11 novembro, 2014

Ela se chama Adriana

Chore, chore menino! Fará bem ao menos por um tempo mesmo com o peito ardendo. Mesmo que a duração tente apagar aquele sorriso mágico que nunca lhe foi negado. Mesmo que os momentos que estiveram juntos foram determinados pelos dedos das mãos, contáveis, singulares, laborais e dolorosos. Ah, claro meu menino, aqueles cabelos recheados de um devir com ventos adornadores que se completavam em uma tez escurecida pelos sóis. Não meu menino, não! Era um momento diferente. Lembro que você tentou estender a mão e segurá-la muito, muito forte. Eram mãos de menino, mocinho, não era nem um quase homem. Eu conheço essa dor meu menino. É a maldita ausência. Ela desintegrou as liberdades que teriam. Maltrata, não? Pois ainda vivo, meu menino, a herança é a imaginação. Poderiam ter caminhado ao menos alguns dias da semana num parque da cidade. Poderiam, ao menos, serem vistos juntos em corredores de um cinema. Você gosta disso, não é menino? Poderiam ter sido irmãos. E agora meu menino, o que você poderá ser sem esse pedaço fundamental em seu peito? E agora meu moleque que a cada dia abate sua alegria porque já lhe devastaram por demais o ser. Não meu menino, ainda há tempo! Não mais para aquela parte essencial que lhe tiraram, mas para o seu tempo. Eu sei meu bom menino, ainda reclama a juventude como se o relógio apontasse para o passado e você ainda pudesse esperar por ela.


Ela se foi há muitos anos, eu sei. Inexistem palavras agora num presente sem companhia. Eu também me pergunto meu menino, como existem pessoas egoístas no nosso mundo, pois foi uma delas que determinou o fim do respirar da sua outra parte. Silenciou-a. Difícil é falar do vazio, sabemos. Fale o nome dela e tente pensar naquele abraço mais doce que já recebeu em sua vida. Era o abraço do amor fraternal. Amor tão distante hoje de nós. Force com vontade e desejo para manter acessa a imagem daquele sorriso ingênuo e verdadeiro. O sorriso de Adriana cujo sobrenome não importa mais. Era o sorriso de Adriana. Era... Vá meu menino, descanse um pouco, mesmo nessa vida de individualidades e desconfortos. Proteja a sua mente para dar esse tributo a Adriana. E, por fim, não se desculpe por não conseguir mais impedir que seus olhos fiquem avermelhados, meu menino, a ausência por milênios nos deixou sem apetite.

10 novembro, 2014

Mutilação

Desinteressado, repousou olhares sobre um futuro indeterminado. Sempre ousou por mais. Temeroso com o presente, pretendeu energias para o agora sem muitos desconsertos. Direcionou a atenção para o vazio. Ali a rua, lá um homem a levar o lixo até a frente de casa.

Acomodou o veículo no pasto certeiro e relembrou de minutos incontáveis ao lado do mistério, certa vez. Parecia querer recuperar aquela sensação: solidez nas palavras que a ambos eram sinceras. Ao menos assim determinou de sua parte. E aquelas ofertadas do lado de lá? Detestou a ideia de que pudessem ter sido avultadas da coerência. Havia tanto o que ser feito, mas não haveria mais espaço no devir para tamanha campanha. Tudibiou e logo teve que aceitar. O mistério tem sua função bem dada: mutila.

