15 junho, 2020

Solitude

Há anos reparo nas pessoas que me beijam. Foram beijos desimportantes na sua maioria. Na verdade, eu nunca estive muito preparado para beijar alguém em diferentes circunstâncias. De fato, eu sempre mantive uma esperança em ser envolvido por um toque singular, original e indefeso. Isso não aconteceu até lhe encontrar.
Como sempre os meus começos acontecem erroneamente. Você nem havia me reparado antes. Eu era apenas um conhecido. Nada muito diverso do que são acometidos outros casais. Casais? Que pretensão a minha, não?
Mas todos, todos exceto você, vieram acompanhados. Havia neles espírito, enganos, vontades, intenções, desejos sexuais, volúpia, falsos discursos, encantamentos etc. Exceto você! Você nem queria ter vindo. Você não é de ir, mas sim de ser conduzido. Ocorreu algo entre nós que já se esvaiu, mas não totalmente, ao menos é o que está acontecendo.
Creiamos que tudo esteja bem, em vista da sua imprudência do passado. Porém, ainda está ali, sozinho, vazio, como se estivesse intacto pelas suas más escolhas. Pulsa em você vontades. Quais exatamente?
É isso! O que exatamente lhe motiva em chamar o meu nome? Nada generalizado, pois poderia ser quaisquer outros nomes. Algo que esteja relacionado a mim, intensamente? Creio que não. Enfim, poderíamos ter continuado a ser íntimos? Provavelmente não, também. Talvez encantados? Não, jamais. E agora? O que temos?
Você não me tem. Possivelmente não me terá outra vez. Eu tive a sua ausência desde o primeiro, e interessado, beijo.

11 maio, 2020

Permissão

Eu perdi aos poucos o controle da minha vida.
Aquele que dizia ser íntimo não condizia com as verdades.
Pouco a pouco se confundiria entre afetos
de se manter toda apreciado.

Eu prometi há poucos dias
que a minha sorte era para o outro lado.
Quem ao menos me percebia
intentava me provocar com desajeitada maestria.

Logo, eu que pertenço a uma incontrolável ironia
desenrolava um fino trato
perguntavam-se o que sentia
entretanto, o peito já maculado.

Ao me ver tão distante
Aquele que se promovia
Descontinuava sua simpatia
Voltando-se contra a minha incompatibilidade.

Já desgastados de um leva e traz de pretensões sem fim
Enxugariam seus intentos ao pé da cama mal arrumado
traziam nenhuma recordação e qualquer fantasia
Mesmo, por fim, ainda inebriados.

10 maio, 2020

O amor nunca vence

Hoje, por respeito próprio, deverei tratá-lo como se fosse desconhecido. Eu tinha tanta coisa para você. Coisas verdadeiramente bonitas, incríveis, minhas e eram todas para serem doadas por motivos da paixão. Beijo demorado é uma delas. Parece fantasioso acreditar nesse encontro de lábios saudosos, mas nunca foi, ao menos, e somente, para mim.
Quando nos conhecemos, saiba que eu não o desejei. Talvez eu nunca tivesse pensado em lhe tocar. Motivado por terceiros, acabei deixando você tentar uma verdadeira aproximação. Verdade, sabe? Não, você se afastou tão distantemente da verdade que agora se tornou um estranho entre os que o querem bem.
A paixão aos poucos foi dando espaço para a cautela. Violência! Pensei em enfrentá-lo, mas deixei que pudesse demonstrar empatia. Não houve e tenho claro que não tem a mínima habilidade da empatia. Seus olhos... naquela noite... seus olhos me assustaram e me questionei: como pode tão jovem corpo sofrer da incapacidade de amar? Qual o tamanho da dor que o transformou inabitado? Sem alma!
Voz vazia, pele sem textura, abraço sem força, mãos ocas, cabelo sufocado pelo chapéu, olhos vendados pelos óculos escuros: poderia, se houvesse refinamento, ser um personagem de histórias de suspense, mas que de fato não passava de um trailer trash. Péssima produção. Verdadeiramente egoísta. Olhos ocos. Monstro!
Exitei, confesso. Envolvi-o, com engasgos na garganta, de palavras doces para meus companheiros. Fingi, declaro. Orquestrei uma aproximação. Engoli o seu orgulho e o modo como me rejeitou na frente de outros. Desumano! Já não me afetava mais.
Provoquei um cenário de paixão sólida. Não se empolgue, era apenas uma atuação.
Hoje você deu a sua própria conta. Criou prova contra si. Amarrou-se de vez no abismo da insensatez. Que a sorte livre os bons de seu caminho.
Se tivesse me solicitado, falta em razão da sua limitação cognitiva, eu o teria conduzido, mesmo que de má-fé por sua escolha, em um modo mais criativo de se vingar de quem não tem a culpa de você ser em nada especial. Você se faz vítima de uma vida que, de fato, não tem sentido algum. Ademais, eu não quis acreditar que pudesse ser uma verdade: seus olhos estavam vazios e continuava a conduzir o próprio corpo para a ruína. 
Desejaria a você a sorte de poder um dia, preencher seus olhos com desejos mais verdadeiros que seus beijos e totalmente mais reais que suas palavras. Quando me atenho minha visão para a última imagem sua vejo você debruçado em cima de uma mesa escolar, adormecido, com postura patética de um jovem que já desfalecido espera vingar-se da humanidade por sua única incapacidade de se fazer feliz e a fazer outros encantados, numa enfadonha cena ridícula de conquistas medíocres, de posturas abjetas e singularidades nada originais. Despeço-me, sem olhar para sua direção.

