Já não deveria mais ser acompanhado por Virgílio, mas conduzido por Beatriz.
Já não poderia vivenciar as turbulências e as amarras oferecidas por Virgílio.
Deve-se selar a clausura de um dado finito, pois inexiste fôlego entre os fiéis.
Sou humano, sou real e sou vivo. A matéria não me domina, apenas me suporta. Minha essência forma-se a todo momento, assim como um despertar confuso e inseguro. Meu inconsciente realiza-se a favor de outrem. Minha animalidade revela-se quando estou só. A solidão confidencia-me poucas mentiras. Sabes quem eu sou? "Eu sou o que sou!" (O Criador)
03 dezembro, 2014
01 dezembro, 2014
A terra
Raro ouvir uma declaração sobre a terra, talvez o poeta que
“nasceu pra passarinho” seja o único representante literário de defesas como essa. Mas
por que pensar que a terra seja o elemento inútil? Eu vou procurar decifrar
essa matéria, pretensiosamente.
Os primeiros interlocutores me disseram que a terra é
desimportante porque está abaixo de nosso horizonte visual. Como não se fez o
humano os olhos no pé, então é mais certo crer que não há importância o baixo.
Depois, o segundo grupo tentou me convencer de que a terra é
suja e por essa razão não haveria necessidade de apreciá-la. Relutei em querer
desaprovar o argumento, mas ele existe.
Percorrendo outras mentalidades, o terceiro grupo pretendeu
me surpreender afirmando que a terra é maleável e sem forma definida. Com o
passar dos anos as dunas, por exemplo, não permanecem na mesma dimensão. E constantemente
se estendem voluptuosamente pelas regiões distantes nos braços do vento hiperativo.
Inconformado em encontrar apenas um, mas letal defensor do
elemento terra, ainda me encontrei a memorizar a quarta inconformada opinião: a
terra nos é inútil por causa de um aroma que não remete a ninguém e ao nada. Não é possível classificá-la
pelo simples entender: quem ao rolar na terra, mesmo por diversão, após se
levantar não procura imediatamente a limpeza. Quem se importaria a permanecer
exalando o inexistente aroma de terra? Por que se é possível quase
imediatamente limpar as partes do organismo e ficar cheiroso após uma ducha bem
ofertada?
Mesmo desanimado continuei advogando uma paciência para
receber delicadas palavras que pudessem acalmar minha angústia pela defesa da
terra. E quanto menos esperava havia me deparado, novamente, com mais uma
desonrosa situação contra a terra. O quinto grupo declarou com sorrisos na face
de que a terra é muda. Conforme vão se movendo os seres superiores, ela, a
terra, não expressa sons. Palidez sonora seria uma benção. Não, ela é fatidicamente
muda e sem mais.
Gozado, pareciam sentenças dotadas da mais pura verificação
científica. Comprovações inquestionáveis. Decisões unânimes.
Não satisfeito decidi me importar com o mais nobre dos seres
superficiais, o humano, e por bem-aventurança descobri que é a terra, mesmo sem
ser alvo dos olhos, que sobre ela as pessoas se encontram; que por mais insosso seja seu
sabor é sobre ela que as pessoas demoram horas apreciando beijos com
apimentadas mordidinhas; que além de ser volúvel é sobre ela que as casas
rígidas são construídas e podem abrigar os mais afetuosos e sinceros abraços
apertados; que por mais desorvalhada seja sua fragrância em mais ínfima espessura, é nela que o puro verde das plantações aplana os fogosos amantes e,
por fim, se por menor parcela de sentido seus ruídos não embalam ritmos, é
somente por ela que se contam os passos dados a dois em um frenesi de
movimentos inconstantes.