03 novembro, 2014

O colecionador

Criei minha razão em si.
André Luiz Martins

Ele não era arrogante. Possuía uma pose de mandão, sisudo, claro! Pouco expressava dizeres de compaixão, entretanto. Somente sorria quando socialmente estimulado. Não havia dor, muito menos desprezo, aparentemente. Apenas ele em si. Um ele que mesmo em derivadas afetuosamente determinadas passou a ser entendido como mole, e, por diversos aquedutos diários a sua transposição se dava de maneira sólita.
Resmungão dos resmungos dos outros: “Você não deve falar assim, as coisas mudam sempre e quando nós menos aguardamos!”; “Já deveria ter notado que sua ideia antes não condiz com o seu sentimento hodierno!” e completava “O tempo é a nossa mais deliciosa criação.” Admirava a sincronia do universo. Pobre homem!
O erro estava em outras partes de humanidade que eram reduzidas, enfraquecidas, desonrosas, desenxabidas e frágeis. Altivo, belo aos olhos alheios, ele assim era enxergado. Desejavam-no porque ele sabia provocar. Esse sempre foi o seu maior destaque: voluptuosidade. Não era para menos! Tornava-se mais individualista a cada elogio que era desferido em seus ouvidos: “Belo!”, “Intenso!”, “Esperto!”, “Humorado!” habitavam a jornada auditiva do moço.
E o infortúnio aconteceu, logo que completara 1/3 de vida: amargou-se para os afetos amorosos. A secura passou a percorrer suas artérias. Os órgãos pararam por completo. Surgiu o vazio e com ele o pânico. Imperceptível durante a gestação, mas anos depois voraz. Não se comprometia. Oferecia o silêncio envolto em um sorriso sedutor cujo conteúdo expandia-se pelo despropósito.
Nesse instante a dinâmica em vida tornou-se sem brilho, contraste e cor. Os reguladores se dispersaram. A vaidade se manteve, mesmo a míngua. O rubro cobriu seu leito sem pestanejar. Os diálogos com os amigos eram mais sórdidos. Pessoa alguma representava vontade. O desejo se tornou viral. A casualidade apenas nutria seu desespero ao repousar às noites. Noites insuportavelmente amargas. Alimentava, ainda, as mágoas passadas. “Por que!?” repetia freneticamente, às vezes verbalizava. Comungou histórias tristes de companheiros e mesmo assim continuou solitário, faminto por aconchegos e sórdido. Acumulava dizeres e mais e mais elogios. Sua flacidez era interior, pois, ao percorrer os paralelepípedos do desgosto, percebeu que algo o incomodava. Refletiu! E, através de esforços pessoais inimagináveis para pessoas de boa fé, tentou reconhecer mais afetos. Mais uma vez, e mais e mais e mais vezes. Tentava! E, retornando para o antigo, reafirmava a dor e cristalizava um átrio. Parado, o órgão não conseguia movimentar o líquido que o sustentava. Depois, tentou novamente e esse ciclo de abre-e-fecha emocional o entediou. Cansado, defronte a possibilidade de encantamento como aquele lá da antiga possibilidade desfeita, cegou-se emocionalmente e nem notou. Em dada noite, atendeu ao chamado do envolvido, respirando calmamente e com voz de quem não quer apunhalar se despediu. Colocou-se novamente a caminho do destruidor de histórias em plural: abraçou o tempo.
Enfurecido, escreveu-me dias atrás: “Revivi nesses últimos meses, a minha maneira, o que fui há anos graças a sua frouxidão. Eu preciso me desfazer desse vazio. Alcance-me, por gentileza.”

Quando vem a saudade - Maysa

Nem que algum dia eu venha a chorar
E viver pelos cantos sem nunca te ver
Eu só quero presente podendo te amar
Pois futuro sem ti, eu não vou querer ter

São tão poucos momentos que são como agora
Em que estamos tão perto e te tenho pra mim
Só eu sei como dói quando chega a hora
Em que vem a saudade e eu chego ao fim

Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber o que é o amor

Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber o que é o amor

21 outubro, 2014

Diálogos

O entrevistador questiona o teólogo sobre o simbolismo presente nas religiões. O teólogo responde complementando sobre a perda do mistério, que está banalizando as expressões de crença atuais. E termina: “com a perda do mistério perde-se também o fascínio”. Mais uma das minhas inquietações existenciais que refletirei pelos próximos dias.

10 outubro, 2014

Devir

Ontem nos pareceu tão farto. Quase como um glutão que devora memórias.
Ontem se apresentou tão extenso
quase infinito
dono de um poderio sem virtudes.

Com maquiavélica vontade se apossou de entranhas corporais
expurgou recentes acontecimentos
destronou líderes incorruptíveis
deixou-nos órfãos
fez-me singular e não mais plural.

Ontem
fez de todos nós humanos desafortunados.

