21 maio, 2008

Lição de casa


1. A respeito do Congresso Nacional, qual é a relação entre a produção legislativa em larga escala e a eficácia das leis no que diz respeito a implantação e respeito. A grande quantidade de projetos apresentados anualmente pelos parlamentares, tanto do Senado como da Câmara dos Deputados é realmente necessária e útil? Qual o efeito real desta grande quantidade de leis na sociedade? Esta é beneficiada em suas necessidades mais urgentes?
Nicolle, precisamos compreender a democracia representativa como a ação política mais exercida ultimamente. Ela é o suporte desta organização política. A representatividade está custosa para nós. Está deturpada, sem motivos claros e pouca expressividade coletiva. O coletivo é o principal, mas está escondido. Nossa Constituição é impressionante, mas não é respeitada integralmente quando devemos implementá-la, por exemplo. A implementação passa por critérios que a população não entende muito bem. Talvez nem mesmo o jurista... fruto dessa mesma população... As políticas públicas são determinadas ainda pelo amargo sabor do populismo... Então, o beneficiamento delas também está comprometido. A quantidade de projetos de leis demonstra confusão e não clareza sobre a realidade social daqueles (as) que pretensiosamente usam um tal título de experiência: “vida pública”. Título para mim inexistente. Não é mais aceitável a representação caduca. Rotação das lideranças já! É preciso repensar a democracia representativa, reorganizá-la, por fim, coletivizá-la. Um dos maiores problemas não está nos projetos de lei, mas naqueles (as) que os pensam.

2. Comente a oposição quantidade x qualidade dos processos legislativos.
Quais critérios precisaríamos aplicar? Perceba que utilizo “precisaríamos” porque é fundamental que a população recrie um sentido político para a representatividade. Mas esta mesma população está apática. Não (re) conhece nem mesmo as necessidades sociais.
A quantidade dos projetos de lei, como afirmei anteriormente, é a demonstração clara de confusão. Disputas e conchavos são comuns! Seriam aonde a coletividade fosse privilegiada? Negociações existem, também, e não é de todo uma característica desaprovada.
A qualidade dos projetos de lei, contudo, nós percebemos diariamente. Os projetos de lei atendem satisfatoriamente às necessidades sociais, como segurança, habitação e alimentação, por exemplo? Enumero estas por acreditar que sejam mais urgentes de projetos de lei eficazes. Não precisamos rediscutir a resposta, nós sabemos a resposta... É imperativo dialogar (para não reproduzir mais violência) sobre a representatividade e a eficiência dos projetos.

3. Há em nosso país, um predomínio do Executivo sobre o Congresso Nacional no que diz respeito a apresentação e aprovação de projetos e fiscalização?
A sugestão dos representantes políticos era fazer com que a população acreditasse em uma “harmonia” entre os Poderes. É fácil encontrar esta palavra norteando a relação entre o Executivo e o Legislativo, nas Leis Orgânicas (diretrizes municipais). Penso que no Congresso Nacional isso não seria diferente, afinal é ele que propõe as diretrizes para os Estados e Municípios. O impressionante é reconhecer que “a moda” não pegou.
O cenário é semelhante a esse: a população apática reclama, o Executivo procura atender, pressiona e gasta muito dinheiro no Congresso Nacional tentando resolver os assuntos que a opinião pública adota e adora criticar (e só), gasta na implementação dos projetos, gasta na fiscalização das políticas públicas... Agora podemos perceber por que é tão alta a taxa de juros?
A população ainda tem auxílios esclarecidos e importantes. Sinalizo apenas dois de muitos outros: os Movimentos Feministas e de Mulheres e os Movimentos GLBTT.

4. Existe, em nosso país um certo desconhecimento, descaso e falta de peso nas leis aprovadas votadas no Congresso Nacional? Este fenômeno, acontece em decorrência da alta produtividade legislativa?
Possivelmente. O mecanismo está falho. Não posso acreditar que os projetos venham para tranqüilizar a população, e sim para resolver as necessidades sociais por uma duração temporal respeitável. É custoso este mecanismo.

5. Sobre a questão da linha de sucessão presidencial, qual é o motivo para que o presidente do Senado seja o terceiro e o presidente da Câmara dos Deputados o segundo?
As representatividades crêem na onipresença política, ou seja, as oligarquias que governaram no passado do país legaram essa tradição de mando-governo para as nossas lideranças políticas. Sempre foi uma relação muito complicada. Veja, nós, momento ou outro, ouvimos um quase provérbio ecoar: “estão fazendo política!”. Vamos avaliar nosso verbete e entenderemos melhor o que nos foi dado de herança política. Sugiro uma questão provocativa: como poderemos ser mando-governados, considerando a sucessão presidencial, pela representatividade política que se manifesta apenas a seu favor, sustentada por muitos pares e absolvida pelos (as) que entendem imunidade parlamentar sinônimo de onipotência?

6. Apesar de pertencerem a um mesmo poder – Legislativo – é possível dizer que o Senado e a Câmara dos Deputados apresentam competências distintas. Em sua opinião, qual é a principal diferença entre as duas casas que as relacione diretamente com os seus representados: os Estados membro, no caso do Senado e o povo no caso da Câmara dos Deputados.
Não nos enganemos! As prioridades políticas no Congresso Nacional são os índices sociais (para as organizações internacionais se sentirem mais animadas para os investimentos privado e público) e a economia. “Time is money!” é comum ouvir pelos lados de lá...

7. Como a questão das imunidades material, formal e foro privilegiado expressam a garantia de uma independência do Poder Legislativo?
Expressam garantias particulares. A população deve julgar as ações das representatividades políticas, sempre. Como aceitar, então, que existam mecanismos de privilégio para elas? Algo não se apresenta muito sincero nesta organização...

8. Ainda sobre as prerrogativas, porque um parlamentar que cometeu crime envolvendo dinheiro público em exercício do mandato, por exemplo, pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal? Quais as implicações desta medida? A impressão é que o parlamentar se beneficia deste privilégio. Isto é verdade?
O bacharelismo nos permite compreender, mesmo após mudanças nominais, mais profundamente este assunto. Como seria possível um escravo questionar um senhor após uma decisão de punição? Em que momento o operário pode propor ao empregador que reveja as orientações administrativas? Que cidadão ou cidadã ousa perguntar a validade de uma decisão judicial?