11 novembro, 2014
Ela se chama Adriana
Chore, chore menino! Fará bem ao
menos por um tempo mesmo com o peito ardendo. Mesmo que a duração tente apagar
aquele sorriso mágico que nunca lhe foi negado. Mesmo que os momentos que
estiveram juntos foram determinados pelos dedos das mãos, contáveis,
singulares, laborais e dolorosos. Ah, claro meu menino, aqueles cabelos
recheados de um devir com ventos adornadores que se completavam em uma tez
escurecida pelos sóis. Não meu menino, não! Era um momento diferente. Lembro que
você tentou estender a mão e segurá-la muito, muito forte. Eram mãos de menino,
mocinho, não era nem um quase homem. Eu conheço essa dor meu menino. É a
maldita ausência. Ela desintegrou as liberdades que teriam. Maltrata, não? Pois
ainda vivo, meu menino, a herança é a imaginação. Poderiam ter caminhado ao
menos alguns dias da semana num parque da cidade. Poderiam, ao menos, serem
vistos juntos em corredores de um cinema. Você gosta disso, não é menino? Poderiam
ter sido irmãos. E agora meu menino, o que você poderá ser sem esse pedaço
fundamental em seu peito? E agora meu moleque que a cada dia abate sua alegria
porque já lhe devastaram por demais o ser. Não meu menino, ainda há tempo! Não mais
para aquela parte essencial que lhe tiraram, mas para o seu tempo. Eu sei meu
bom menino, ainda reclama a juventude como se o relógio apontasse para o passado
e você ainda pudesse esperar por ela.
Ela se foi há muitos anos, eu
sei. Inexistem palavras agora num presente sem companhia. Eu também me pergunto
meu menino, como existem pessoas egoístas no nosso mundo, pois foi uma delas
que determinou o fim do respirar da sua outra parte. Silenciou-a. Difícil é
falar do vazio, sabemos. Fale o nome dela e tente pensar naquele abraço mais
doce que já recebeu em sua vida. Era o abraço do amor fraternal. Amor tão
distante hoje de nós. Force com vontade e desejo para manter acessa a imagem
daquele sorriso ingênuo e verdadeiro. O sorriso de Adriana cujo sobrenome não
importa mais. Era o sorriso de Adriana. Era... Vá meu menino, descanse um
pouco, mesmo nessa vida de individualidades e desconfortos. Proteja a sua
mente para dar esse tributo a Adriana. E, por fim, não se desculpe por não
conseguir mais impedir que seus olhos fiquem avermelhados, meu menino, a
ausência por milênios nos deixou sem apetite.
10 novembro, 2014
Mutilação
Desinteressado,
repousou olhares sobre um futuro indeterminado. Sempre ousou por mais. Temeroso
com o presente, pretendeu energias para o agora sem muitos desconsertos.
Direcionou a atenção para o vazio. Ali a rua, lá um homem a levar o lixo até a
frente de casa.
Acomodou
o veículo no pasto certeiro e relembrou de minutos incontáveis ao lado do
mistério, certa vez. Parecia querer recuperar aquela sensação: solidez nas
palavras que a ambos eram sinceras. Ao menos assim determinou de sua parte. E
aquelas ofertadas do lado de lá? Detestou a ideia de que pudessem ter sido
avultadas da coerência. Havia tanto o que ser feito, mas não haveria mais
espaço no devir para tamanha campanha. Tudibiou e logo teve que aceitar. O
mistério tem sua função bem dada: mutila.
03 novembro, 2014
O colecionador
Criei minha razão em si.
André Luiz Martins
Ele não era arrogante. Possuía uma
pose de mandão, sisudo, claro! Pouco expressava dizeres de compaixão,
entretanto. Somente sorria quando socialmente estimulado. Não havia dor, muito
menos desprezo, aparentemente. Apenas ele em si. Um ele que mesmo em derivadas afetuosamente
determinadas passou a ser entendido como mole, e, por diversos aquedutos diários
a sua transposição se dava de maneira sólita.
Resmungão dos resmungos dos
outros: “Você não deve falar assim, as coisas mudam sempre e quando nós menos
aguardamos!”; “Já deveria ter notado que sua ideia antes não condiz com o seu
sentimento hodierno!” e completava “O tempo é a nossa mais deliciosa criação.” Admirava
a sincronia do universo. Pobre homem!
O erro estava em outras partes de
humanidade que eram reduzidas, enfraquecidas, desonrosas, desenxabidas e
frágeis. Altivo, belo aos olhos alheios, ele assim era enxergado. Desejavam-no
porque ele sabia provocar. Esse sempre foi o seu maior destaque:
voluptuosidade. Não era para menos! Tornava-se mais individualista a cada
elogio que era desferido em seus ouvidos: “Belo!”, “Intenso!”, “Esperto!”, “Humorado!”
habitavam a jornada auditiva do moço.
