25 dezembro, 2021

O antepenúltimo conto natalino

Henrique já estava com 17 anos e alguns meses e não pretendia se formar logo no ensino. Estudava em uma escola nos arredores de sua morada. Era um aplicado estudante, filho único e foi abandonado ainda muito novo. Sabia muito pouco sobre a data de seu nascimento, muito pouco mesmo. Teve um único momento, pouco antes dos 17 anos, que questionou à assistente social responsável pelo abrigo, sobre seu parentesco. A única curiosidade era sobre os detalhes do dia de seu nascimento, do ato de nascer, para ser mais exato. O evento nascer para ele era intrigante. Ao menos o seu próprio nascimento. Queria mais informações sobre o evento nascer, mas era uma odisseia e com prováveis irresolutas conclusões. Depois se esquecia dessa inexplicável sensação. Os anos foram passando. Ficou, inclusive, muito bravo por algum tempo, entre os 12 e 14 anos, mas nunca teve um comportamento violento ou desrespeitoso, nem com os outros abrigados, até mesmo em relação ao parentes que jamais conheceria. Resignou-se, mas ainda manteria guardado como segredo por anos a curiosidade fatal.

Soube que após os primeiros dias de outubro daquele ano, antes de se formar no ensino, o abrigo iria receber algumas visitas de pretendentes a parentesco. Henrique, pela primeira vez, não se inquietou. Lembrou rapidamente das várias vezes a cada ano e a cada mês dessas visitas. Houve anos que se deprimia a ponto de passar dias sem se alimentar direito, apesar do conforto ofertado pela cozinheira Cidinha. Ela sempre preparava, fora do horário das refeições um sanduíche mais recheado com frios e um copo de refresco, na tentativa de aliviá-lo. Mas Cidinha sabia que esse alívio não viria. Ela acompanhou por anos, por vezes somente com o olhar afetuoso, o completar dos 18 anos de garotas e garotos e que, poucas semanas depois, iriam embora do abrigo. A maioria sem parentesco. Sozinhos. Ainda abandonados.

No entanto, naquele dia, Cidinha parecia diferente aos olhos de Henrique que notou pouco surpreso. Ao se aproximar de Henrique lhe ofereceu dois sanduíches, que imediatamente perguntou: Por que dois? Ela respondeu, juntamente com um olhar mais brando e alegre: Coma um agora e guarde um para depois! Henrique respeitou a orientação, recebendo também um afago no cabelo e um abraço demorado. O que aconteceu? Segundos depois ainda se questionava surpreso quanto a atitude de Cidinha. Manteve-se sem muitos esclarecimentos pelas próximas horas.

Em seguida, a assistente social convidou Henrique para passear pelo pátio enquanto os outros abrigados corriam ansiosos por todos os lados, enquanto os pretendentes a parentesco estavam chegando, ainda em poucos números. Ela perguntou a Henrique se ele se lembrava do grande desejo que possuía. Henrique respondeu que era saber os detalhes do dia do seu nascimento. Ao elevar a mão no ombro de Henrique, continuou a fazer outras perguntas que o levaram a ver por outro lado o real motivo de seu desejo. Ele desejava, mais que tudo renascer, por fim. E como estava próximo de completar os 18 anos e se graduar na escola, as pouquíssimas chances de ser recebido em uma família era cada vez mais improváveis. A assistente social, então, pediu que ele tentasse se lembrar de algumas pessoas queridas que ele havia conhecido anos antes e que não poderiam ser nem a Cidinha e nem os outros funcionários e abrigados. Henrique respondeu que era seu professor da escola que ele o considerava muito inteligente. Era um homem responsável e cheio de valores. Ao ouvir isso, a assistente social percebeu que imediatamente Henrique começou a se empolgar a cada palavra que proferia ao se lembrar de seu professor. Henrique até se animou ao recordar que o professor havia prometido uma surpresa, para o momento próximo de sua colação de grau na escola, e, se desse tempo, a promissora oferta lhe seria uma alegre descoberta.

Henrique complementou que não obtinha mais informações sobre seu professor, mas que o via com muita estima. A assistente social, após o término da fala de Henrique, alertou que faria uma última pergunta, e esta deveria ser respondida com muita sinceridade: Qual o seu maior medo (já que todos sabiam qual era o seu grande desejo)? E ele, emocionado e com a voz embargada, sussurrou: que a sua família estivesse no auditório no dia da colação de grau, antes dos 18 anos, comemorando o fim de um período. E que depois da cerimônia todos fossem para casa. Que se sentisse pertencente a um laço confortável. Que seu passado não o incomodaria mais, sendo alegre com as pessoas que o receberam. Que os anos passados sem aquele afeto diário de um parentesco fossem como um sonho e que poderia descansar sabendo que no outro dia o café da manhã seria ao lado de alguém que estimava.