9. Existe, no Brasil em seu sistema bicameral, alguma supremacia de uma casa em relação a outra?
Acredito ser inaceitável a supremacia. Acontecem sim conflitos discursivos e opiniões contraditórias. Esforços emaranhados e dúbios. Uma imensa confusão de responsabilidades. Atrapalha, certamente, os espectadores (nós). Enfim, tudo está muito próximo lá dentro e o que diferencia mesmo é a burocracia empregada. Ela precisa ser diferente ou aparentemente diferente. Acredito como validade de poderes, apenas.

10. Porque o sistema de eleição de representantes das duas casas são diferentes?
Nicolle, você acreditaria que as representatividades políticas também não entendem muito bem o razão desta medida? A impressão que nos passa é que são ocupadas com muitos assuntos e necessidades. Tudo parece muito rápido, não acha? Por isso precisam ganhar mais fôlego. Respirar fundo, acalmar os ânimos e pensar melhor no que irão exclamar. Planejar o futuro do país. Como é comum ouvir: “nas eleições nada é certo!”. Fica clara a preocupação, inclusive da população que reproduz sem avaliar corretamente: “é ano de eleição!” Apresenta-se um cenário de vale-tudo, afinal é eleição e vão ganhar com isso.

11. Existe hoje, na população brasileira, uma impressão de que o parlamento é nulo dentro do poder político. Porque isso ocorre? Este fato tem relação com a questão governabilidade x representatividade, onde um político, durante a eleição se coloca como pai e representante de um determinado grupo e, terminado o período eleitoral, passa a não governar para o mesmo?
Cresceram as lideranças populistas na América Latina. No Brasil não seria diferente. O Congresso Nacional controla diretamente nosso cotidiano. É o exercício legítimo da representatividade. Na outra margem está a população... apática, justamente porque há anos não se satisfaz com políticas públicas eficientes e pensadas para a coletividade. O particular e o público se entrelaçam e está dificílimo mudar isso. A ação governamental (o que você chama de governabilidade) está destoada das representações executiva, legislativa e judiciária porque não conhece a realidade social profundamente. Baseia-se em “acho que o mais importante é asfalto e médicos e médicas em posto de saúde” e não em uma educação que privilegie o esclarecimento. Não acredito nas ações assistencialistas empregadas pelas Secretarias e Ministérios. O (a) desempregado (a) não tem que trabalhar! É penoso trabalhar. Você já deve ter ouvido que segunda-feira, ou qualquer outro dia útil para o trabalho após um feriado, é absurda. A idéia entristece quem trabalha. Cansa só o pensar em ir para o trabalho, ver os colegas que não suporta mais, participar de comemorações de aniversário etc. O nosso imaginário reproduz isso, e o pior, passamos para nossas crianças. Então, por que é que existe tanto “Vale-Um”, “Bolsa-Tudo” etc.?
As representatividades políticas fizeram, com sucesso, a lição de casa, mas a virtude já vinha de períodos antigos. A lição: não socialização do conhecimento – o que alguns despropositados chamam de “emburrecimento da população”. Não acredito nisso! A ditadura censurou os (as) filósofos (as) e os (as) cientistas sociais. Espero que agora a implementação das disciplinas Sociologia e Filosofia no Ensino Médio permita a médio e longo prazo reverter essa situação.
Resultado: apatia política da maior parte da população brasileira. Uma sugestão? Socialização do conhecimento, ou seja, privilegiá-lo.
Obrigado.

Entrevista a Nicolle Lemos, acadêmica de Jornalismo da Universidade Mackenzie, em 20 de novembro de 2007.

23 abril, 2008

Idéia inicial

Começo a pensar que existem pessoas para maior doação e poucas sentimentalidades...

10 abril, 2008

Liberdade

"A angústia é a possibilidade da liberdade, só essa angústia é, pela fé, absolutamente formadora, na medida em que consome todas as coisas finitas, descobre todas as ilusões. Aquele que é formado pela angústia é formado pela possibilidade e só quem for formado pela possibilidade estará formado de acordo com a sua infinitude. A possibilidade é, por conseguinte, a mais pesada de todas as categorias."

Soren Kierkegaard (1813-1855)

02 abril, 2008

É isto um homem?

Vocês que vivem seguros
em suas cálidas casas,
vocês que, voltando à noite,
encontram comida quente e rostos amigos,
pensem bem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece a paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno.
Pensem que isto aconteceu:
eu lhes mando estas palavras.
Gravem-nas em seus corações,
Estando em casa, andando na rua,
ao deitar, ao levantar;
repitam-nas a seus filhos.
Ou, senão, desmorone-se a sua casa,
a doença os torne inválidos,
os seus filhos virem o rosto para não vê-los.


LEVI, Primo*. É isto um homem? Tradução de Luigi Del Re. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000. p.9.
* Primo Levi (1919-1987), escritor e químico italiano, sobrevivente de Auschwitz.

31 março, 2008

Diário e girassóis azuis

Hoje recebi a visita do Dr. Compixote, da Universidade Universal das Esferas Maiores, do Curso de Ciências Progressivas e Cósmicas, do Departamento do Movimento Dialético e Raciocínio Lógico. Publicou recentemente uma obra em que trata sobre algo... Intitulou-o Estudo Avançado para uma Epistemologia em um Futuro Saudável. Conceituou rede teífica, uma caricatura do exercício da aranha, de Karl Marx, no texto Jornada de Trabalho, em O Capital.

21 março, 2008

Linguagens

"Você roubou meu sossego.
Você roubou minha paz.
Sem você, eu sofro.
Com você, eu sofro mais."

(Uma brincadeirinha do Zé Celso)


"You stole my tranquility.
You stole my peace.
Without you, I suffer.
With you, I agonize."