Ontem, ah o Ontem!
Com o auxílio do tempo personificado em vontade
legou-nos apenas bons momentos
que
em suas grandezas históricas
desapareceram das intenções.

Ontem
Fez de nós mais comuns que o habitual.

Ontem
eu usei o instante como utilizo de mim mesmo em dúvida
havendo somente uma força que habita em humanos

para não nos esquecermos.

01 outubro, 2014

Queiramo-nos

Entre abocamentos ficamos nós uns nos outros. Inexiste a possibilidade desse fenômeno não acontecer, independentemente das primárias intenções. O interlocutor repassa a intenção ao receptor e ali se firmam sóbrios, quietos e cúmplices. Faltam detalhes, contudo, nos futuros comprometimentos e as pequenas parcelas de cada um se expandem involuntariamente. Deixam-nos inseparáveis de modo que há vontades comuns e sinceras.
Quando cerramos nossos olhos retorna-nos a imagem, do nosso pretendente à boa companhia, exclamando afetos brandos, consistentes. Pedem-nos, assim. Quando cerramos os olhos em dias de luto apontam-nos o reflexo de nossa alegria desvelada em face alheia. Por segundos reconhecemo-nos em uma atmosfera sem paralelos: é como se fôssemos, nós e as boas companhias, um só ser em conexão. Há paz. Hoje, em dias de desvínculos, há prodígios quando nos tornamos nós. Precioso é o franzino feixe que mantém os espíritos unidos por minutos desavergonhados.

Ao cerrarmos nossos olhos e relembrarmos das boas companhias e elas em retrato estiverem ofertando um canto de boca imensamente distante do outro canto de boca são elas mais que boas companhias, são nossas.

24 setembro, 2014

Por favor

Tornamo-nos tão essenciais quando pertencemos aos olhos alheios. Mudamo-nos por verdadeiros motivos interiores, capazes de nos trazerem o bem. Mudamo-nos o nosso universo por momentos singulares, respirações necessárias e toques de paz. Mudamos o nosso mundo.

Reescrito

Fomos (re)criados para pertencermos a tantas coisas. Uma delas é a nossa fantasia, a mais brutal capacidade da invenção mental. Outra é a pessoa humana. Não seriam coisas propriamente, mas situações que nos impedem de verificar nossa universal e precisa vontade de sermos um conjunto e propomos,  erroneamente,  de nos tornarmos seres únicos. Entretanto, estamos ali por nós mesmos, diariamente, com inquietações, ressentimentos, fluidos de alegria e esparsos volumes de solidão. Pensáveis momentos agradáveis em companhias honradas, por um lado, e instantes tão supérfluos ao lado de desconhecidos: tornados paródia da vida contemporânea. Ironicamente, aqueles rapidamente encerrados pelo cronômetro enquanto estes parecem perdurar milênios.

O que sempre conquistamos, mesmo para o bel prazer, pela satisfação de sermos notados por alguém declaradamente próximo é a incerteza de nos pertencermos e pertencermos a ele, simultaneamente. Duvidamos e essa é a mais catastrófica das sensações, após o luto. O receio habitante em nossas entranhas nos eleva a seres ou essências quase sem humanidade, imediatamente. “Não queremos mais sofrer!” sentenciamos, pois, para alguns que nos brindam com suas crenças já fomos ofertados às entidades extra-humanas ou ao universo que gira e por isso não há mais razões em lutar pelo desejável. Pertencimento, todavia, não é uma escolha tão saborosa e pasmemo-nos: nunca será, porque as decisões nos desenergizam de maneira quase absoluta. Há aqueles considerados heróis que nunca desistirão de singulares conquistas, porém.