E o infortúnio aconteceu, logo
que completara 1/3 de vida: amargou-se para os afetos amorosos. A secura passou
a percorrer suas artérias. Os órgãos pararam por completo. Surgiu o vazio e com
ele o pânico. Imperceptível durante a gestação, mas anos depois voraz. Não se
comprometia. Oferecia o silêncio envolto em um sorriso sedutor cujo conteúdo
expandia-se pelo despropósito.
Nesse instante a dinâmica em vida
tornou-se sem brilho, contraste e cor. Os reguladores se dispersaram. A vaidade
se manteve, mesmo a míngua. O rubro cobriu seu leito sem pestanejar. Os diálogos
com os amigos eram mais sórdidos. Pessoa alguma representava vontade. O desejo
se tornou viral. A casualidade apenas nutria seu desespero ao repousar às
noites. Noites insuportavelmente amargas. Alimentava, ainda, as mágoas
passadas. “Por que!?” repetia freneticamente, às vezes verbalizava. Comungou histórias
tristes de companheiros e mesmo assim continuou solitário, faminto por
aconchegos e sórdido. Acumulava dizeres e mais e mais elogios. Sua flacidez era
interior, pois, ao percorrer os paralelepípedos do desgosto, percebeu que algo
o incomodava. Refletiu! E, através de esforços pessoais inimagináveis para
pessoas de boa fé, tentou reconhecer mais afetos. Mais uma vez, e mais e mais e
mais vezes. Tentava! E, retornando para o antigo, reafirmava a dor e
cristalizava um átrio. Parado, o órgão não conseguia movimentar o líquido que o
sustentava. Depois, tentou novamente e esse ciclo de abre-e-fecha emocional o
entediou. Cansado, defronte a possibilidade de encantamento como aquele lá da
antiga possibilidade desfeita, cegou-se emocionalmente e nem notou. Em dada noite, atendeu
ao chamado do envolvido, respirando calmamente e com voz de quem não quer
apunhalar se despediu. Colocou-se novamente a caminho do destruidor de
histórias em plural: abraçou o tempo.
Enfurecido, escreveu-me dias atrás: “Revivi nesses últimos meses, a minha maneira, o que fui há anos graças a sua frouxidão. Eu preciso me desfazer desse vazio. Alcance-me, por gentileza.”
Enfurecido, escreveu-me dias atrás: “Revivi nesses últimos meses, a minha maneira, o que fui há anos graças a sua frouxidão. Eu preciso me desfazer desse vazio. Alcance-me, por gentileza.”
Quando vem a saudade - Maysa
Nem que algum dia eu venha a chorar
E viver pelos cantos sem nunca te ver
Eu só quero presente podendo te amar
Pois futuro sem ti, eu não vou querer ter
São tão poucos momentos que são como agora
Em que estamos tão perto e te tenho pra mim
Só eu sei como dói quando chega a hora
Em que vem a saudade e eu chego ao fim
Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber o que é o amor
Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber o que é o amor
E viver pelos cantos sem nunca te ver
Eu só quero presente podendo te amar
Pois futuro sem ti, eu não vou querer ter
São tão poucos momentos que são como agora
Em que estamos tão perto e te tenho pra mim
Só eu sei como dói quando chega a hora
Em que vem a saudade e eu chego ao fim
Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber o que é o amor
Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber o que é o amor
21 outubro, 2014
Diálogos
O entrevistador questiona o
teólogo sobre o simbolismo presente nas religiões. O teólogo responde complementando
sobre a perda do mistério, que está banalizando as expressões de crença atuais.
E termina: “com a perda do mistério perde-se também o fascínio”. Mais uma das
minhas inquietações existenciais que refletirei pelos próximos dias.
10 outubro, 2014
Devir
Ontem nos pareceu tão farto. Quase como um glutão que devora
memórias.
Ontem se apresentou tão extenso
quase infinito
dono de um poderio sem virtudes.
Com maquiavélica vontade se apossou de entranhas corporais
expurgou recentes acontecimentos
destronou líderes incorruptíveis
deixou-nos órfãos
fez-me singular e não mais plural.
Ontem
fez de todos nós humanos desafortunados.
Ontem, ah o Ontem!
Com o auxílio do tempo personificado em vontade
legou-nos apenas bons momentos
que
em suas grandezas históricas
desapareceram das intenções.
Ontem
Fez de nós mais comuns que o habitual.