02 março, 2020

O nome delas

Por muito tempo, na verdade por todo o período que compreendo pela razão sobre a minha existência, eu me incomodo com meu sobrenome. Não necessariamente, apenas, contra o sobrenome, mas com o ritmo que ele dá e a sonoridade incabível em conjunto com o meu nome.
A história já se inicia nefasta e desafortunada porquê não fui eu quem o ritmou - penso mais que seja por uma questão de sonoridade que de ritmo, mas manterei aquele primeiro - e tão menos poderei alterá-lo: é que a lei dos homens excepcionam a mudança e a minha situação não se faz regra.
Verdadeiramente, o primeiro incômodo foi ser retirado do útero e ter sido depositado em um berço sem realeza (o que antes na adolescência incomodava mais). Por vezes, reclamei, apenas para mim, sobre a questão. Minto! Havia comentado com um ou dois sérios colegas de convívio, nada muito profundamente.
O segundo ponto é que minha mãe deu a minha tia, irmã de meu pai, a oportunidade de escolher o feito, e assim o fez: contam que era por causa de um mentor espiritual ou que poderia ser em razão de um personagem novelístico na época de meu nascimento - um gajo muito garboso, comentaram. 
O fundamental ponto, contudo, é que o nome completo não se alinha! Demônio!
Ele se faz, quando chamado por inteiro, harmônico, mas, infortunadamente, quando separado parece uma tirania de gritos e resmungos. Para completar a inquietude, ainda possui em dupla de títulos: são dois nomes e dois sobrenomes. Apesar de não ser uma chamada original, não é penetrante aos ouvidos mais sensíveis a ponto de perturbá-los: "é só um modo de falar", haviam me alertado. Ninguém comenta em uma trivial conversa o título completo de uma pessoa física! Sempre aos pedaços ou por cognome. Ali outra perturbação: nunca se referiram a mim e muito menos por minha permissão por apelidos, o que demonstra a minha aptidão em ser nomeado pelo que foi registrado em cartório mesmo.
É um sentimento de não pertencimento, não sabe?
Anos preocupado em como eu poderia me apresentar, surgiram opções. Todas derivadas e comentadas, criticamente, dentro de minha mente, com suas respectivas emoções. Lá vão!
Opção primeira: usar os dois nomes e o seguinte sobrenome. Fica grande e sem sonoridade. Deprimente. É como se a pessoa corresse e quando estivesse com a máxima velocidade o espaço se acabasse. Ponto.
Opção segunda: usar os dois nomes e o último sobrenome. Incompleto, mas forte. Mesmo assim não me parece adequado para uma apresentação formal, sabe? Um nome de autoria de obras clássicas. Não que meu nome seja de representação antiga, apesar de sua origem ser deveras arcaico. Mas o som, entende? Traz um humor de antiguidade e minha aparência ainda reluz jovialidade.
Opção terceira: o primeiro nome 

Aprender a beijar

De todos os aprendizados que me ofertaram o mais incrível que não consegui, ainda, apreender foi beijar. Beijar... Beijo já começa com a segunda letra do alfabeto. Nada demais até ai. Com o tempo, e com a perda do envergonhamento juvenil, começamos a beijar bochechas com mais ênfase. Concordo com os críticos de que beijo desavergonhado é melhor, contudo, não me satisfaz. A envergonhação intimida até os mais bravos.
Certa vez percebi, conversando comigo mesmo, que beijo desajeitadamente. Até ai nada demais, também. Aprendi a coordenação motora, sei caminhar sem tonteadas. Consigo ficar por poucos minutos com uma perna só. Sei olhar com atenção e presteza as características de quem (ou do que) me afeta. Sei até “pisar em ovos”, como dizem os mais humorados, mas, infortunadamente, não aprendi a beijar.
Ouvi muitos clamores dos inebriados por aventuras românticas de que o beijo, só por seu ato de realização, elevaria as sensações e se bastaria. Bastaria...
A quem se basta? Ao patético desafortunado que mal consegue chupar umas laranjas? Ao ridículo que deseja os lábios de alguém que não lhe deposita ao menos uma piscadela? Ao esdrúxulo casal, em banco carcomido da praça, envolvendo-se em prisões desnecessárias a um espetáculo grotesco em frente à população invejosa? Ou a você que nunca permitiu ser beijado (a) com afinco?