Atribuímos qualidades desconexas para a natureza humana e sequer pesquisamos o outro profundamente. Não temos tempo. Fica sempre para depois ou para nunca mais. Desfazemos farta paciência para despender com o passado, afinal existem tantos futuros férteis no mundo terreno... Já nos distanciamos de nossos propósitos, desse modo, e fugazmente almejamos a felicidade duradoura, o inatingível idealizado, o insólito constante e o comum disforme. Formulamos desenhos mentais sobre pessoas, esboços sentimentais para predestinados e cálculos de intenções para desenxabidos seres, haja vista que no horizonte da dignidade paira o querer. Sorrimos disfarçadamente mais para dentro porque ao nosso redor substituímos as verdades passadas. Quase verdades, exclamaríamos. Tentamos e já que não se sustentou deve ser descartado, afinal, às entidades extra-humanas ou ao próprio movimento do universo cabe o dia em que iremos viver uma grande experiência vital. Aguardamos atentamente por demonstrações irreais de fidelidade de pessoas caracterizadas por nossas pretensões e pouco por desavergonhadas ações virtuosas. A atitude já expressou o gosto pelo conhecido, sabido, esperado e seguro.


Valemo-nos de competições e apimentadas conversas acirradas para demonstrarmos a superioridade de consciência, raramente encontrada nas saudáveis relações humanas. O elemento motivador do virtuoso é a associação entre o tempo e os saberes. Julguemo-nos por nossas imperfeições e esqueçamos as maravilhas conquistadas pela empatia, originada em um descanso durante a jornada do cotidiano. Teatralizamos estupidamente a dignidade o tempo todo: a alheia, frequentemente, por medo. Suplicamos desejos que jamais se revelarão, por empáfia. Pretendemos vontades eternamente idealizadas, ainda que as neguemos, desafortunadamente. Seria a dignidade alheia tão vorazmente mastigável que não é possível admirá-la enquanto dura vida, mesmo sabendo, que pelo resto de nossa existência inexistirá o retorno após o seu desterro? Com o gasto do tempo em vida já anulamos quase que automaticamente as possibilidades. Quando frágeis em dado momento seremos condenados por todo o infinito. Adotemos o ideal do super homem nietzschiano ao passo do mais vagaroso animal terrestre ou ainda nos apoiaremos na clássica fórmula política em que apenas os deuses e os monstros vivem sozinhos? Ao som de Frédéric Chopin, prelúdio em E-Menor, ópera 28, número 4, encerramos, cônscios de nossas decisões.

06 setembro, 2014

Diário

“Na natureza nada se cria, nada de perde, tudo se transforma.”
Antoine Lavoisier

Não é de costume eu me encontrar comigo durante a rotina diária. Hoje, contudo, inesperadamente dois fenômenos naturais me esclareceram algumas questões.
Estava ali, parado comigo em reflexivo esforço, quando percebi, solitária uma flor cuidada com muito esmero por uma mulher muito especial. Veio a mim uma imagem tão confortável: aquela mulher cuida tão bem daquela solitária flor que sua beleza não se esconde, apresentasse franca e com um singular encanto. Também estava, além de solitária em sua única capacidade de ser, com suas pétalas voltadas para baixo, mesmo em seu esplendor.
Percebi, rapidamente, que atrás de uma beleza há um cuidado tão dedicado que as transformações do cotidiano passam a ser mais conquistas que desencontros, conclui.
Logo, direcionando meu olhar para o lado, e ainda pensativo, encontrei um gato preto sozinho em si e desenvolvendo sua atividade instintiva. Seus pelos pretos e completamente pretos me levaram a acreditar que a sua vida não se reduzia a estar em si, unicamente, e sim em completar o ciclo de vida de sua maneira mais adequada e esperada.
Ao retornar, lembro de admirar novamente a flor solitária, cuidando para que minha memória um dia, lá no futuro que desejo distante, me faça revê-la em imagem. O gato, aquele com pelos pretos e completamente pretos, driblou-me e se adiantou a frente e, parando me olhou com seus olhos de gato preto e completamente pretos. E conforme me adiantei mais próximo a ele, levantou-se e correu para perto da janela que lhe pertencia, pretendendo escala-la com maestria. Antes, novamente olhou-me com seus olhos de gato preto e completamente pretos. Foi ai que aprovei que a ele também eram dados bons cuidados e suprimentos ofertados por uma mulher atenciosa, muito especial.


Éramos três solitários em uma tarde de sensação térmica agradável e atmosfera reflexiva. Já se desfizeram os dias em que me desconfortava um encontro comigo. Verifiquei, por fim, que estive em três ótimas companhias: a solitária flor com pétalas para baixo, o gato com pelos pretos e completamente pretos e eu.