Ontem
eu usei o instante como utilizo de mim mesmo em dúvida
havendo somente uma força que habita em humanos
para não nos esquecermos.
01 outubro, 2014
Queiramo-nos
Entre abocamentos ficamos nós uns
nos outros. Inexiste a possibilidade desse fenômeno não acontecer,
independentemente das primárias intenções. O interlocutor repassa a intenção ao
receptor e ali se firmam sóbrios, quietos e cúmplices. Faltam detalhes,
contudo, nos futuros comprometimentos e as pequenas parcelas de cada um se
expandem involuntariamente. Deixam-nos inseparáveis de modo que há vontades
comuns e sinceras.
Quando cerramos nossos olhos
retorna-nos a imagem, do nosso pretendente à boa companhia, exclamando afetos
brandos, consistentes. Pedem-nos, assim. Quando cerramos os olhos em dias de
luto apontam-nos o reflexo de nossa alegria desvelada em face alheia. Por
segundos reconhecemo-nos em uma atmosfera sem paralelos: é como se fôssemos,
nós e as boas companhias, um só ser em conexão. Há paz. Hoje, em dias de
desvínculos, há prodígios quando nos tornamos nós. Precioso é o franzino feixe
que mantém os espíritos unidos por minutos desavergonhados.
Ao cerrarmos nossos olhos e
relembrarmos das boas companhias e elas em retrato estiverem ofertando um canto
de boca imensamente distante do outro canto de boca são elas mais que boas
companhias, são nossas.
24 setembro, 2014
Por favor
Tornamo-nos tão essenciais quando
pertencemos aos olhos alheios. Mudamo-nos por verdadeiros motivos interiores,
capazes de nos trazerem o bem. Mudamo-nos o nosso universo por momentos
singulares, respirações necessárias e toques de paz. Mudamos o nosso mundo.
Reescrito
Fomos (re)criados para
pertencermos a tantas coisas. Uma delas é a nossa fantasia, a mais brutal
capacidade da invenção mental. Outra é a pessoa humana. Não seriam coisas
propriamente, mas situações que nos impedem de verificar nossa universal e
precisa vontade de sermos um conjunto e propomos, erroneamente,
de nos tornarmos seres únicos. Entretanto, estamos ali por nós mesmos,
diariamente, com inquietações, ressentimentos, fluidos de alegria e esparsos volumes
de solidão. Pensáveis momentos agradáveis em companhias honradas, por um lado,
e instantes tão supérfluos ao lado de desconhecidos: tornados paródia da vida
contemporânea. Ironicamente, aqueles rapidamente encerrados pelo cronômetro
enquanto estes parecem perdurar milênios.
O que sempre conquistamos,
mesmo para o bel prazer, pela satisfação de sermos notados por alguém
declaradamente próximo é a incerteza de nos pertencermos e pertencermos a ele,
simultaneamente. Duvidamos e essa é a mais catastrófica das sensações, após o
luto. O receio habitante em nossas entranhas nos eleva a seres ou essências quase
sem humanidade, imediatamente. “Não queremos mais sofrer!” sentenciamos, pois, para
alguns que nos brindam com suas crenças já fomos ofertados às entidades extra-humanas ou ao universo que gira e por isso não há mais razões em lutar pelo desejável. Pertencimento, todavia, não é uma escolha tão saborosa
e pasmemo-nos: nunca será, porque as decisões nos desenergizam de maneira quase
absoluta. Há aqueles considerados
heróis que nunca desistirão de singulares conquistas, porém.
Atribuímos qualidades
desconexas para a natureza humana e sequer pesquisamos o outro profundamente. Não
temos tempo. Fica sempre para depois ou para nunca mais. Desfazemos farta
paciência para despender com o passado, afinal existem tantos futuros férteis
no mundo terreno... Já nos distanciamos de nossos propósitos, desse modo, e fugazmente
almejamos a felicidade duradoura, o inatingível idealizado, o insólito constante
e o comum disforme. Formulamos desenhos mentais sobre pessoas, esboços sentimentais para
predestinados e cálculos de intenções para desenxabidos seres, haja vista que no
horizonte da dignidade paira o querer. Sorrimos disfarçadamente mais para dentro porque ao nosso
redor substituímos as verdades passadas. Quase verdades, exclamaríamos. Tentamos e
já que não se sustentou deve ser descartado, afinal, às entidades extra-humanas
ou ao próprio movimento do universo cabe o dia em que iremos viver uma grande
experiência vital. Aguardamos atentamente por demonstrações irreais de
fidelidade de pessoas caracterizadas por nossas pretensões e pouco por
desavergonhadas ações virtuosas. A atitude já expressou o gosto pelo conhecido,
sabido, esperado e seguro.