A assistente social percebera que Henrique estava emocionado e resiliente quanto ao seu futuro. Paciência! Seus olhos retratavam. Seu rosto demonstrava essa desolação, mas não se violentava. Ela sabia que Henrique era um generoso garoto e que se tornaria um bondoso homem. O afeto faltava, mas algo mudaria essa realidade de Henrique.

No final da tarde, Henrique foi chamado pela secretária para ir à sala da assistente social. Henrique bateu à porta e esperou. Para seu espanto, Cidinha abriu a porta já com os olhos marejados de emoção. Henrique se espantou e ao olhar para a direção da mesa da assistente social reconheceu, imediatamente, a presença de seu professor que há algumas horas havia se recordado. O professor se aproximou, alcançou as mãos nos ombros de Henrique e perguntou: Há anos eu tenho me esforçado para ser um homem melhor e percebi que falta um detalhe, só um, e penso que você pode me ajudar. Henrique, você pode ser meu filho? Henrique abraçou o professor e, derramando lágrimas, balançou a cabeça afirmando o desejo e falou: Sim!

Em dezembro, todos os funcionários do abrigo e o professor estavam no auditório comemorando a colação de grau de Henrique, que radiante subiu ao palco para receber os aplausos e o diploma. Henrique olha para o público e sorri radiante. Acena para o professor. Ao pretender descer e abraça-lo, atentou-se aos lábios dele e leu algo parecido, como: Desculpe ter demorado para ser seu pai... Foi então que Henrique, caminhando em direção a escadaria do palco, sentiu-se mal. O sorriso foi desvanecendo. Os presentes percebem que Henrique cai. O professor se espanta e corre em direção ao corpo de Henrique, que já no chão, não responde mais.

Continua.

20 junho, 2021

Descritivo

 Antes do final do mês ele já previu a desonra. Por décadas ouvia dizer que a morte era certeira, mas que durante o decurso da vida poderia provar o seu valor. Com o mesmo passar do tempo, percebeu que o único valor importante era o material.

De dia pensava como conseguiria levantar da cama para poder produzir. Em nada, em nada poderia acrescer. Dizia que pelas manhãs não se pode trabalhar muito e por isso declarava que apenas queria estudar. Estudar era prazer. Trabalhar sempre foi obrigação.

De tarde era o escárnio. Tudo demorava e derretia. As pessoas eram mais incômodas. Chateadas. Intermediárias. Ele queria existir pouco durante as horas vespertinas, assim como a maioria das pessoas. Já em casa, o vento soprava em miúdos. As ideias não vinham e a pouca vontade se estabelecia. Não existia poesia, era apenas escárnio! Nem televisão conseguia ligar.

Por todos os olhares de sua vida, só restava para ele as noites. Eram nelas que a exaltação acontecia. O êxtase se manifestava e o desejo se alinhava ao corpo. Depois, tentava o descanso, em vão. Escovava os dentes antes de beber o último gole d'água. Vestia o uniforme de dormir. Lançava os pés para fora da cama e pressionava o próprio corpo contra o colchão. Por fim, se refestelava em imagens oníricas sensuais, adormecendo.

02 maio, 2021

O melhor beijo

Desde pirralho envaidecido eu desejava conceituar o que sentia. Dediquei-me a leitura do dicionário. Pretensiosamente, escolhia os termos mais suntuosos, clássicos do idioma e pouco me intimidava com os elogios eloquentes destinados àquela peripécia. Tomou-me tempo e com o passar dos anos percebia que a correspondência entre a minha vontade e o escutar alheio em nada agradava profundamente as pessoas ao meu redor, apenas as atordoava num primeiro instante, depois as desenxabia.

Outro tempo se tornou realidade e alguém apareceu. Telepático, mas belo ao menos por fora. Comunicamos com pouca estratégia, ao menos da minha parte. De outro modo, independente, tornei-me sentimental novamente, sem a segurança que possuía anteriormente. Numa forma pouco distinta, acompanhei este alguém rumo a um futuro completamente indesejado para ambos, ao menos não expressamente dito. Encontrávamos e parece que até chegamos a acreditar à mesma era de que seria para sempre.

Certa vez o beijei. Na verdade, este alguém me beijou. Foi seu primeiro impulso depois de alguns comentários. Víamos íntimos e inexistia compromisso. Seguimos. Eu gostava, e depois descobri que apenas eu gostava, de nossos encontros. Mas, como tudo acaba não muito bem houve um fim para nós. Mal sabíamos, eu ainda sentimental, que era apenas um intervalo.