02 julho, 2014

Sabemos

Eu sei que você não está ai agora por mim. Talvez nunca esteve ou mesmo tentou estar, incomodado possivelmente com sua própria existência. Pretendo saber que esteja em outro.
Incertezas circundavam minha mente. Sufoco as sentimentalidades, mas... ainda há migalhas para se desfazer.
Certa vez os mais novos me impuseram uma sentença: você deve estar ocupado demais com os outros e se esquece de si mesmo, não? Quem irá amá-lo?
Desde os primeiros momentos de consciência percebi que seria responsável, enquanto vivo, por minhas ações, falas, compromissos e alma. Alma inquieta, persistente na amizade. Inconformada com as ilusões alheias. Mais uma alma qualquer entre tantas outras. E assim se fez: preciso hoje do desconexo, do frouxo e do insensato.
Bastava apenas um momento certeiro para me manter senhor. Singular, especial e, para mim, eterno. O que se abandonou foram os laços e gestos, não a memória. O saber surgiu para me acompanhar por muitos anos, possivelmente.
Ontem me chamaram de esperançoso, hoje me chamam de estúpido? Porém, vou continuar, exclamei! Bastava-me um adeus insensato como os anteriores, pois inconformado, manter-me-ia intocável. Já não posso mais agradecer-lhe pelo retrocesso, mas sim pelo devir.
Ó Céus, não havia percebido! Não o trato mais na segunda pessoa...

15 março, 2014

Temor

Não havia notado o terror lá fora que nos cerca. Em um nada de instante nos tornamos suspensos de nós mesmos. É meu caro amigo... a facilidade de movimentos corporais que existia em nossas pretensões, propulsora de escolhas individuais, na história da humanidade nunca existiu de fato.
Nos tempos escuros da Idade Média o translado era uma aventura: havia monstros, seres sobrenaturais, espíritos andantes, seres mágicos e tenebrosos. Fazer a mudança de uma cidade para a outra era um desafio assustador para todos os que se amavam. "Cuidado meu filho!" tornou-se a expressão universal do cuidado materno. Espalhou-se para os confins, até mesmo nas ilhas menos povoadas. Onde quer que estejamos seremos obstáculos para outros. Há sempre alguém por todos os lados. Até em cima, em aeronaves, e embaixo em caixões. Alguns, polidos, mesmo sem cumprimentos respeitosos, jamais visualizarão nossas faces. Somos eternos desconhecidos. Restam-nos poucas virtudes, mas a mais necessária no trânsito de humanos é a coragem. Como eu pensei em lhe ver, meu nobre amigo, no afeto mais confortável e seguro para que se lembrasse do ventre que lhe permitiu existir. Como eu senti no despertar de segundos de horror que você viveu a mesma insegurança de estar em uma realidade tão imensa, capaz de nos trazer as imagens do terror antigas.
Entre as virtudes cardinais tomistas quero lhe oferecer, meu herói, a fortaleza. É ela que nos assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. Ainda irei rever o movimento afetuoso dos seus lábios demonstrando a superação do mal.

18 fevereiro, 2014

Tânatos

Parecíamos dois ingênuos corpos em movimento até eu desacreditar na esperança. Lá adiante teremos mais provas sobre dada fraqueza.
Minha vontade era de abraçar o travesseiro e não largá-lo enquanto houvesse inquietações em minha mente. Vovó já alertava sobre os riscos de não dormir bem, mas ela nunca me explicou como deveria ser esse bem.
Houve emoção em cada palavra. Sempre há de nossa parte. Como é prazeroso quando as amadas pessoas conseguem com simples termos dar ânimo às vontades particulares enfraquecidas pelo roteiro dramático da vida humana.
Queria ter me esquecido da infância, ao menos não precisaria mais daquele colo maternal para poder me confortar em momentos quase desesperadores de minha jornada.
Queria poder negar os instantes que gravei em minha memória após ter sido afetado pelo amor de vovó em seu colo.
Desejo de todo modo que a vida não procure mais ser ceifada de meu corpo, pois a força que possuo está gradativamente sendo acidentada.

Bastemo-nos de reclamações e voltemos a admirar a poesia. Somente a fantasia poderá nos revigorar.

