixo do MASP.
Que aroma! Era tarde, nublada, claro, mas estávamos em São Paulo. Juntos pela primeira vez. Ousaríamos? Aquele sentimento de surpresa a qualquer momento elevava-me. Carros e pessoas atrapalhavam minha espera. E daí? Eu não era deles mesmo. Era tarde e com luz adequada. Como se Deus, Iemanjá e Buda quisessem que o retrato estivesse bem em cores e sons.
Não esperava apenas uma pessoa, eu esperava você! Inexistiam despropósitos, apenas visões. Desliguei-me do tempo cronológico, já não tenho memória para saber se houve ou não atraso. E quem se importou com o horário, não é? Tanto fazia, pois problema algum aconteceria. Inconveniente algum aconteceu! Eu só desejava conversar entre prédios e constâncias humanas. Poderíamos sentar em cadeiras de madeira num bar entre a Teixeira da Silva e a Treze de Maio. Imaginei muitas situações. A principal seria como eu me apresentaria. Expressaria sorrisos juvenis!? Como eu mais amadurecido me comportaria como criança? E os olhares, como seriam? E as falas, adequadas? Deveriam ser dadas em harmonia com os movimentos do corpo, não? Ficaria aguardando o momento exato para intervir? Que momento? Que certo? Quando certos? Éramos nós mesmos, sem travas, apesar de desconexos. Isso foi culpa de conhecidos em comum acordo em antiga rede social. Como pôde acontecer? E aconteceu!
Ali estava eu encurralado e com vistas para a Praça Geremia Lunardelli. Ventava, suavemente, eu lembro. Ansioso, conforme os transeuntes se embaralhavam no percurso das calçadas, não saberia em qual das direções se apresentaria. Poderia ser pelo norte, leste ou oeste... Mesmo assim estava a respirar sem sofreguidão. Tentei decorar todos os movimentos ao meu redor para poder dar cortes adequados à memória. Como seria seu semblante lançado a tantos rostos desconhecidos? Endurecido pelo pouco contato com o movimento desenfreado dos paulistanos ou dócil como se esperava do lado no qual nasceu? Havia pretendido não criar expectativas, mas...
Poderíamos percorrer toda a extensão da Consolação sentido República. Certo estava que nossa direção era o acertado encanto. Não choveu, somente esparsas aparições solares. Dirigir até o Museu da Língua Portuguesa foi como flutuar entre folhas em pasto amplo e sem curvas. Ao adentrarmos o edifício havia mais que felicitações, havia Lispector. Como poderiam os deuses acertarem novamente a nossa temperatura? Fizeram-nos dois amantes dessa literatura. Os olhares, depois os cumprimentos iniciais, a rotina ao nosso entorno e agora a literatura que aspirávamos... intensos todos como Lispector. Naquele momento surgiu em mim o inconstante e surpreso. Planejei o ideal e ele se doou a nós voluntariamente. Incrivelmente destravei-me. Tomei-me por nós. Entramos. Faltavam poucos minutos para o encerramento e como que empurrados às celas, paramos em um orbitário lispectoriano. Era uma constelação de estrelas que se misturava com um enredo de dizeres de Lispector. Não nos cansamos de, entreolhares, dizer à literatura a nossa vontade: universos, o meu e o seu, vivificamos para o sempre a completude sem egoísmo. Saímos quase correndo do prédio e nos deparamos, novamente, com a rotina, ainda empedrada e sem gosto. Ah! A quem interessava senão a nós mesmo nos embalarmos até o bar. E já acomodados em poltronas do bar da Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna de São Paulo deliciaríamo-nos em dizeres autorais. Sem vergonha e pudores, mas nobres em orações. Havia ritmo, não? Houve conexão, não? O movimento lá do outro lado das janelas não nos valia mais. Invalidava a ansiedade. O que nos separava até aquele momento eram as Federações e agora estávamos lá! Sentados a espera de nós mesmo, unicamente.
Como Cronos é um deus invejoso! O tempo passou rapidamente e desde o momento de nosso encontro até aquela empática duração sufocamo-nos em sorrisos. Verdades ditas banhadas à sinceridade enquanto acomodados em poltronas, ouvi em meu direito ouvido uma provocação. Cegou-me e “voilá”! Já sabíamos a medida. Foi dado o comprimento de nossa façanha. Descobri pela primeira vez que o encanto não é gratuito e quando ele nos aborda é difícil derrotá-lo. Por essa razão escrevo! Para que o universo possa quando nos ler restaurar em mente a originalidade do encanto, invejável a qualquer escritor de contos. Foi dele, o universo, a conta que nós quitamos. Desenxabido, degustou os melhores sabores, aprovou as mais intensas palavras e respirou o desejo de modo irreparável. Danado universo aproveitou-se da comunhão.
Repete para mim a provocação até hoje. Extasio-me, porém não me paraliso. Apenas guardo o deleitável retrato que se emoldurou em ardor no peito.