05 julho, 2019

Nu chão

O que fica em nós quando o outro faz escolhas egoístas? Talvez o corpo já usado e cansado. Talvez a sensação de esperança. Talvez um reencontro e, por que não, um talvez "você seja melhor no próximo relacionamento"... Amoroso? Provavelmente enganoso, mas não amoroso. Dedicação e ingratidão fazem parte do mesmo horizonte e de sua história. Estariam na mesma linha com o menor dos esforços. Banho e cama eram fartos, mas seu desânimo consigo mesmo era demasiado. Sufocante! Não para mim, contudo. Escolheu uma aventura tão sem graça que não tinha mais palavras para a desfaçatez. Nem mesmo seu cúmplice, por mais asco que se possa existir nesta cidade conseguiria preenchê-lo, teve dignidade em lhe defender. E o que ganharam? Só perdas incríveis. A mim.
O que sai de nós quando o outro não sabe que nos ama ou se esforça para gostar? Fingimento, talvez. É como o tingimento de tecido. Não se quer a cor ou o estado original e tenta florear, paquerar, iluminar, acreditar etc. Quaisquer sensações oriundas de apenas um lado de uma pena de relação é a medida mais saudável para a consciência. Mas a quem estamos enganando quando invocamos a consciência? Só se tem consciência ("com ciência") quem pratica a ética e ética é vivenciada desde a tenra idade. Começamos quando estamos nus. Totalmente. Aos poucos a imagem da mulher vai se distanciando e vai se apresentando a própria imagem. Se se pedirem hoje, por curiosidade, que você mesmo fizesse seu autorretrato, provavelmente, não conseguiria. Há imagens ainda em construção e o horror interno parece nos atrapalhar. Eu vi o seu horror e o mais engraçado é que não me incomodei em nada com ele, com você, com vocês. Quando não mais nus, estaremos ainda no chão. Algumas pessoas se levantam e seguem vivendo. Você se recusa a levantar. A se levantar do chão gélido. Gélido como o coração de algumas pessoas... como o meu próprio coração. Frio como o seu coração é. Quando imerso em prazeres o sorriso era farto, mas quando se precisava crescer ai as dificuldades, as falsas impressões e erros da humanidade ficavam tangentes. Que coisa, não!? Do chão frio e da nudez para a insensatez. Não nos culpemos, foi tudo ótimo... ao menos eu soube viver a algum lado qualquer, independente de você. Já nem conhecia mais você e reconhecia de que lado estava. Esteve do lado do cinismo. E do meu lado eu me apaixonei, porque escolhi viver. Jamais poderia exigir, me enraivecer por sua ingratidão. Jamais! E não farei isso. Fique tranquilo. Vou contar sempre a minha versão dos fatos. As pessoas que façam seus julgamentos. Afinal, mesmo sendo sincero e sem uma gota de pretensão pessoal, quem vive e ama viver ao redor de companhias, tentando conhecê-las e entendê-las, pode ser acompanhado até mesmo por um animal.

13 janeiro, 2019

Eu estive lá fora sem você

Hoje vi que morremos mais rapidamente num lugar que amamos, mas que não é possível haver amor.  Se há, pessoalmente não percebi. Nem notei! Hoje acompanhei uma noite com brilhos que iluminavam meus olhares e entoavam divertimentos. Mas eu, logo eu que era da noite, já estou morto. Ela se fez fúnebre. Como se estivesse me enterrando na cidade cinza.
Hoje morri mais depressa porque a minha ira não foi contida. Foi incentivada pelo calor incomum. Houve desajuste, implicância, desventura, raiva, descontrole, revanchismo, regateirice, rusticidade, desprimor, inconveniência, ruralidade, aniagem, desmesura, asselvajamento, desamabilidade, despolidez, indecorosidade, insolência, impolidez, incivilidade, indelicadeza, desconsideração e pavor. Justamente porque não quis me ver. Inventou um descuido sobre meu contato. Desfez de minha amizade. Desonrou minha atenção e, quando me escreveu, ousou me culpar. Morremos! Eu já vim morto para cá. Não me interessa saber sobre seu estado já que não quis me atender.
E por que motivo morri mais depressa na cidade cinza? Foi porque a minha mais sincera demonstração de cuidado não foi feita pelo amor.

08 janeiro, 2019

Lábios

Há uma mistura em você: dentro de você há um você que você não vê. Alguns poderão até vê-lo, mas sempre enxergarão o sorriso que você demonstrar e o som que entoar. Percebem mais facilmente a face séria, mesmo musicada, também.
Na verdade você sorri para você mesmo, infortunadamente por pouca idade, você não percebe você mesmo: não, necessariamente, você, mas a mistura que é você.
Na verdade, verdade mesmo, há um você sóbrio, que não quer se enganar a você mesmo e a ele. Você até percebe que você está em você, vinculado, moldado, envolvido, relatado, musicado. É uma mistura quase conexa perfeitamente. Quase porque é você que ouve sempre, mas não você, é aquele você. Você ouve outros vocês em vozes alheias. Um você que se vive com o outro você pela música. Há até lábios livres em você.
Na verdade, sem falsas ideias e desonrosos sentimentos, você ao se voltar para você acaba sendo o você que sorri, por um lado, mas fica sisudo no outro lado: é a mistura, sabe?
Você não se perde, mas também não se alcança, justamente, porque o você ao tratar sobre você que está rindo, é o você mais vívido enquanto você fica sério. É pura mistura, ocupando o mesmo lugar no espaço.
Você não precisa entender você, ainda. Você nem deve ouvir você, enfim. Você, talvez, nem pretenda. Bastam vocês.