Valemo-nos de
competições e apimentadas conversas acirradas para demonstrarmos a
superioridade de consciência, raramente encontrada nas saudáveis relações
humanas. O elemento motivador do virtuoso é a associação entre o tempo e os
saberes. Julguemo-nos por nossas imperfeições e esqueçamos as maravilhas
conquistadas pela empatia, originada em um descanso durante a jornada do
cotidiano. Teatralizamos estupidamente a dignidade o tempo todo: a alheia, frequentemente,
por medo. Suplicamos desejos que jamais se revelarão, por empáfia. Pretendemos
vontades eternamente idealizadas, ainda que as neguemos, desafortunadamente.
Seria a dignidade alheia tão vorazmente mastigável que não é possível admirá-la
enquanto dura vida, mesmo sabendo, que pelo resto de nossa existência
inexistirá o retorno após o seu desterro? Com o gasto do tempo em vida já
anulamos quase que automaticamente as possibilidades. Quando frágeis em dado momento seremos condenados por todo o infinito. Adotemos o ideal do super homem nietzschiano ao passo do
mais vagaroso animal terrestre ou ainda nos apoiaremos na clássica fórmula
política em que apenas os deuses e os monstros vivem sozinhos? Ao som de
Frédéric Chopin, prelúdio em E-Menor, ópera 28, número 4, encerramos, cônscios
de nossas decisões.
06 setembro, 2014
Diário
“Na natureza nada se cria, nada de perde, tudo se
transforma.”
Antoine Lavoisier
Antoine Lavoisier
Não é de costume eu me encontrar
comigo durante a rotina diária. Hoje, contudo, inesperadamente dois fenômenos
naturais me esclareceram algumas questões.
Estava ali, parado comigo em
reflexivo esforço, quando percebi, solitária uma flor cuidada com muito esmero
por uma mulher muito especial. Veio a mim uma imagem tão confortável: aquela
mulher cuida tão bem daquela solitária flor que sua beleza não se esconde,
apresentasse franca e com um singular encanto. Também estava, além de solitária
em sua única capacidade de ser, com suas pétalas voltadas para baixo, mesmo em
seu esplendor.
Percebi, rapidamente, que atrás
de uma beleza há um cuidado tão dedicado que as transformações do cotidiano
passam a ser mais conquistas que desencontros, conclui.
Logo, direcionando meu olhar para
o lado, e ainda pensativo, encontrei um gato preto sozinho em si e desenvolvendo
sua atividade instintiva. Seus pelos pretos e completamente pretos me levaram a
acreditar que a sua vida não se reduzia a estar em si, unicamente, e sim em
completar o ciclo de vida de sua maneira mais adequada e esperada.
Ao retornar, lembro de admirar
novamente a flor solitária, cuidando para que minha memória um dia, lá no futuro que
desejo distante, me faça revê-la em imagem. O gato, aquele com pelos pretos e
completamente pretos, driblou-me e se adiantou a frente e, parando me
olhou com seus olhos de gato preto e completamente pretos. E conforme me adiantei
mais próximo a ele, levantou-se e correu para perto da janela que lhe
pertencia, pretendendo escala-la com maestria. Antes, novamente olhou-me com seus olhos de gato preto e completamente
pretos. Foi ai que aprovei que a ele também eram dados bons cuidados e suprimentos
ofertados por uma mulher atenciosa, muito especial.
Éramos três solitários em uma
tarde de sensação térmica agradável e atmosfera reflexiva. Já se desfizeram os dias em
que me desconfortava um encontro comigo. Verifiquei, por fim, que estive em
três ótimas companhias: a solitária flor com pétalas para baixo, o gato com
pelos pretos e completamente pretos e eu.
02 julho, 2014
Sabemos
Eu sei que você não está ai agora por mim. Talvez nunca esteve ou mesmo tentou estar, incomodado possivelmente com sua própria existência. Pretendo saber que esteja em outro.