(Tradução para o inglês de Thiago Nascimento)

13 março, 2008

Nosso jeito

Eu pensei em ligar para ti,
não pude
estava em São Paulo
Se não fosse a saudade
A saudade de encostar minha testa na tua
Eu estaria livre de ti.

Eu pensei em ligar para ti,

não pude
esperava mais uma vez
a confirmação do meu sucesso
longe,
bem longe de ti.

Eu pensei em ligar para ti,

onde a modernização
permitiu encolher escolhas.
Se não fosse a saudade
Aquela mesma da testa e do "pânico".
Aquela mesma que no verão me fez retornar para teus braços,
teus beijos e carícias ingênuas.
Eu estaria fortemente
apaixonado por mim,
Sem outrem, ninguém.
Sem ti.

Eu pensei em ligar para ti,

não para ouvir-te
mas, sentenciar-te.
Pois o bem lançado
a mim é,
sejas tudo, sejas quem tu és.
A saudade... do início...
Ah, a saudade!
Deixei-a em São Paulo.

16 fevereiro, 2008

Lispectoriando

Toda vez que fumo, lembro-me de Lispector
Não de suas causas vividas, pouco de seus amores
Toda vez que fumo, lembro-me de Lispector
Pelos momentos que passou solitária, ausente
Rica, enluarada em várias regiões do mundo
Pobre, desgastada por enxergar paredes, salas e prédios
Maravilhosa, sob a companhia dos livros.

Toda vez que fumo, lembro-me de Lispector
Não de seus amores, talvez um
somente ela
Só e a sós

Toda vez que me encontro, lembro-me de Lispector
Pela semelhança de ser
Não do estado,
Não da criação
Sim da ausência.

13 janeiro, 2008

A violência contra os humanos

Eventos cotidianos acontecem sem a vigília do Estado. Os centros urbanos incharam e as políticas de habitação e transporte não suportam devidamente as necessidades sociais, entendidas como necessidades de mercado para muitos analistas. Outras formas, como os resultados do não reconhecimento cívico, pelo Poder Público, exibe uma democracia frágil, uma economia de mercado e de capital atrasada e uma política representativa desgastada pelos ofícios oligárquicos.
Antes pensado como território de exploração, hoje o Brasil ainda preserva a "herança rural" apresentada à história política por Sérgio Buarque de Holanda e "economia atrasada" por Caio Prado Junior.
A distância de renda entre as populações ricas, médias e pobres oferecem um campo farto de ações violentas e desumanas (atrasos de benefícios, suspensão de direitos e garantias trabalhistas, filas, conflito armado no interior do país sem o acompanhamento do Poder Judiciário, assaltos a instituições de crédito popular - mercearias, bares e lanchonetes - morosidade burocrática etc).
Hoje, nem os super-heróis poderão civilizar o país, justamente porque esta idéia não se fortaleceu além do Atlântico Norte.

09 janeiro, 2008

Pares e par: a reconstrução do amor romântico

Para o humano que seja vivo como o Verde-Vida.

Que me ame como ama a "curva livre e sensual" das formas e o estético aplicado à vida e a mim. Não desejo que me ame pelo que fui e poderei ser, mas pelo que tento ser a cada momento. Par, casal, namoro... tanto faz... prefiro o pronome nós.
Talvez o par, o casal, o namoro perfeito não exista concretamente, mas é válido, perpetuamente, a reconstrução das possibilidades e das verdades vividas.

21 dezembro, 2007

Não Vale a Pena

Autores:Jean Garfunkel e Paulo Garfunkel
Intérprete: Maria Rita


Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar
Que é uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequeno
Mas vai e vem e envenena
E me condena ao rancor
De repente cai o nível
E eu me sinto uma imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido
Dos amantes mal-amados
Dos amores mal-vividos
E o terror de ser deixada
Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida
E é pra não ter recaída
Que não me deixo esquecer

Que é uma pena...

29 novembro, 2007

Entoar

O respeito às pessoas mais experientes demonstra o quanto a sociedade compreende sobre sua história.
O dizer "viver é melhor que sonhar", interpretado por Elis Regina, com a música "Como Nossos Pais", revela o desejo humano pela manifestação de sua natureza política: nós humanos precisamos viver, e mais, viver por um longo período.
Valerá questionar: por que a experiência de vida dos/as idosos/as não é facilmente impressa, escrita, e falada? Por que, em sua maioria, encontramos mais jovens no mass media e poucas experiências amadurecidas?
Repensar o passado, ou apenas notá-lo, não é um exercício apenas daqueles/as que se debruçaram a vencer o terror (ainda para os jovens) da finitude vital, mas daquele/a que vive coletivamente e não apenas sonha.
Se o/a jovem perceber que poderá não alcançar a terceira idade, será possível reconciliar o diálogo com as diversas experiências, o bem-estar com a saúde e o viver com o sonhar.

20 setembro, 2007

Abrigo


Poderíamos viver sem abrigo?

Talvez eu pudesse respirar profundamente o ar fresco de uma manhã manhosa pelo sol. Prometer carícias às crianças desamparadas. Reanimá-las com um mínimo afeto.

Sobreviver à ligeireza de uma atividade habitual. Romper o ignorar verdades. Suplantar os pré-conceitos. Reanimar a ternura. Permitir o entendimento. Promover um diálogo harmonioso. Responder ao exercício da responsabilidade e da clareza. Verificar a humanidade. Planejar o verbo... E por que esquecer de relembrar as felicidades?

Contar momentos para as crianças que só vivem o fantástico quando estão dormindo... Desse modo, elas passariam a respeitar a humanidade. Verdade ou mentira. Amor ou ódio. Tanto faz! Depois do meio-dia todo ar é quente em meu abrigo.