28 outubro, 2018

Se eu pudesse


Se eu pudesse eu o abraçaria. Eu o deitaria em meu colo e contaria as mais humoradas histórias fantásticas da humanidade. Todas as mais fantásticas histórias porque eu não pretendia doar a ele o pouco, por mais intenso que seja o infinito da imaginação humana.
Se eu pudesse eu o beijaria as bochechas para que se sentisse mais meu e menos do nada. Afeto deveria ser linguagem entre humanos. Todas as línguas deveria se satisfazer com o afeto, por mais diversas que sejam as culturas.
Se eu pudesse eu o contemplaria. Já não basta o tempo que o universo lhe determinou para um fim e ainda a luta que tenho que travar contra o finito para que a memória sempre esteja frutífera? Não, não basta o menos.
Se eu pudesse eu o viveria. Para que sofrer sozinho se abraçar acalenta o corpo e desperta a alma para a vida?

A cor de Adão

Por pouco a mão divina não recobriu o barro com saliva distinta. Já deveria ser a sétima vez que o Criador tentava modelar a Criatura. Criatura de pouca substância, mas com forma bem aguda e delimitada. A medida deveria ser: a mínima não poderia superar a metade do comprimento do membro inferior e a máxima não ultrapassaria o dobro do membro superior. Entretanto, não queria o Criador deixar a natureza monótona e resolveu implementar exceções e casualidades nos nascimentos futuros.
"Já viu a cor do barro?", interpelou o arcanjo. "Não existe barro branco.", condescendeu o anjo. "E sobre qual peça Ele deverá se ocupar?", demonstrando receio."Rerum novarum.", arranjou o outro. "Devemos aguardar, Ele já se atrapalhou anteriormente."

31 agosto, 2018

O especialista

Parecia estar em mais um tempo de descobertas. Não era antigo demais para deixar de perceber os grandes detalhes estéticos humanos: as curvas; e tão pouco jovem o bastante para se esquivar na timidez da idade. Foi com uma lupa ocular, quase de nascença, que o fez ter um olhar de perito. Descobrir curvas humanas. As mais belas, todavia. Com o passar dos anos, aprimorou o foco e, como se gracejasse em conversa alheia, notou! Era demasiado observador e não era por curvas quaisquer: era pelas mais formosas, as que aquietavam-se num corpo ordenadamente... num corpo...
Antenado com as Artes, pousou sua atenção em quadros renascentistas e foi se debruçando, logo, em outros tantos de posteriores épocas. Da Vinci! Ah, Da Vinci! Como queria ter presenciado os diálogos que tivera com aquela mulher. Seu nome se parece com poema e sua face era a verdadeiro despropósito: seria o seu esplendor. Seria... é! Que curvas! Levemente davam vida àquela face. Uma demorada sombra nos lábios superiores levaram a criar uma sensação de paz. Qual sensação mais nobre repousaria em seus lábios?
Adiante, recuperou a concretude da vida. Esqueceu-se, porém de orar para a luz. Despreocupou-se com o contraste e... ZAP! Perdeu-se. Foram noites e madrugadas sem sonhos. Manhãs que inexistiam formas. Apenas abstrações. Retas. Losangos. Triângulos. Caducos. Vazios. E, certa vez, de repente... surge uma curva discreta, em um sorriso desavergonhado. Certeiro. Acertado. Dado a requintes de bom trato. De entortar o pescoço para admirar. Vejam só! É, então, ai que renasceu a cor, o brilho e uma luminosidade cujo contorno deve ficar gravado em mim para sempre.

13 junho, 2018

A vista

Mesmo que eu tenha essa repulsa por outrem, o mais verdadeiro asco pelo animal, ele sempre esteve presente em minha vida. É como a esperança, algo desafortunado que nos impede de o exercício da real felicidade, mesmo quando ela se compreende, apenas, como passageira.
Eu não permito aproximações minúsculas. Considero isso um desatino.

23 maio, 2018

Amado

Eu sei, bem como você também, que as imagens que porventura sobressaiam em algum intervalo do nosso dia-a-dia são sobre nossas memórias e não parecem menos árduas do que antes do distanciamento. Podemos seguir em frente com nossas escolhas em nossas vidas sem sentidos: ao menos tento aproximar você do meu suplício, e ainda iremos nos esbarrar, mesmo naquelas mais longínquas lembranças que ocupam o mais profundo de nossas mentes. Não haverá cobrança mais, pois prescreveu o tempo de nossa amizade: agora somos apenas memória. O distanciamento nos auxilia e, simultaneamente, nos perdoa, mesmo que seja apenas uma ilusão. Você e eu não fomos uma escolha, nós nos escolhemos. Eu e você não fomos apenas uma idealização de perfeita irmandade, eu pereci e você não se importou. Você e eu não fizemos devaneios, não houve oportunidade. Eu e você seremos apenas conhecidos num oceano de sofreguidão. Nós seremos somente passado. Temos, ao menos, uma cicatriz em comum: o medo de não sermos amados.

21 julho, 2017

Quando

Quando você se apaixonar o mundo vai se tornar diferente, na verdade as pessoas se apresentam diferentes. No fundo, no fundo, nada mudou. Nem mudará. O vento continuará a soprar em cantos que antes você não percebia. O vento... o ar é o elemento essencial para seus pulmões, mas quando você se apaixonar, nem irá notar os arrepios que ele provocará.

Quando você se apaixonar a tela do cinema passa a ser o aconchego ao lado de quem se admira. Realmente, nada se transformou. O ator continuará a ser o protagonista ilustre, enquanto o vilão está a assombrar as mentes inquietas dos cinéfilos. O filme... a cena é um recorte de uma história essencial para nossa distração e entretenimento, mas quando você se apaixonar, não perceberá que as mãos já estavam juntas, desde o começo.