Incertezas circundavam minha mente. Sufoco as sentimentalidades, mas... ainda há migalhas para se desfazer.
Certa vez os mais novos me impuseram uma sentença: você deve estar ocupado demais com os outros e se esquece de si mesmo, não? Quem irá amá-lo?
Desde os primeiros momentos de consciência percebi que seria responsável, enquanto vivo, por minhas ações, falas, compromissos e alma. Alma inquieta, persistente na amizade. Inconformada com as ilusões alheias. Mais uma alma qualquer entre tantas outras. E assim se fez: preciso hoje do desconexo, do frouxo e do insensato.
Bastava apenas um momento certeiro para me manter senhor. Singular, especial e, para mim, eterno. O que se abandonou foram os laços e gestos, não a memória. O saber surgiu para me acompanhar por muitos anos, possivelmente.
Ontem me chamaram de esperançoso, hoje me chamam de estúpido? Porém, vou continuar, exclamei! Bastava-me um adeus insensato como os anteriores, pois inconformado, manter-me-ia intocável. Já não posso mais agradecer-lhe pelo retrocesso, mas sim pelo devir.
Ó Céus, não havia percebido! Não o trato mais na segunda pessoa...
15 março, 2014
Temor
Não havia notado o terror lá fora que nos cerca. Em um nada de instante nos tornamos suspensos de nós mesmos. É meu caro amigo... a facilidade de movimentos corporais que existia em nossas pretensões, propulsora de escolhas individuais, na história da humanidade nunca existiu de fato.
Nos tempos escuros da Idade Média o translado era uma aventura: havia monstros, seres sobrenaturais, espíritos andantes, seres mágicos e tenebrosos. Fazer a mudança de uma cidade para a outra era um desafio assustador para todos os que se amavam. "Cuidado meu filho!" tornou-se a expressão universal do cuidado materno. Espalhou-se para os confins, até mesmo nas ilhas menos povoadas. Onde quer que estejamos seremos obstáculos para outros. Há sempre alguém por todos os lados. Até em cima, em aeronaves, e embaixo em caixões. Alguns, polidos, mesmo sem cumprimentos respeitosos, jamais visualizarão nossas faces. Somos eternos desconhecidos. Restam-nos poucas virtudes, mas a mais necessária no trânsito de humanos é a coragem. Como eu pensei em lhe ver, meu nobre amigo, no afeto mais confortável e seguro para que se lembrasse do ventre que lhe permitiu existir. Como eu senti no despertar de segundos de horror que você viveu a mesma insegurança de estar em uma realidade tão imensa, capaz de nos trazer as imagens do terror antigas.
Entre as virtudes cardinais tomistas quero lhe oferecer, meu herói, a fortaleza. É ela que nos assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. Ainda irei rever o movimento afetuoso dos seus lábios demonstrando a superação do mal.
18 fevereiro, 2014
Tânatos
Parecíamos dois ingênuos corpos
em movimento até eu desacreditar na esperança. Lá adiante teremos mais provas
sobre dada fraqueza.
Minha vontade era de abraçar o
travesseiro e não largá-lo enquanto houvesse inquietações em minha mente. Vovó já
alertava sobre os riscos de não dormir bem, mas ela nunca me explicou como
deveria ser esse bem.
Houve emoção em cada palavra. Sempre
há de nossa parte. Como é prazeroso quando as amadas pessoas conseguem com
simples termos dar ânimo às vontades particulares enfraquecidas pelo roteiro
dramático da vida humana.
Queria ter me esquecido da
infância, ao menos não precisaria mais daquele colo maternal para poder me
confortar em momentos quase desesperadores de minha jornada.
Queria poder negar os instantes
que gravei em minha memória após ter sido afetado pelo amor de vovó em seu
colo.
Desejo de todo modo que a vida
não procure mais ser ceifada de meu corpo, pois a força que possuo está
gradativamente sendo acidentada.
Bastemo-nos de reclamações e
voltemos a admirar a poesia. Somente a fantasia poderá nos revigorar.