14 dezembro, 2014

Dois por um só

Pequenos contos para pequenas emoções e histórias.

Havia dois meninos que se sentaram juntos e juntos comentaram situações de uma vida completamente eterna. Desconhecidos, após os esforços em um parque de diversão que de início não lhes rendeu sorrisos, inventaram-se. Juntos, ali entre os fios de um meio caminho, naquele instante de intervalos, estavam dispostos, lúgubres e intensos como toda criança deveria ser a procura de um conforto. Falaram de coisas do cotidiano. Simpáticos, pareciam vizinhos de longa data. Eram gostos e linguagem próximos. Completavam frases com provocações e riam após entendimento. Paravam entre olhares e mais ironias, típicas da jovialidade. Trocaram envolvimentos ingênuos, sempre puros, contudo. Riam, riam e cada vez que um ria do outro o próximo se esplendorava. Era comunhão e ninguém ali poderia impedi-los. Ao menos para um deles... Desafiavam o cansaço. Foram minutos após minutos de exercícios. Tocavam-se. Apertavam as mãos. Estavam a sós. Mas, como nada que seja puro permanece intacto nesse universo: desconheceram-se, repentinamente. Pelo que? Um afirmou, despretensiosamente, logo após se redescobrir quase como um movimento dialético, ser pela devoção à injustiça originada pelo companheiro: já haviam desgastado todo o tempo da pureza e descoberta. Acabou o mistério! Uma lástima... O outro, pela competição, sem mesmo investigar, exclamou não confiar mais naquelas declarações. Eram para ele enganosas. Supostamente. Lá estavam novamente sós. Estranharam-se. Conforme as mães reivindicavam suas presenças, os dois se distanciavam mais e mais, de modo que se tornaram desconexos. O que era brio compartilhado transformou-se em birra. A mais desvelada sensação de conforto tornou-se antipatia e etiqueta. E, por fim, o que restou entre eles era unicamente a devoção vivenciada em amor espontâneo e futuramente omissa. Inexistia a possibilidade de negarem a si mesmos. Já havia conexões. O parque fechou, as mães os tomaram pelos antebraços e cada um voltou a sua roda da fortuna.

08 dezembro, 2014

Espelhos

O popular conduz de modo exemplar as sabedorias: quebrar o laço é o primeiro passo para o infortúnio. Ali, quase como uma criança que desastrosamente desconhece a firmeza do próprio punho, inocentemente foi vencido pela gravidade. Era um banho qualquer e por qualquer desatenção o despropósito aconteceu. São afetos desfeitos por simples quebra de decoro, isso quando há para arder em descarte.
Desfazer interesses agrada mais à vaidade que favorece os justos esforços. Agora, quebrá-los, ai sim acometem-se ao infortúnio. Já estava quase tudo preparado para o início de frutuoso devir, mas... o descuido, o falso interesse e a mesquinhez levaram-no a quebrar. Ao menos fosse desfazê-los para futuramente resgatar aromas, sorrisos e vigor.
A cá! Conduzimo-nos pelo caminho de uma vereda irônica. Caminhar sempre foi desgostoso esforço, mesmo ainda mais moço, apesar de conhecer as existências, cônscio de sua solidão.
Era apenas para se ensaboar. O enxágue seria fatal. Por que se ocupar de duas coisas ao mesmo tempo: a si e a própria insegurança? Naquela madrugada não foi isso que pode acontecer, porém. Um natural banho se tornaria sentença para outros 7 ou 14 anos de infortúnios. Quem saberia contar agora?
Caberá ao próprio popular reinventar a roda da fortuna de quem desfez laços, acomodou-se em lençóis em noites apartadas de pele e quebrou a particular fortuna. Ah, ah a vaidade! Tão formosa entre nós.