Quando você se apaixonar os trabalhos acadêmicos não serão um imenso entrave, enquanto você tenta focar sua atenção nas leituras e escrita. De fato, as coisas permanecem como estão: em cima da estante de livros e anotações espalhadas. As anotações são pedaços de um lembrete que não se pode esquecer. As anotações... as palavras são fundamentais para a coerência do texto, mas quando você se apaixonar, de repente notará que o sorriso já se fazia em seu rosto.

29 maio, 2017

Hoje eu sonhei com você de novo

Ontem eu estive chateado. Chateado com o mundo e com seus habitantes, os mais próximos a mim ao menos. Nada dramático, apenas chateações que surgem no decorrer do dia. Eu sei a fonte principal do descontentamento que me perfura e, como sempre pretendo, evito expor o ser insuportável que habita em mim.
Quando me deitei, tentei escapar da vis intenções que percorreram a mente. Eram coices e desequilíbrios emocionais e em nenhum deles vocês esteve. Era final de dia. Passei, contudo, meses tentando sentir raiva da sua ausência. Confesso que não é comum eu conviver com amáveis sentimentos sobre as pessoas, mas nessa situação parece ter me preenchido imensamente de amor, desde quando caminhávamos juntos à noite no Parque.
A maioria das pessoas não entenderam esse convívio. Talvez, nem mesmo nós dois entendíamos. Pois foi assim que nos distanciamos: casuisticamente.
Tenho a impressão, contudo, de ter deixado você me amar muito além do permitido. Como se fossemos um casal encantado. Perderíamos nossa independência, afinal nos conhecíamos muito bem, ou, como se queira hoje, diplomático, conhecíamo-nos o suficiente para não arriscarmos um devaneio emocional.
Quando percebi que estava sonolento o suficiente para cerrar os olhos, veio a mim a sensação de incompletude, abstenção e vazio. É ruim esse sentimento, mas como estamos em tempos de absurdos, desfiz-me dessa empatia por ele. É degradante a um homem quando se apercebe que está com saudades de alguém que amou e esse alguém ainda vive. Está no limite do ridículo, pois o pensamento não arreda e continua circulando imagens passadas.
O sono foi se apossando de mim e como sempre me inquietei. Passado um tempo que não percebi, já estava em sua frente. Seu rosto devidamente delineado demonstrava sisudez e antipatia. Também pudera, já não estávamos mais abençoados pela graça da intimidade. Questionei se estaria com saudades de mim. Deu um sorriso acanhado e desenxabido. Eu entendi e por dentro algo agudo perfurante rompeu, rapidamente, a borda de esperança que resistia. O tempo é o pior inimigo dos humanos, mesmo os mais fraternais. Não resmunguei, por certo, em sua frente. Tentei remediar o abismo ali posto por você com outra pergunta, mas me esqueci qual era. Você se virou, andou alguns passos incontáveis e soltou que estava de partida. Eu, querendo insistir, e mesmo desmotivado, deixei-o quieto e com o seu andar nos distanciamos. Você desapareceu para aquele sempre.
Acordei, pouco menos emburrado que a noite anterior. Tomei-me pelas águas em banho e deitei-me novamente entre o lençol remexido e os travesseiros. Esqueci de desligar o abajur e, ainda sonolento, voltei a procurar sua imagem em sonho.

03 abril, 2017

Alcance

Desculpe-me, eu passei o dia inteiro evitando pensar e ver suas postagens na rede. Passei horas entre o cansaço de um final de semana intensamente juvenil e as primeiras horas da futura semana em um domingo sem esperança. Já devo ter reclamado ao menos todos os domingos sobre o ar que paira durante esse que é o mais desastroso dos dias. Preciso descansar... Descansar do que? Um dia de folga para quem, para o coração, para a mente, para a vontade de repetir o beijo? Folgado é o domingo, pois bem ele foi criado para isso! Que os diabos me lambam!
Eu sei, eu sei... o que aconteceu já é passado. Eu sei e nunca me privei de experimentar novas relações, mas... não tem porque me envergonhar, não é mesmo? Eu consigo pensar que foi bom para você, enquanto para mim, além de surpreendente, foi muito bom. Eu diria ótimo. Eu sei que haverá garbosos pensamentos sobre o seu desempenho, envolto em um olhar despretensioso, demonstrando agradecimento, mas é que o mais importante agora seria a minha sinceridade. Também não estou me empobrecendo... O ponto não sou eu, necessariamente...
Por que eu escrevo isso? Porque quem já está endurecido de solidão dificilmente se sente íntimo do afeto alheio. É claro que o meu pessimismo amoroso não me levará a nada, mas se ao nada estou imerso e o pensamento positivo não resolveu até hoje, o que me impediria de me esbaldar no pessimismo?
Eu cheguei em casa o mais rápido possível. Ninguém me esperava. Eu acabei me banhando novamente. Esqueci de fechar a porta e acabei nu em frente ao espelho. Por ter saído do contato com o seu corpo e ao enxergar o meu reflexo foi como se eu houvesse me visto pela primeira vez e tomei-me, por hora, de um outro pensamento: a feiura.
Com o passar da idade e das capacidades, as pessoas parecem se certificar de que melhoraram em todos os aspectos: falácia. Elas aprendem, assim como eu tentei lhe ensinar, que o tempo amplia nossas percepções: idiotia! Nem eu acredito nisso. O tempo, por ser o mais poderoso dos deuses, só destrói. Eu e minha pretensão de ser grande num futuro em que o fim é certo, determinado e imponente já me faz pensar em quão ridículo me tornei. O mesmo fim que parece estar a minha certeza sobre meu alcance é o fim que eu mesmo me encontro, ao menos em um dos períodos da jornada diária, todos os dias.
Lá vou eu, novamente, na seara da improdutividade emocional. E não faça essa cara de compreensão e entendimento. Onde estão as suas reações emocionais? A fonte da minha angústia está nas grandes pretensões que eu lancei para que as alcançasse sem muito esperar. E o que eu alcance? Beijos e afetos menos responsáveis. Celibato compulsório por me arriscar em aventuras imorais. Dúvidas sobre o meu real desejo, enquanto me definho dentro do meu quarto, que você nunca visitará.
O mais interessante é que sua beleza não deve se fixar em minha vontade, somente em minha memória. Seu encanto deverá ser de outro e não meu, afinal não ensino a beijar e nem a surpreender as pessoas. É como se você soubesse que eu iria ao seu encontro e eu, magicamente encantado, me permiti reviver essa experiência: a do beijo alheio ofertado a mim, sem minha iniciativa.
Antes que você se vá, saiba que o nosso tempo de intimidade foi, profundamente, satisfatório e doce para mim. Inexistem explicações a partir de agora, concordo...