17 janeiro, 2014
Desterro
Fomos criados para pertencermos a tantas coisas. Não seriam
coisas, mas situações, contudo. Momentos intermináveis em companhias agradáveis
e instantes tão supérfluos ao lado de desconhecidos. O que sempre almejamos,
mesmo para o bel prazer, pela satisfação de sermos notados por alguém
declaradamente próximo, é a incerteza de nos pertencermos e pertencermos aos
outros. Pertencimento não é uma escolha tão fácil e pasmemo-nos: nunca será,
pois as decisões nos desenergizam de maneira quase absoluta. Atribuímos
qualidades desconexas para a natureza humana e sequer pesquisamos o outro
profundamente. Formulamos desenhos, esboços e cálculos para reflexões
infundadas, haja vista que o horizonte da dignidade paira além do natural. Sorrimos
mais para dentro porque ao nosso redor substituímos verdades passadas. Quase verdades,
exclamaríamos. Aguardamos pacienciosamente declarações de pessoas
caracterizadas por suas falas e pouco por suas ações virtuosas. Valemo-nos de
competições e apimentadas conversas acirradas. Testamos a dignidade o tempo
todo: a alheia, provavelmente. Suplicamos desejos que jamais se revelarão. Pretendemos
vontades eternamente idealizadas. Seria a dignidade alheia tão vorazmente
mastigável que não é possível admirá-la, mesmo sabendo, que pelo resto de nossa
existência, inexistirá o retorno? Ao som de Frédéric Chopin, prelúdio em E-Menor,
ópera 28, número 4, encerramos, cônscios de nossas emoções.
03 janeiro, 2014
Um sobre mim
Indivíduo mais louco, nunca vi ... Mais irônico, mais sarcástico, mais "Fantástico !"... Nunca vi...
Você mostra as pessoas a realidade, de forma tal que é "como é que se fala isso em português mesmo?"... Impossível dizer a emoção que você faz seus alunos sentirem em suas aulas.
Isso não é coisa de um simples ser humano, é coisa do André ...
Alunos que sempre estarão a te admirar... como a mim... Nunca vi...
Desculpe te tratar como professor, mesmo fora das salas de aula, mas para mim ser professor é como ser um Deus... Deus do conhecimento... E é isso que vejo em você, alguém cujo conhecimento é voltado para fazer com que as pessoas saiam da ignorância...
Entre muitas frases sobre você, quis mostrar o quão importante você é em minha vida... Um muito obrigado, de um alundo eternamente agradecido, por ter me apresentado a melhor coisa existente na vida... a arte do pensar e do saber.
H. S. L.
20 dezembro, 2013
Espera
Há
uma frieza tão grande nos gestos que acabei conquistado pelo medo. Não o receio
de perder ou ficar perdido, mas de sonhar. Costumo negar o verbo sonhar.
Acontecem instantes tão supérfluos que precisaria reaver o meu ser por
completo, incluindo os tais momentos de prazer. Prazeres? Parece-nos tão
formosos e estáveis. Farsa! O que somos senão instantes de busca para
satisfação de desejos... Ah, basta! Não pode haver mais negações. Não nos alertaram, quando infantis, que o
esperar assemelha-se ao sofrimento da perda?
09 setembro, 2013
Nostalgia
Talvez seja anúncio desprovido de pretensões mundanas. Talvez seja o anúncio de um devir mais calmo. Pode ser que as vivências tenham se (re)encontrado. E o que as circunstâncias provam quando estamos com a consciência tranquila? Com que humor enfrentaremos o tardio, o passado ressentido e a amarga ideia de que não fomos desonestos? Que profundidade há na tentativa de ser justo consigo e com os pares? Quisera ter aquela que sempre me retribuía os meus escritos com gentileza e entusiasmo. Sinto falta de ser aquele que por anos atrás se perdeu e se transformou nessa forma humana menos incauta.
09 julho, 2013
Por uma noite igual a anterior
Perplexo comungou de um instante de verossimilhança: causava arrepios ao comentar sobre os detalhes. Eram eles os mais sapecas da noite, envolvidos os participantes em um jogo fraternal. Na espreita do acaso suspirou: "Que os dias sejam tão gentis como a suave brisa matinal em plena primavera." Acontece que ainda era inverno... E continuou: "Que os sons embalem o corpo em pleno cotidiano e que para o melhor possua sempre a vitalidade ao acordar." Já não era tempo de invejar e sim, propriamente, esperar o bom e honesto afeto. Já se fazia madrugada e nem ousavam as nuvens oferecer mais águas. Continuaria por quanto tempo desejando um máximo de sentimento que até então não surgira? Quer-se muito em tempos de escassez de vontades.
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