17 agosto, 2007

Feminino


Não pude esperar, e logo que acordei, sentei-me rente a cama macia... Esqueci de agradecer-te.
Eles querem, ainda, corrompê-la. Novamente...
O que seria da saúde que me comporta sem tua força viril?
Como sustento pensamentos lúcidos, lembrando-me justamente de teu afeto feminino?
Ouço constantemente os queixumes das crianças. Desorientadas e famintas...
Sem tua essência não seriam porções humanas, mas corpos tomados por apoucada humanidade.
Ausente o afeto viril feminino que sai de teu toque elas morreriam... não o corpo, mas o espírito.
Nem mesmo o mais desonesto homem seria capaz de suportar por séculos a mentira de que a ti foi dita: de que foste a parte que nos trouxe os males.

Pandora, de Odilon Redon. 1915.

25 julho, 2007

Adeus à coletividade

André Luiz Martins Pereira

Percebo que não nasci para esta época. Não quer dizer que mereceria uma futura ou passada. Apenas não mereço esta.
Ocorre que a chamada para a vida coletiva não me satisfaz. Sinto, verdadeiramente, um fluxo vital se despender por rumos egoísticos. Talvez maléficos. Certo estou de que não são benéficos. Há tempos acreditava no maniqueísmo. Hoje apenas nas interfaces. Também pouco importa a verdade presente neste universo humano. Acreditava bastante na potencialidade do caráter humano: criações e pensamento. Esclarecido, pude recorrer a este sem muitas dificuldades cognitivas. Algumas sentenças, às vezes, mostravam-se embasadas, sobretudo.
Estou vivendo em estado de impropriedade. Os pensamentos estão se deslocando para aspectos do cotidiano rapidamente, sobrecarregando-o. Incorre uma fundamental dificuldade: não sei lidar com a finitude. E quem sabe? Com o que compreende o fim de uma forma fortemente incompleta, afinal não possuo trabalho. Ocioso, respiro com dificuldade, como sem perceber ao degustar o alimento o gosto, ver a realidade semelhante a flashes e cenas embaraçadas, e por fim, emocionar-me raramente, de maneira que o sentimento é tão desenxabido e seu reflexo em meu íntimo é também espaçosamente ínfimo.
Os dois pensamentos a que me refiro são o de estar doente e de estar impossibilitado de poder seguir interesse profissional. O primeiro está diretamente ligado ao tratamento que destino à finitude. Já o outro, percebo sem muitos detalhes, está na faculdade de aplicar a inteligência e o raciocínio relacional na burocracia.
Faço pouco menos do que deveria por mim, confesso. Até este instante destinei muito tempo de mim para a coletividade. Meu prazer, meus sonhos, meus anseios e pretensões estavam originariamente a propósito de outrem. As angústias, fraquezas, necessidades básicas e específicas, gostos exóticos, ofensas, incompreensões etc. Entretanto, neste instante cônscio, não sei se poderei reverter este esforço uma vez dado de pouca fortaleza e propriedades físicas limitadoras.
Compreendo profundamente os erros como se não quisesse vestir conforto no decurso do inverno gélido.
Falta preencher esta imensa lacuna, ou talvez várias pequenas lacunas aglutinadas. Se confirmar o que me aprisiona em pensamentos delirantes obterei duas sentenças: assumi uma compreensão (esclarecimento) sobre o devir claramente insuportável e não pertencer mais a esta época. Não desejo viver mais nu, além de estar, agora, sujo. Como poderei ser enxergado pela coletividade, a que sempre me preocupei, desse modo? Mesmo despedindo ainda me preocupo com ela. Este país não me merece ou nunca me mereceu porque eu não me respeitei o bastante para usá-lo. Quero dizer adeus à coletividade por desistir.

08 dezembro, 2006

Vinda

Sabes daquele teu coração espinhado?
Sabes, não? Pois é meu também.

Hoje vejo menos claramente. E o melhor é o quanto as nuvens fazem sumir a minha dor, só pela manhã.
Por enquanto, nutro um enfraquecido desejo de sobrevivência.

Tu me faltas...
Tu me amas...
Tu me desejas...

Como posso ser tão egoísta e pensar somente em mim, aqui sozinho, se tu existes a distância?

14 novembro, 2006

Cotidiano

Segunda-feira (ensolarada)

- Dar-te-ei esculachos, menino vadio!
- Dê-me o que quiseres, mas saiba... contarei tudo a mamãe!

- Vô virá a mão na tua cara, vadia!
- Bate que eu quero vê, bate seu puto de merda! 
Terça-feira (parcialmente nublada)- Sabes dos teus estudos, menino?
- Sei sim, certamente os farei.
- Vá estudá desocupado!
- Apá merda.
 

Quarta-feira (ensolarada)
- Cuidas da vida de tua mãe e verás o que ela fará quando descobrir.
- Minha preocupação é acerca de minha vida... somente.
- Fica mexendo nas coisas da mãe, fica...
- Não enche o saco, merda!

Quinta-feira (nublada e ventando)
- Cuide de te cobrir com o manto quando a brisa condensar.
- Assim o farei. Ah! Diga onde estão os meus sapatos...

- Leva o casaco guri!
- Valeu!

Sexta-feira (garoando)

- Cuidado com o chocheiro do Lord. Ele é arredio como o eqüino.
- Sei diferenciar a insensatez da força bruta.

- Ó o carro guri estúpido!
- Tô vendo ô!

Sábado (chovendo e ventando fraco)
- Viste os anúncios sobre a guerra? Viste? Responde logo menino, por favor!
- Absolutamente, estão em cima da escrivaninha. Conto depois.

- Cadê o jornal? Eu deixei aqui!
- Levei lá pra sala. Vê lá!


Domingo (chovendo ininterruptamente)- Sirva o menino criada. O peixe.
- Sim senhora.
- Estou grato.

- Dá ai o frango...
- Ó mãe! Ele pegou tudo!
- Peguei mesmo, tô com mais fome que você.

13 novembro, 2006

Pitangas e a pitanga

O cheiro da pitanga branca entorpece
A pitanga branca encanta
O que fazeis, querido, essa hora?
A hora do entardecer?