Quando repousar, desejo que durma tão bem, como se pudesse caminhar sobre a maciez das nuvens e acordar em volto de caridade.

14 janeiro, 2017

Por que?

Sempre duvide de mim. Duvide do quanto eu possa lhe dar. Possa pretender oferecer. O que eu ofereço é artificial, momentâneo e despretensioso. Sempre desconfie do meu sorriso. Ele é rígido e seguro, mas indevido: é apenas cenográfico. Desconstrua as certezas sobre mim e muito menos acredite que esteja havendo um "nós".
Retire de sua memória as palavras dóceis que lhe ofertei quando nos apresentamos. Oferta de menos é o maior lucro conquistado. Quando toquei seu braço foi por descuido e não para insinuar desejo, porque eu não o sinto ainda. Não fico imaginando estar ao seu lado quando acordar e convidar para o cinema num sábado à noite. Minhas intenções são nulas. Eu estou nulo. Talvez eu o seja para sempre. Já não consigo mais pertencer à alma alguma. Elas são sem nutrientes para mim. Você é sem nutriente para mim. Não tem fibra, força. Jamais me estimularia. Absolutamente, desnutrição.
Por todos os santos e santas, destrua esse sentimento que ousou possuir, pretensiosamente. Você não tem sustentáculos emocionais para me pedir que fique. Seu lado é o menor espaço que eu poderia residir. Ele é claustrofóbico, deprimente, inseguro, imaturo, desenxabido, desagradável, desinteressante, impróprio, envergado, dissimulado, vil, torto, impuro, infiel, inacabado, úmido e, fundamentalmente, não meu.
Sempre duvide de mim. Procure manter distância. Seu odor altera meu humor. Fico irritado com a possibilidade de poder encostar meu nariz na sua bochecha ao cumprimento polido e exponencialmente desnecessário. Envolver minha mão por volta de sua cintura e sussurrar ao seu ouvido? Por favor! Precisaria pedir perdão aos deuses e ritualizar centenas de vezes cerimônias de purificação por ter me descuidado e permitido que você me beijasse.
Por favor, repita várias vezes para você mesmo até entender: "Ele não vai conhecer a minha mãe!". Quanto tempo a mais vai precisar para aceitar que não farei companhia a sua mãe? Nem o nome dela eu quero ouvir. Sentar no sofá e fingir empatia com ela enquanto eu espero você terminar de se arrumar: jamais! Odiando estar ali e na sua mente considerar que eu e ela já nos conhecemos o bastante e queremos o seu bem. Ela quer o seu bem, até o melhor se comparado ao que ela escolheu para a própria vida, mas eu? Eu abomino a sua pretensão de sentar ao meu lado no metrô e segurar a minha mão em frente às pessoas. Não percebeu que eu estou imensamente envergonhado? Olhe para dentro de si e veja se pode ser interessante para mim?
Sempre duvide de mim, muito pelo o que eu lhe ofereci e pouco pelo o que pensei e não ousei comentar.

