29 Maio, 2012

Gula

E se o beijo é dado sem propósito não pareceria com aquele que foi permitido ontem.
Eram 23 horas e o hálito combinava. Vontade era de proporcionar mais vontade, bem ali, muito próximos.
As palavras inquietas não podem ser presas por tempo qualquer. Basta falar que será ouvido. Pois se ouve com o coração e a mente limpos.
Bagunça está quando há beijos intercalados com sorrisos: misturasse uma inquietação em possuir mais exemplares com desejo de permanecer daquele modo confortável.
O beijo fogoso acontece quando a gula é um devaneio concordado entre ambos.
Faz-se companheirismo em vidas, outrora tão distantes. Espera-se, brevemente, mais.



07 Maio, 2012

Ilusão


Foi um dia de encanto, julgo assim. Não me pertencia a tarde, sobretudo a lua cheia que nos banhou. Senti forte sensação de esperança e nos tivemos. Lá estávamos cúmplices e distraídos. Cooperamos nas palavras, gentis palavras. Sorríamos conforme o movimento do corpo nos desinibia e os instrumentos conduziam. Havia inúmeras pessoas, mas não as notei.
Foram as frutas, as de dentro em forma de suco e as usadas como luvas sobre o corpo, acalmando-o por meu excesso anterior.
Fomos bobos, olhares cruzados para uma sentença de final qualquer.
Senti a felicidade por estar ali. Vivi! Totalmente pertencente a mim. Sabendo que por um determinado tempo seria de minha vista. A aflição era ouvir: “Preciso ir embora”. É perene esta sensação quando juntos.
Conversamos como responsáveis pelos nossos destinos apesar da timidez. O sorriso ofertado era suficiente, demonstrando sinceridade. Alento. E o medo sendo acalmado em mim por tentar sufoca-lo, contudo.
Ouvia poucos ruídos ao meu redor. Existiu um círculo a nossa volta cuja pretensão só se direcionou para a unicidade, para quem me conduzia. Mesmo assim meu coração não palpitou aceleradamente. Por que não? Deve ser porque criamos história.
Brincamos de acordo com o ritmo do ambiente, sobre os trilhos de uma infância que para mim e para você não retornarão. Nunca fomos crianças juntos para poder permitir um presente encantador. Unicamente de minha parte, talvez. Deve ser pela maciez de sua voz, pelo descompasso charmoso dos seus gestos, pela incompreensão de não viver vontades comigo que vivo esta ilusão. Acabamos como o usual. Uma cama saudosa, um corpo solitário e uma grandeza que se intimida por pensamentos existencialistas. Já está ausente.
Comprometer-me-ei com esta confissão sabendo, por fim, que certo dia nós não mais dispostos estaremos para um dócil passeio, apesar de cooperar com seu pedido de espera. O agora foi tornado memória e existirão noites que a solidão será desavergonhadamente íntima.


24 Abril, 2012

Entrega

teve um dia
certo momento noturno
que fiz meu declarar
contudo, não esperava a inércia
queria ação
vontade
libido
entrega
e não vieram
queria que a entrega e a condução
fossem para mim
como um guia experiente
era só se entregar
seria com jeitinho doce
sem pressa de ser amado
sem inibição de ambos
mas com impulsos afetivos
pelos detalhes mais excitáveis do corpo
pelo beijo com vontade de saudade na despedida
sem receios
sem neuroses
ausente ciúme
entregar-se
ah a entrega!
por fim, não veio


16 Abril, 2012

Partida

Vou me desfazer de mim pelo todo que pensei ser.
Esquecerei, contudo, a indisposição

A ausência é natural
como tentar lembrar de uma memória valorosa.
Como estender os braços às paixões flutuantes.

Não volterei a ser como estou.
É sabido.
Sentirei novos impulsos.
Conquistarei partes intocadas.
Iniciarei apenas se me confortar com sua permissão.
"Está tudo bem!"