Foram tuas mãos que ensaboaram a lascívia
Foram teus olhos que me cansaram
Foram teus desejosos toques que me provaram
Corpos
Corpos exalando frescores
Um aroma bandeirante
Um aroma café com leite
Um aroma pantaneiro

Quantos corpos?
Quantos toques? Apaixonados?
Encantados?
Quantas maneiras de exaltar outrem?
Três corpos
Ensaboados
Frescos, frescos como pitangas
Pitangas brancas
Brancas
Pitangas e pitanga

Eram vós pitangas
Somente vós
Não a pitanga
Somente a pitanga

Quantos corpos?
Quantos toques encantados?
Quantas maneiras de exaltar outrem?
Três corpos brancos
Três amantes brancos
Frescos
Frescos como pitangas

Amarelou a cor da pitanga
Amargou o gosto das pitangas
Cor de pitanga, gosto de pitanga
E as pitangas?
Não sei mais
Foi a pitanga
Por pouco não foi sofreguidão

Macieza das pitangas
O amargor da pitanga
Sob ávidos toques
São encantos duradouros
Distante exclamou pitanga:
“Saudades de ti
Espero ouvir-te logo
Desejosos beijos de pitanga!
Teu novo amor.”

Eram vós pitangas
Somente vós
Não a pitanga
Somente a pitanga

14 outubro, 2006

Brasão - Mário Faustino

Brasão
Mário Faustino


Nasce do solo sono uma armadilha
Das feras do irreal para as do ser
- Unicórnios investem contra o Rei.

Nasce do solo sono um facho fulvo
Transfigurando a rosa e as armas lúcidas
Do campo de harmonia que plantei.

Nasce do solo sono um sobressalto.
Nasce o guerreiro. A torre. Os amarelos
Corcéis da fuga de ouro que implorei.

E nasce nu do sono um desafio.
Nasce um verso rampante, um brado, um solo
De lira santa e brava - minha lei

Até que nasça a luz e tombe o sonho,
O monstro de aventura que eu amei.

18 setembro, 2006

Gata Morena

Foste embora, gata.
Gata branda, malhada.
Foste embora, gata.
Gata morena, malhada.

A corujinha ainda vive ali, na beira.
A arara pousa ali, nas altas.

Foste embora, gata.
Gata parda, malhada.

Tua dança incorporou nas raízes desta cidade.
Morena como tu.

Foste embora para a Garoa.
Alguns víveres da Morena sentem tua falta, alta.

17 julho, 2006

Verde domingo

Cores claras abraçavam teu leito. Linda cor verde... a mesma cor que me aprazia.
Domingo... nunca desejei bem o domingo...
Deitado... coberto... certo como bloqueio. Defeso pela situação e, ao mesmo tempo, indefeso por minhas palavras.
Quisera não te fazer sofrer. Quisera...
Nem ao menos me preparei e tu, sincero, não me aprisionaste. Por quê? Questões? Estávamos cientes da verdade. Eu mudo. Sabias da razão de minha visita e nem sinalizou...

Não pude evitar os olhares ontem à noite. Não pude contemplar-te com outra intenção. Não pude procurar-te com o mesmo vigor de outrora.
Procurei, procurei...
Estava atrás da afirmação. Veio ao deitar.

Pude contornar ao nosso favor, mas não completamente ao meu.
Emocionei-me. Certamente pelas sensações que, graças a ti, certificaram-me da existência de um coração dentro de mim.

Verde. É a cor da alegria. Adornava teu corpo. Um rosto puro. Bela forma desenhada pela providência divina. Seria ela a responsável por nossa união?
Verde. É a cor da tristeza. Enxugava tuas lágrimas. Sinceras! Encantadas. Emotivas. Egoístas, pois pensavas apenas na solidão que o aguardava.

Verde é a cor da minha condenação. Resultado de bem-me-quer.

Amanhã não serei o mesmo. Tua ausência marcará friamente meu peito.

Saibas que me esforcei. Imagens lindas carregarei.
Hoje dou-te gratidão e amizade. O que me dará?

Foste o primeiro presente mais belo, puro e límpido que já recebi.
Foste a primeira constatação de que sou humano.

Saibam... foi a Pureza que fez a Liberdade chorar.

“É um tchau, não um adeus.”

Resta-me uma pergunta: Por que me negaste um abraço?

23 março, 2006

Você e eu. O que está acontecendo conosco?

É muita pretensão, mas mesmo assim vou continuar.
As vezes nós nos engamos. Eu me enganei com você e você com os outros. Foi culpa sua se distanciar de mim... foi culpa minha não ter ido atrás de você.
Mas tudo isso passou e o que importa agora é o seu coração.
Estive muito próximo de você, não sei se sabe disso... o que sinto não interessa mais. Apenas a preocupação de que esteja bem, muito bem.
Tenho dúvidas, mas acredito que tudo poderá ficar bem se você ficar bem consigo mesmo.
Agora pense em você. Na sua saúde. Na sua vida, esteja sozinho ou não.
Sozinho? Será que ficará algum dia? Diga sim a mim e nunca isso acontecerá.
Adeus?

13 março, 2006

Canção folclórica portuguesa

Alecrim
Alecrim, alecrim aos molhos
Por causa de ti choram os meus olhos
Alecrim, alecrim aos molhos
Por causa de ti choram os meus olhos.
Ó meu amor
Quem te disse a ti
Que a flor do campo era o alecrim?
Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado
Ó meu amor
Quem te disse a ti
Que a flor do campo era o alecrim?

20 fevereiro, 2006

Alma

- O que a aflinge?
- Teus olhos, invejoso!
- Repita isso e serás excomungada... Rapariga dos diabos. Ah! Credo em cruz, Virgem Santa. Que Meu Senhor tenha piedade de vós.

...

- Repita comigo: "Meu Senhor, não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só Palavra e sereis salvo."
- Não. Não sou digna deste benção.
- Seja obediente! Rapariga fraca, impudica e torpe. Vamos! Não tenho todo o tempo para vós.

...

- Sentes algo?
- Ainda não. O que espera?
- Tens a petulância de me questionar? Rapariga dos diabos!
- Sinto que estou entorpecida... algo me deixa entorpecida.
- É sicuta. Logo morrerás... somente desta maneira me deixará quieto.
- Senhor Frade... cof, cof... como pôde?
- Que Meu Senhor a tenha em Seus braços...