10 janeiro, 2017

O meu rosa para o seu azul

Particularmente, penso pouco no meu presente. Imagino sempre caminhando por entre névoas humanas, infelizmente. Mas hoje foi incomum. Digo incomum porque raramente me surpreendo e hoje, como não esperei, surpreendi-me com algo humano. Não pense que deva ser humanos vivos: pelo contrário! Arrepiei-me com os mortos. Delacroix, Degas, Picasso, Di Cavalcanti, Manet e, claro, Renoir.
Os humanos vivos são sempre previsíveis, mas não os quero em meu primeiro plano, justamente por ter me reencontrado nas obras de arte mais vivas que já visitei, até agora. São telas e esculturas (uma helênica, outra romana e duas chinesas) que povoavam o meu imaginário artístico incompleto e reviveram novas ideias e impulsionaram outras reflexões. Há mais dúvidas agora e elas se apresentam a mim como aliadas, dóceis e instigantes. Quero mais, voltei a querer mais! Ter mais sede do que se pode sentir diariamente. Desejo profundamente me embalar diretamente no imaginário das artes plásticas para poder voltar a respirar. Poder saciar minha dúvida sobre quais obstáculos antropológicos foram ultrapassados e vencidos. Venci o medo? Creio que não, mas já o reconheço aqui dentro de mim. Medo que me impede de querer voar mais distante e alcançar algumas sensações de estar em frente a uma estátua helênica ou até mesmo vivenciar a contemplação de poder mensurar os centímetros de uma estátua ameríndia de uma divindade de dez mil anos. Essa felicidade, momentânea, que vivenciei ao lado de humanos vivos a contemplar a memória de humanos mortos, me reanimou a definir novos traços e experiências: uma é não se desenxabir frente à possibilidade de encontrar o passado. Sobre o futuro não quero me ater mais. Ater-me-ei ao meu presente. Vem comigo?

21 novembro, 2016

Sonhemos!

A cada dia pareço estar mais disposto aos sentimentos nietzschianos. Cada minuto se apresenta necessário porque a cada minuto eu preciso mais e mais dos humanos. Um dos meus dias menos favoritos é o domingo. Domingo, para quem não está em ofício, é dia de preguiça. Ouvir música, sair com os familiares, tomar tereré em frente à casa com as amizades, paquerar pelas redes sociais e vivenciar a procrastinação.
Certo domingo, após realizar um dos meus sonhos: homenagear uma mulher muito amada, estive prostrado diante de outro bom desafio: desafiar meu tempo livre e ressignificar o domingo.
Ao som de pássaros eu me entendi novamente frágil. E o que me faltava? Era o toque. Toque, toque mesmo. Toque para meu entendimento é o ato mais necessário que o humano pode promover. Muito antes da respiração. Nós antes de nascermos estamos imersos dentro de nossas progenitoras e nem respiramos ainda. Toque é o verdadeiro motivo para nossa sobrevivência. O toque de quem e para quem se demonstra o amor é essencial. Eu só preciso de um abraço bem apertado e um dedilhar de dedos no cabelo. Parece improvável para os próximos anos, contudo.
Cedi à tristeza, mais uma vez. Ela se certificou que dessa vez iria permanecer mais que horas em minha companhia. Pesquisou sobre mim mais detalhadamente. A danada se mostrou mais astuciosa. Determinada, causou-me o primeiro desânimo: o sorriso não apareceu mais como antes. Após alguns minutos de descanso, ela insistiu em me derrotar de vez.
Consegui abrir os olhos com extrema dificuldade. As memórias da homenagem recomeçaram e eu pretendia o mais rápido possível repeti-las para meu deleite. Bobagem! Sentei-me, mesmo sozinho, em frente a mim. Percebi que faltava algo e pedaço considerável de meu coração alertava para o que realmente era. Quanto vazio a ausência provoca! É natural não sentirmos por não termos vivenciado, mas por que tamanho projeto divino mal feito?
Faltava, mas apenas faltava espaço. Redescobri que eu amo os domingos porque a existência se realiza durante toda a sua duração. Redescobri que no sábado (dia que eu sempre amei) anterior eu havia me deixado inundar com as emoções de ter realizado em conjunto um obra de arte: um peça teatral.
Para quem não se familiarizou ainda com o teatro perde-se em humanidade. É apenas um conselho, bem doado.
Por mais que eu tenha perdido parte do meu coração no passado eu soube, mesmo desenxabido, de que um belo sonho realizado é um ato que se vive apenas uma vez. Sonhemos!

21 setembro, 2016

A sentença

Sabe o que é deprimente? É estar aqui em frente ao computador olhando suas fotos. Fotos que antes eu admiraria gratuitamente. Sem pressa. Por minutos. Comecei fitando seus olhares e reparei que eles se apresentam tão mórbidos agora, como nunca antes eu havia visto. Ao som da música de Mercedes Sosa, Todo Cambia, e o pensamento focado em sua imagem, nada além de sorrisos e olhares mórbidos consigo enxergar. Por quê?
As pessoas possuem ainda muita esperança em suas ações. Ações várias vezes descoordenadas e, talvez, não planejadas. Mas eu? Justamente comigo? O que foi que eu fiz então pouco tempo ao seu lado? Como queria me atingir e acabou arruinando tudo o que eu sentia por você? Como um prédio em demolição, eu não consigo mais amar você. Eu não posso mais amar você!
Quantas vezes eu pensei, por dias e semanas, quão bons seriam os momentos ao seu lado, como amigo. Sinceramente, amizades hoje em dia não são comuns. Era para estarmos conversando sobre a vida e não contemplando algo um do outro, como se fosse artimanha para inflar egos. Antes, muito antes de não nos falarmos no Parque eu me culpava. Sentia pouca coragem em querer entender aquele sentimento que me atingiu e rapidamente me endoidou. Fiquei confuso, claro. As relações humanas estão sempre em movimento. Eu me permito estar sempre em movimento. Mas você? O que fez, fugiu! Fugiu como uma pessoa insegura. Eu entendi, mas... faz anos e eu tive que refazer. Até quando apenas uma margem do rio é assaltada sem se desfazer? Entretanto, quando menos eu imaginei estar vulnerável, você e o seu movimento já estavam em minha órbita. Eu não estava na órbita certa ou até mesmo no modo de pensar sobre minha órbita, que muito me caracteriza: pretender ser justo. Tudo bem, a vida tem mais baixos que altos. Mas eu? Novamente a história se repete? Por quê?
Fiquei impressionado com seu crescimento, ao menos em foto me pareceu inatingível. Como poderia tão jovial ser sempre estar disposto, sozinho ou ao lado de pessoas a mim tão desconhecidas, sorrindo perfeitamente? Ah, sim! Eu tenho que confessar para que haja o mínimo de interesse: o seu sorriso foi o mais belo que eu já vi. O que isso importa agora, não é? Ser alguém sincero em dias como os atuais não significa nada, absolutamente nada. E depois? Veio a viagem e não nos encontramos mais, como amigos, como sinceros amigos. Você acha que eu estaria apaixonado por um belo presente sem ter percebido o seu conteúdo?