17 janeiro, 2014

Desterro

Fomos criados para pertencermos a tantas coisas. Não seriam coisas, mas situações, contudo. Momentos intermináveis em companhias agradáveis e instantes tão supérfluos ao lado de desconhecidos. O que sempre almejamos, mesmo para o bel prazer, pela satisfação de sermos notados por alguém declaradamente próximo, é a incerteza de nos pertencermos e pertencermos aos outros. Pertencimento não é uma escolha tão fácil e pasmemo-nos: nunca será, pois as decisões nos desenergizam de maneira quase absoluta. Atribuímos qualidades desconexas para a natureza humana e sequer pesquisamos o outro profundamente. Formulamos desenhos, esboços e cálculos para reflexões infundadas, haja vista que o horizonte da dignidade paira além do natural. Sorrimos mais para dentro porque ao nosso redor substituímos verdades passadas. Quase verdades, exclamaríamos. Aguardamos pacienciosamente declarações de pessoas caracterizadas por suas falas e pouco por suas ações virtuosas. Valemo-nos de competições e apimentadas conversas acirradas. Testamos a dignidade o tempo todo: a alheia, provavelmente. Suplicamos desejos que jamais se revelarão. Pretendemos vontades eternamente idealizadas. Seria a dignidade alheia tão vorazmente mastigável que não é possível admirá-la, mesmo sabendo, que pelo resto de nossa existência, inexistirá o retorno? Ao som de Frédéric Chopin, prelúdio em E-Menor, ópera 28, número 4, encerramos, cônscios de nossas emoções.

03 janeiro, 2014

Um sobre mim


Indivíduo mais louco, nunca vi ... Mais irônico, mais sarcástico, mais "Fantástico !"... Nunca vi...


Você mostra as pessoas a realidade, de forma tal que é "como é que se fala isso em português mesmo?"... Impossível dizer a emoção que você faz seus alunos sentirem em suas aulas.


Isso não é coisa de um simples ser humano, é coisa do André ...
Alunos que sempre estarão a te admirar... como a mim... Nunca vi... 

Desculpe te tratar como professor, mesmo fora das salas de aula, mas para mim ser professor é como ser um Deus... Deus do conhecimento... E é isso que vejo em você, alguém cujo conhecimento é voltado para fazer com que as pessoas saiam da ignorância... 

Entre muitas frases sobre você, quis mostrar o quão importante você é em minha vida... Um muito obrigado, de um alundo eternamente agradecido, por ter me apresentado a melhor coisa existente na vida... a arte do pensar e do saber.

H. S. L.

20 dezembro, 2013

Espera

Há uma frieza tão grande nos gestos que acabei conquistado pelo medo. Não o receio de perder ou ficar perdido, mas de sonhar. Costumo negar o verbo sonhar. Acontecem instantes tão supérfluos que precisaria reaver o meu ser por completo, incluindo os tais momentos de prazer. Prazeres? Parece-nos tão formosos e estáveis. Farsa! O que somos senão instantes de busca para satisfação de desejos... Ah, basta! Não pode haver mais negações. Não nos alertaram, quando infantis, que o esperar assemelha-se ao sofrimento da perda?

09 setembro, 2013

Nostalgia

Talvez seja anúncio desprovido de pretensões mundanas. Talvez seja o anúncio de um devir mais calmo. Pode ser que as vivências tenham se (re)encontrado. E o que as circunstâncias provam quando estamos com a consciência tranquila? Com que humor enfrentaremos o tardio, o passado ressentido e a amarga ideia de que não fomos desonestos? Que profundidade há na tentativa de ser justo consigo e com os pares? Quisera ter aquela que sempre me retribuía os meus escritos com gentileza e entusiasmo. Sinto falta de ser aquele que por anos atrás se perdeu e se transformou nessa forma humana menos incauta.