Terei outra face, outro espírito.
Mesmo sendo tentativa
irei.
Quero um preto e branco
para que em chumbo e cobre
realize a mim.
E comigo só.
 Kain Hallis - Iluminação Solitária

15 Abril, 2012

Escolhas

Não esteve lá
havia escolha
escorreu em meu rosto
vermelho rubro de minha descrença
senti como uma desconexão
o mesmo desabor de ontem
Num momento sinto sua pele
um olhar me provocando
noutro um vazio inenarrável
Só precisava parar de pensar
no quanto um abraço seu me recomporia
traria fartura
traria cores e, por fim,
vida

Fizeram poucos anúncios
deve ser por este motivo
que ainda não me desfiz todo

Pareciam lágrimas
as mesmas que caem quando está ali
longe
pareciam
instante despido
ausente a razão


Por que se aproxima?
Por que?





09 Abril, 2012

Olhe

Repare o desejo

Aquele que provoca o mais profundo do seu peito

É este mesmo o executor de um sentido

Talvez o frio e o por que não o menos humano

Deveria ter calado quando permitido

Poderia eu ter me esquecido de sua face

Permitiria os Céus esquecer sem muita dor?

Quero mesmo é descansar em um abraço pedido

O mesmo, embora, fácil, concedido.

Daquele sem jeito recolhido

Sem palavras e destemido

Eu havia fracassado.

Fracasso lidera minhas intenções

Não se ludibriam as emoções

Deveras inquietas e maltrapilhas

Sem vontade se fez o meu clamor

Agora só me restam as verdades

Para o meu puro e intocado coração admirar

Sem precedentes esqueci-me dos detalhes

Com costumes revirei-me no cobertor

Frio que antes não consumia

Na mais privada das certezas me terá

Espero ter ao menos um aconchego

O mesmo que sentirá aquele que se pronuncia ser o seu amor

15 Março, 2012

Protesto

Vim por este caminho para um anúncio: nunca mais quero brincar no carrossel! Isso é uma sentença que jamais poderá ser desfeita.
É nele que se acompanha o movimento de um mundo cuja realidade não é totalmente prazerosa, e sim enganadora. Outrora, poderia ser um encanto, hoje, contudo, faltam-me ânimo e vitalidade.
Cavalinhos de madeira já adestrados!? Como assim? Qual graça teria em cavalgar ausente instabilidade e vento oriundo de uma única direção? Inexistente autonomia natural? Pois é, nobres. O movimento ocorre sem muitos contornos do lado de cá e ainda o suporte não proporciona aventura.
Havia dito antes da maturidade dois desafios: o primeiro é o mais vil, já o segundo...
No início era fácil desdenhar o finito. Jovem demais para concorrer com a força da natureza, despedi-me do fim sentenciando que só deveria ultrapassar o físico após ter escrito uma obra literária, aprendido outro idioma latino e visitado uma das Maravilhas do Mundo Antigo. Claro que a Morte não engoliu essa! Já o fim, deveria caminhar solitário, buscando um conforto que eu nutriria por mim mesmo, sem auxílio externo, sem companhia, sem xícaras matutinas. Há, ademais, noites dolorosas preenchidas pelo desafeto. Ainda hoje! Engolia-se, também com as lágrimas, a inexperiência do toque, a fraqueza da esperança e, principalmente, o desconforto do devir.
Domesticam com facilidade extremamente humana os cavalos. Estes já são estéreis assim como os protagonistas.
Criou-se uma lógica apenas para o conforto pessoal esquecendo-se que a juventude vive para si, apoiada no outro. Desejam-me menos que ontem por insegurança, apenas.
Havia afirmado: basta de acompanhar a realidade com palavras pessimistas! Acontece, porém, o acaso distante do misticismo. Crenças inválidas. Surge o concreto, bem ali.
Reafirmo minha indignação com o carrossel. O mundo que enxergo já não agrupa mais inseguranças afetivas. Estou bravamente incomodado com os cavalos de madeira, com as cores desbotadas do cenário de um parque que não possui mais diversão.