Pois é, sim, você me surpreendeu, admito, novamente. Eu não entendi muita coisa na hora. Estávamos inebriados e você falava soluçando. Eu tentei recordar do passado que me foi muito caro manter até hoje, justamente porque amigos guardam e não desistem um do outro. Você desistiu de mim uma vez. Essa é a segunda e, para mim, a última vez. Você me entendeu? É a última vez que você desiste de mim. Como ouso a ser o centro? Não se trata de mim agora. É sobre você. Quer mesmo entender? Claro que você não quer entender, nem respondeu minha mensagem. Sou objetivo em algumas procuras e mensagens e dessa vez fiz sem muita emoção porque me parece que nesse mundo a água do vaso de nossas flores secou e a planta parece murchar ininterruptamente.
Não estou aqui para falar apenas de nós. Na verdade esse deve ser o centésimo texto que eu escrevo e depois excluo. Eu sempre preparo uma fala poética sobre você e o quanto, na verdade, eu odeio você. Creio que hoje consegui, apesar de pouquíssimas palavras. O sentimento ainda é pulsante. Não sairia por ai, contudo, para atingir sua integridade moral. Sabe de uma coisa, eu respeito a integridade moral dos meus amigos. E você? Aprendeu o que comigo? A ser um perpétuo egoísta? Foi isso que você aprendeu comigo? Não e vou dizer mais: odeio saber que estou na sua história de vida e você aprendeu errado. Como eu queria ser meu próprio juiz e sentenciar irrevogavelmente sua saída da minha mente e com ela todo o carinho que por esses anos devotei a você. Devoção, sabe o que significa? Vou cuspir a todo momento em que eu me lembrar de sua face. Tenho horror a pensar que, justamente você, rompeu mais uma vez a linha e ousou me enfeitiçar com sua presunção, egoísmo e fraqueza. Desejo profundamente conseguir retirar todas as palavras que proferi a você, mesmo quando eu era um profissional. Suma da minha vista! Eu gritaria por minutos em frente ao seu patético sorriso. Faria questão de vê-lo mais uma vez, apenas para essa ação. Como eu queria ter forças para realizar essa fala.
Você foi o motivo pelo qual eu me enganei, novamente, pois, erroneamente, fiz de você um marco importante em minha existência. Tratei de viver em meu trabalho diferentemente do que pensava. Um homem antes e outro depois de você. Pude perceber que eu não deveria ter me ofertado a essa bela imagem que eu criei sobre você. Porque não merece sequer que eu pronuncie o seu nome. Tenho raiva a cada instante que se passa e você, sem hombridade e honestidade, as mesmas que eu desde que lhe conheci ofertei, não respeita a minha dignidade e se disfarça na cretina face do silêncio. Por que não me respondeu? É tão superior que ultrapassou os limites do autoconvencimento? Suas palavras são verdadeiramente falsas a ponto de não saber mais se esconder atrás dela, depois que me revelou quem realmente você pretendia ser? O mundo um dia saberá quem você é e eu estarei em minha poltrona, bebendo meu scotch caro assistindo sua ruína. Eu ainda terei tempo para perceber o mal que eu deveria ter desfeito anos atrás.
Eu não mereço conviver com essa lembrança que agora se tornou oca, desforme e imperiosamente desenxabida sobre você. Eu não sou digno de me refestelar nos braços da dúvida para tentar entender porque me abandonou e me doa a distância de suas imperiais palavras. Sádico! Corroo-me por dentro e o que você expressa: nada. É isso que terá de mim e você sabe que não consegue conquistar além de paisagens artificiais de pessoas boas, pois você é oco. Quem é oco assassina o próprio bem em nome da vaidade, não se despede como verdadeiro homem e covardemente se esconde atrás o ego inflado.
Acontece que o mal é uma escolha infrutífera, mas definitiva. Antes que eu consuma o homicídio de sua imagem em minha mente, terá até a data de um mês após o início do solstício de inverno, do ano que vem, para me olhar nos olhos e me relatar o que aconteceu. Quero suas últimas palavras honestas, se assim puder, depois de declarar-me seu exemplo. A sentença está escrita em cima da minha mesa. A assinatura dependerá de sua atitude futura. O tempo nunca esteve ao nosso favor. Talvez seja esta a minha última lição que poderei lhe ensinar.

Como nós dois saberemos: será a hora de nos enterrarmos, definitivamente?