21 janeiro, 2006

O bom lembrar das frestas azuis - Rebeca Rasel

O bom lembrar das frestas azuis
Rebeca Rasel


Um fluir atravessado;
Clareira azul
Que transborda os limites
Da sala opaca.

Irradiada; luz
Que protagoniza passos
Teus, distantes,
Em fuga quase.

Finito alento;
Encontros em ares
Feitos de pausa:
Vapor de despedida.

De largura imprecisa,
Suplementes de cor e
Sombra: farsa
De teu corpo; adeus.

Tardes assim não foram feitas para existir.

Dentro de mim existe um quase-mundo tolo
Desses em que o te pertencer apenas persiste:
Como uma placa qualquer de direção
Indicando uma rua ou uma esquina já conhecida.

Meus braços fracos, em um gesto curvo e bravo,
Tentam levar para longe o crepúsculo trêmulo de teus olhos
Ali, no espelho, a perceber o tanto de você que ainda há em mim.

Percebo que a ausência só existe como palavra
Porque o vazio teu é concreto e perceptível.

Volto então a me abrigar na sombra de tua pálpebra;
Tardes assim não foram feitas mesmo para te esquecer.

06 janeiro, 2006

Teu e meu

[Primeiro canto]

Nossos olhares se cruzaram
À noite
Escuro-clara
Sem devaneios
Chavão?
Vitória da Liberdade
Fraqueza da Solidão
Inveja da Preguiça
Daria-nos Satisfação?
Uma música
Um soneto
Um refrão

Dances
Dances
Dances comigo, dances!
Dances Paixão
Envolva-nos
Partes de corpos, alheios corpos
É o teu? É o meu?
Fomo-nos corpos, fomo-nos ritmo e toque
Toques
Toques
Meus lábios entre teus cabelos
Teus lábios entre meus desejos
Quisera sentir mais de teu toque
Ouvir mais de tua oração
Apenas uma?
Não pude
Estava inebriado
Junto ao teu peito
Teu e meu
Simplesmente

15 dezembro, 2005

Retorno

"Eu luto pela vida: um trabalho real, que vale a pena. Não tenho nenhum desejo de morrer, mas já vivi tão perto do morte e de suas conseqüências que a vejo agora como algo natural. Todos nós devemos morrer um dia, mas a morte sempre virá cedo demais para o homem ou a mulher que tem uma intensa sede de viver. Cada minuto que passa tem um significado, uma profundidade maior do que qualquer outra coisa, mesmo que pareça comum e rotineiro. Cada rajada de vento, cada canto da cigarra, cada revoada de pombos é como um poema.
Sei que os que trabalham pela justiça sempre terão o direito a seu lado e receberão a ajuda de Deus; estes irão prevalecer, e a verdade resplandecerá.
É melhor ser rico de espírito do que em bens materiais."¹
Marrianella García Villas*
* Marrianella G. Villas foi assassinada em 1983 por militares na república centro-americana de El Salvador. Jovem advogada, formou um comitê de direitos humanos para investigar casos de desaparecimento e tortura.
¹ Gaarder, Jostein [et all]. O Livro das Religiões. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

24 outubro, 2005

Realidade e Magia

O que se entende sobre a infância?

Mais uma vez eu tentei me enganar, mas não consegui. Não conseguiu entorpecer-me em seus braços, pois sua imaturidade não consentiu.
Engraçado como os sentimentos de pertença morrem com tanta facilidade! A falta de compromisso, de seriedade para com a amizade e tudo mais.
Pudera, eu sabia dos efeitos de meu entendimento desenfreado. Eu sabia dos riscos ao tentar harmonizar e ajudar a construir o seu mundo. Tudo bem! Foi um risco que preferi viver a ser covarde...

Sabe, sou capaz de acertar se imaginar que mesmo lendo inúmeras vezes estas linhas não entenderá no final a minha intenção. É sabida a razão: não sou mais criança e não vivo em um "mundo" mágico. Saiba que mesmo construindo um mundo mágico logo ele será destruído pela violência banalizada, pelo egoísmo humano (o mesmo que assola o seu caráter) e pelo amor (bobo e romântico). Destruição inevitável e certa, como a morte.

A infância pendura até o acúmulo de responsabilidade e compromisso social. Você é capaz de acumulá-los?
Com o seu fim, as pessoas ficam menos animadas para o acaso.
Por exemplo: As crianças que fazem parte de seu mundo fantástico serão adultas um dia, e assim como as outras que virão. E você? Quando enfrentará as dificuldades?
Ainda há tempo para pensar. As crianças nunca deixarão de procurar respostas sobre a vida que você não quis, em minha companhia, refletir. Mas eu paro por aqui este assunto, paro sim! Senão eu posso cometer injustiças.

Resolvi dificuldades em sua companhia: não cobiço o amor eterno-fútil (de aparências e insuflado pelo egoísmo). Ao contrário, agora estou certo das felicidades que poderei ter ao lado de outra pessoa. Não só de Paz vive o ser humano, mas de todas as Felicidades que pretende viver.
Em seu mundo (mágico) deverá existir poucas dificuldades, ao contrário do meu (real) . Será que nos veremos novamente? E onde nos encontraremos, no meu ou no seu mundo?

O que é tristeza se permito-me ser livre?
O que é solidão se possuo livros?
O que é mágico se não posso criar o hipotético?

Faço justiça: senti-me em paz com você. Obtive o que pretendi ao seu lado. Mas agora confesso que preciso de mais, além do que pôde me deixar. Preciso de paixão, de emoção e de conhecimento.

A estrela que brilhava em minha constelação se dispersou. O que importa uma estrela em um universo de astros e do infinito?
Entender a infância é ser justo. Saibamos ser justos com nós mesmo.
Adeus.

15 outubro, 2005

Adeus Estrela

Chegamos a um momento muito importante: o seu momento!
Egoísta, desejei você só para mim. Agora entendo que é do universo.