09 julho, 2013

Por uma noite igual a anterior

Perplexo comungou de um instante de verossimilhança: causava arrepios ao comentar sobre os detalhes. Eram eles os mais sapecas da noite, envolvidos os participantes em um jogo fraternal. Na espreita do acaso suspirou: "Que os dias sejam tão gentis como a suave brisa matinal em plena primavera." Acontece que ainda era inverno... E continuou: "Que os sons embalem o corpo em pleno cotidiano e que para o melhor possua sempre a vitalidade ao acordar." Já não era tempo de invejar e sim, propriamente, esperar o bom e honesto afeto. Já se fazia madrugada e nem ousavam as nuvens oferecer mais águas. Continuaria por quanto tempo desejando um máximo de sentimento que até então não surgira? Quer-se muito em tempos de escassez de vontades.

27 maio, 2013

A sensação do envenenamento



Justiça não é bem escolha. É a seiva de toda humanidade, por certo. Ela é atemporal. Dois detalhes existiram: o primeiro e menos ingênuo é que eu sempre soube de seu interesse – eu ainda, como antes, continuo chamando a atenção de pessoas inexperientes no amor; o segundo foi a descoberta da sua destacável qualidade: insensatez! Da sua insensatez! O que me leva a não denominar sua presença nesse escrito na segunda e íntima pessoa. A pior sensação é saber que eu nunca lhe amei como julgou me tratar em suas tentativas de me manter aprisionado naquela suposta relação: “te amo”, como dizia desavergonhadamente, já não é uma conjugação valorizada hoje em dia, principalmente para quem já escutou essa expressão verbal centenas de vezes, justamente por pessoas parecidas com você: fracas. Fraqueza que é menos contagiosa com o passar dos momentos afetivos, descobertas de que em nossa vida social o mais importante é se tornar vil! Tão vil que adestramos as palavras para nos mantermos menos afetados pela poção: veneno produzido pela menor capacidade que já encontrei nestes últimos anos. Em qual estado da natureza julgou possuir autoridade para ousar me inebriar com palavras tão esparsas, profundamente ocas e insensivelmente aprisionantes? Torpe! Ínfimo cadáver sem ética! Monstruosidade fugidia e que em momentos descontraídos esquecia-se do disfarce. Nunca poderá me assombrar, nem mesmo agora em que após o término de uma relação enfraquecida foi, propriamente, mais honesta a aquele que o permitiu recolher, por simples instantes, sinceridade. Bondade, ora! Serei misericordioso, contudo. Afinal estamos em patamares diferentes. O tempo o sentenciará! Com meu auxílio determinarei: a jamais adentrar novamente na carruagem em que por dias o vento pretendeu abençoar sua face. Não só pretendeu furtar-me, mas sim ao tempo e a ele não se ofertam devaneios gratuitos. Ele é rancoroso. Você se tornou tão vulnerável que os ramos dourados dos antigos mitos jamais encobrirão seu corpo. Quer mais indesejável veredicto? Para toda a sua história de vida estará envenenado! Contudo, há uma alternativa, agora. Não sou eu quem a ofereço certamente. Somos seres no mesmo embalo de vida humana. Criou para você um labirinto! Se reparar as virtudes, poderá reconhecer antes do término de sua respiração a contemplação e a magnitude de uma vida sadia, apesar dos enganos comuns cometidos. Todavia, se por fim, em leito de morte, houver esquecido as virtudes, findará envenenado pela própria soberba e a ela Prudêncio, poeta romano, recomendou a modéstia, vigiando-a durante toda a jornada. Somos nossos próprios algozes. Cabe a você o despertar, ausente meu auxílio.

04 setembro, 2012

Por fim


Já sabemos que tudo que tenha vida um dia se desfaz. Desfaz-se a forma e a essência. Fica, contudo, a lembrança: de ser presença sincera, de ter conquistado felicidades, de superar em conjunto as limitações e violências. Já se sabe, também, do fim inesperado. Das incapacidades de fazer reviver alguém em nosso cotidiano. Mas o pior é enterrar alguém tão próximo ainda vivo, mesmo sem essência. Sufocar com terra ou até mesmo queimar momentos, imagens, auxílio e cumplicidade. O fim não pode ser em si mesmo, mas no outro. Arde demasiadamente no peito de quem ouviu os rumores maternos e se compadeceu. Se a mão atinge não foi em vão: porque lá havia o último fragmento de amor. “A mão foi minha, o gesto foi teu.” Medéia