Não me arrependo de ter tentado mais uma vez ficar em Paz.
Não me arrependo de ter provado mais uma vez a Felicidade.
Não me arrependo de ouvir sua voz e de receber suas carícias.

Ajudou-me a não desesperar. Ajudou-me a estancar o sangue de antigas feridas.

Meu corpo agradece.
Minha alma agradece.
Meu ser agradece.

Em um universo de astros, a minha Estrela se dispersou.
Adeus Estrela!

02 outubro, 2005

Agora

Não me aborreço mais aos domingos.
Tenho razões? Talvez...

Talvez porque o céu não é mais cinza
e porque eu não preciso mais pensar em futilidades.

Talvez porque mesmo sem nome
o destino-pessoa me aguarda saudoso.

Talvez porque mesmo endemoninhado
eu tenha que aceitar os deuses e deusas.

Talvez porque após corroer meu tempo
e, esquecer a Felicidade,
eu tenha encontrado a Paz.

26 setembro, 2005

Conflitos e Paz

Entristecido confesso que o fim do meu domingo foi muito emocionante: por acompanhar o cinema real. Esperava que a tristeza estivesse muito distante de mim, entretanto, notei sua presença logo ao entardecer chuvoso. Muitas gotas de água caídas antecediam minhas lágrimas.

Assisti um filme chamado "Hotel Ruanda". Não contive as lágrimas. A guerra pela sobrevivência do humano, pela sobrevivência de vidas negras, me fez imaginar que o país em que vivo, apesar dos problemas sociais, ainda reserva paz. Em se tratando de paz, estive por muitas horas em seus braços, nesta manhã. Estive nos braços da Paz, sim!

É uma dinâmica pessoal, fundamentalmente, contraditória, ou melhor, os resultados concretizaram-se do conflito da paz e guerra, da tristeza e alegria, do prazer e não satisfatório, da força e entrega, e por fim, da vida e morte.
Obrigado história da negritude pela paz.

22 setembro, 2005

Sons de Maria, de Rita. Sons para o meu Coração

Preciso de ti, incessantemente
Preciso dos teus toques em meu peito
Preciso do teu olhar de Paz
Preciso do som de tua voz, vibrante voz em meus ouvidos

Preciso de ti
Preciso de tuas mãos
Preciso de ti, incessantemente

Hoje obtive o novo disco de Maria Rita...
O que mais posso querer de bom agora, após muitos desvios e desencontros afetivos?

Preciso de ti, incessantemente
Preciso dos teus toques em meu peito
Preciso do teu olhar de Paz
Preciso do som de tua voz, vibrante voz em meus ouvidos

Preciso de ti, mesmo que não tenha próximo
Preciso de ti,
Incessantemente.

18 setembro, 2005

Prazeres

Quantos prazeres pude sentir contigo ao meu lado hoje?
Uma enorme Paz os juntou.
Qual luar poderá testemunhar minha entrega em teus braços?
Que as nuvens estejam separando a invejosa Lua de nossos desejos satisfeitos.
Que a Lua não veja meu sorriso quando lembro de teus olhos me fitando.
Que a Lua não me amaldiçoe por notar que estou em paz.
Quantas vezes deverei confirmar a minha satisfação em beijar-te?
A culpa é tua, tua tão grande culpa.
Porque através de teu olhar a Paz me encobre completamente.
Você me tem, agora, para sempre em sua história de Vida.

11 setembro, 2005

Sabores Dominicais



Frutas são todas deliciosas
Melancia, kiwi e bananas
Mas exite uma, uma fruta especial: a pêra.

Humm! Como é gostosa a pêra, aquele pedaço que você se refestela.
Como é gostosa a pêra de boca
Como é gostosa a pêra de bochecha
Como é gostosa a pêra de barriga
Como é gostosa a pêra de pé.

Frutas são todas deliciosas
Melancia, kiwi e bananas
Mas exite uma, uma fruta especial: você.

Comemos frutas todos os dias, mas no domingo
No domingo só nosso
Comemos pêra.

Nova tentativa

Começo uma nova tentativa a favor da vida. A meu favor. Mais saúde mental é o que preciso.

A seiva escorre e não posso sugá-la: outrem o faz. Não a vejo, não a sinto, apenas o que me furta: a essencial vital.
Aguardo socorro, mas ninguém atende.
Aguardo recuperar aos poucos meu ânimo, mas meus esforços ainda são primários.
A essência vital continua sendo furtada. Eu continuo sendo furtado. Furtos e tentativas de furto em sonhos, mesmo em sonhos, são tão concretos que me assustam. Podemos falar do mesmo assunto agora?
Acredito não podermos, pois, ainda, estou farto de mim.

07 setembro, 2005

Estrela Sossego

Poderei eu acreditar que passaremos pela mesma trilha?
Poderei eu acreditar que seremos animados pela cumplicidade?
Poderei eu acreditar em nossos toques afetuosos?
Poderei eu acreditar em nossos sorrisos ingênuos?
Poderei eu acreditar nos olhares coincidentes?
Olhar que me permite criar raízes. Águo-as.

Encontrei razões menos aparentes para crer que não sou menor que pensava. Menor em sentimentos.
Ontem, hoje e amanhã nós nos veremos.
Antes, eu não esperava reecontrar um olhar tão fiel. Antes, eu não desejei estar tão próximo da Estrela.
Hoje, sinto-me mais animado para continuar meu trabalho.
Também tens culpa. Culpo o teu olhar fiel. Culpo a Estrela Sossego.
Troxeste-me a paz.
Recuperei os sentidos menores.
Culpo o teu olhar fiel. Culpo a Estrela Sossego.
Culpa tua, tua tão grande culpa.

03 setembro, 2005

Promessas

Prometo que acabou. Acabou a ateção e o respeito a sua dignidade humana.
E por que? Porque não me mereces.
Ontem estava bem. Reconheço que ao prestar mais atenção nas minhas dificuldades eu estou reforçando o meu carisma, ignorando as idiotices alheias e reprimindo o terror da violência diária.
Espero melhorar!
Estou em um momento muito especial: me tornando hominho.

23 agosto, 2005

Palavras, palavras e palavras

Em um envelope escrevi um bilhete e entreguei-lhe, juntamente com uma folha contendo palavras de G. G. Marques.
No bilhete?
"Palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras palavras"
Mais Mário Faustino
Romance

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Eu teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória.
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena –

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

21 agosto, 2005

Favores ou desejos

Quando me passaram a vez eu imaginei estar conquistando uma nova amizade. Um novo sorriso, sabe? Nos conhecemos há pouco e nada me fazia acreditar que todo discurso proferido era nobre. Não precisava ser nobre, mas autêntico. Até me convenceu. Mostrou-me os detalhes de uma vida sozinho. O conforto que se pode obter quando você trabalha para si mesmo. Sem pares familiares ao lado. Uma vida, vivida, sozinho.
Ninguém nota, mas a todo momento eu avalio as pessoas, as causas e circunstâncias. Imagino não cometer injustiças, porque não digo o que pensei e penso, facilmente. E não digo para poupar-me confrontos, mas por cautela.
Sinceramente, invejo os canalhas. Eles são mais espontâneos, mentem, subornam, esquecem, flutuam, imaginam, conseguem, pecam, enganam, matam, riem, comem, mordem, choram e, mesmo assim, vivem... ou se isso já não é viver.
Preciso imaginar que por muito tempo eu não vá dormir sozinho, almoçar sozinho, desejar sozinho, cantar sozinho, amar sozinho e viver sozinho...
Estou confuso e, antes de cometer injustiça, aquele sorriso não quero mais.

12 agosto, 2005

Espera

Preocupo-me com minha boca. O que ela pronuncia... o que ela silencia... com a outra boca que deseja. Mas acima da minha preocupação, insignificante, existe alguém muito especial que preocupa-se com seu coração... com seu batimento... com seu ritmo. A segunda-feira não quero lembrar... porque, arduamente, a vivêncio agora.
Não rezarei aos Deus Trinos. Não porque corre o meu sangue saudável... porque a natureza cultural dela será mais forte que desejos ineficazes.
Possuo créditos... poderei cobrá-los!
Emocionado, encerro decretando: as lágrimas mostram o quanto humano pode ser um deus.

09 agosto, 2005

Laços

Estou tomado pelo êxtase arfante da náusea. Tudo me parece grande e perigoso.

Clarice Lispector

08 agosto, 2005

A cor branca da liberdade


Perguntou-me: "Qual sua cor preferida?"
Eu respondi? "Branca."

Sabe o que significa a cor branca? Eu penso na liberdade. No frio gostoso da neve, aquele tapede limpíssimo que a natureza cria a cada inverno...

Liberdade... sou egoísta demais para perdê-la.
Branca... perpétua para poder vestir-me dela.

Aguardo seu retorno.

04 agosto, 2005

Política brasileira

Os presentes conflitos políticos (representativos) que ocorrem na macro-esfera do Poder refletem significativo esforço dos que possuem o poder representativo, e também dos que conseguiram através da ludibriação, em "repartir o bolo" da riqueza nacional. Ou melhor, e ainda, refletem as poucas intenções para com os que necessitam ser atendidos pelas políticas públicas (como se toda a sociedade não merecesse, entretanto, existem grupos menos insatisfeitos, se tivermos como parâmetro único o aspecto econômico).

Logo, não classifico esta luta de poderes como simples esforço em "cortar o mal pela raiz", ou, "vamos limpar o cenário político" etc. Eu a chamo de luta de partidos políticos embaçados. E ainda possui um agravante (que já era esperado): são dissimulados, porque não assumem a incompetência em legislar (em promover leis).
Se os provedores das leis são incompetentes, o que resta àquele(s) grupo(s) que necessita(m) ser atendido(s) pela política pública? E ainda mais, o que a sociedade civil pode esperar de produtivo para o embasamento de suas ações? Um país mal conceituado? Um Poder Legislativo, definitivamente, incompetente?

Querer defende-lo é injustiça. Injustiça para com os eleitores e eleitoras, fiéis depositários de confiança nesses "políticos das leis". Coloquemos "os pratos sujos" na pia! Quem legislava para o rico latifundiário, para o capitalista, para o rico agricultor, para o rico comerciante, fez uma boa campanha nesses últimos 50 anos. Não só permitiu grandes problemas sociais (dívida externa, dívida interna, roubo e desvios de milhões, bilhões, ou até quantias em trilhões da moeda corrente) como assegurou vagas e cadeiras permanentes no Congresso. E fez muito bem! Eu os parabenizo! Parabenizo porque enganar por muito tempo e brincar de legislador certamente não é para gente de boa fé, até mesmo para um "Zé ninguém", pouco ainda para aqueles que pensam representar a grande massa populacional e, em seu exercício legislativo, sentir-se útil e incorruptível! Jamais indicaria generalizações, mas, que legislador pode ser ingênuo e idealista? (Não digo os que promovem o discurso do progresso e do desenvolvimento. Esses existem aos montes.)

Querem saber! Penso que a Legislatura não é para os corruptos, assim como acredito que a legislar não é para o enganador.

Mais perguntas: o que formamos durante os últimos 50 anos? Falazes? Grandes nomes para a apresentação da representatividade política?

Políticos todos os seres humanos são! A Dona Fulana fala para o Seu Sem-Nome que "todo político é corrupto". Não Dona Fulana! A senhora também é política! O que acontece é que a senhora não pode legislar para si e para a sociedade. A senhora precisa dos superpoderosos "representantes políticos"... mas deveria fiscalizar as ações dos seus representantes... a senhora ainda é agente política.

É claro que a democracia deve abarcar, inclusive, os não democratas. Agora, os dissimulados, aqueles que se utilizam das fragilidades das pessoas, das esperanças (que considero fundamental para os que crêem na "vitória do bem") dos que procuram sobreviver sobre tiros, com poucas roupas no corpo, com comida escassa em casa, os sem tudo, não merecem ouvidos ou coros de proteção. O que merecem? Pergunte a Dona Fulana e ao Seu Sem-Nome, que moram no Brasil.