Em outra certa vez o encontrei. Nada muito natural, afinal tínhamos alguma coisa ainda em haver. Voltei-me para o depósito das sentimentalidades, encurtei discursos e o retorno amigável, fortunadamente, veio a nós. Eu me empolguei, mas havia muita declaração de amor por parte dos dois. Não poderia me furtar. As contingências ficaram confortáveis para este alguém e, mesmo envaidecido pelo retorno, afinal era o nosso primeiro, uma porção em mim ainda não estava muito clara, deixando certa liquidez nas percepções. Eu o procurava, o tocava, o sentia e, por fim, o beijava.

Aproximamos tão fortemente que os apertos passaram a ser constantes: corpo a corpo, face ao redor das bochechas, mordidas carinhosas e, por não menos, mais um beijo.

De repente, este alguém deixa de falar, tenta se afastar, passa a não me responder, ignora meus olhares, torna-se um vulto, foi se removendo da mente, fazia nenhuma falta e na intensidade de um último toque, encostamos os lábios. Novamente, por sua iniciativa, movimentou os lábios e eu gulosamente propus o contato das línguas. Imediatamente, senti alívio nas pálpebras, deixei de esperar o futuro, entreguei o corpo mais gentil ao dele, relaxei os ombros, depositei meu rosto mais inclinado e o melhor beijo que nos demos aconteceu, definitivamente.

Sem mais, abri os olhos, desenrolei das penas parte do lençol e voltei a repousar o rosto no travesseiro, caindo outra vez no sono.

15 junho, 2020

Solitude

Há anos reparo nas pessoas que me beijam. Foram beijos desimportantes na sua maioria. Na verdade, eu nunca estive muito preparado para beijar alguém em diferentes circunstâncias. De fato, eu sempre mantive uma esperança em ser envolvido por um toque singular, original e indefeso. Isso não aconteceu até lhe encontrar.
Como sempre os meus começos acontecem erroneamente. Você nem havia me reparado antes. Eu era apenas um conhecido. Nada muito diverso do que são acometidos outros casais. Casais? Que pretensão a minha, não?
Mas todos, todos exceto você, vieram acompanhados. Havia neles espírito, enganos, vontades, intenções, desejos sexuais, volúpia, falsos discursos, encantamentos etc. Exceto você! Você nem queria ter vindo. Você não é de ir, mas sim de ser conduzido. Ocorreu algo entre nós que já se esvaiu, mas não totalmente, ao menos é o que está acontecendo.
Creiamos que tudo esteja bem, em vista da sua imprudência do passado. Porém, ainda está ali, sozinho, vazio, como se estivesse intacto pelas suas más escolhas. Pulsa em você vontades. Quais exatamente?
É isso! O que exatamente lhe motiva em chamar o meu nome? Nada generalizado, pois poderia ser quaisquer outros nomes. Algo que esteja relacionado a mim, intensamente? Creio que não. Enfim, poderíamos ter continuado a ser íntimos? Provavelmente não, também. Talvez encantados? Não, jamais. E agora? O que temos?
Você não me tem. Possivelmente não me terá outra vez. Eu tive a sua ausência desde o primeiro, e interessado, beijo.

11 maio, 2020

Permissão

Eu perdi aos poucos o controle da minha vida.
Aquele que dizia ser íntimo não condizia com as verdades.
Pouco a pouco se confundiria entre afetos
de se manter toda apreciado.

Eu prometi há poucos dias
que a minha sorte era para o outro lado.
Quem ao menos me percebia
intentava me provocar com desajeitada maestria.

Logo, eu que pertenço a uma incontrolável ironia
desenrolava um fino trato
perguntavam-se o que sentia
entretanto, o peito já maculado.

Ao me ver tão distante
Aquele que se promovia
Descontinuava sua simpatia
Voltando-se contra a minha incompatibilidade.

Já desgastados de um leva e traz de pretensões sem fim
Enxugariam seus intentos ao pé da cama mal arrumado
traziam nenhuma recordação e qualquer fantasia
Mesmo, por fim, ainda inebriados.

10 maio, 2020

O amor nunca vence

Hoje, por respeito próprio, deverei tratá-lo como se fosse desconhecido. Eu tinha tanta coisa para você. Coisas verdadeiramente bonitas, incríveis, minhas e eram todas para serem doadas por motivos da paixão. Beijo demorado é uma delas. Parece fantasioso acreditar nesse encontro de lábios saudosos, mas nunca foi, ao menos, e somente, para mim.
Quando nos conhecemos, saiba que eu não o desejei. Talvez eu nunca tivesse pensado em lhe tocar. Motivado por terceiros, acabei deixando você tentar uma verdadeira aproximação. Verdade, sabe? Não, você se afastou tão distantemente da verdade que agora se tornou um estranho entre os que o querem bem.
A paixão aos poucos foi dando espaço para a cautela. Violência! Pensei em enfrentá-lo, mas deixei que pudesse demonstrar empatia. Não houve e tenho claro que não tem a mínima habilidade da empatia. Seus olhos... naquela noite... seus olhos me assustaram e me questionei: como pode tão jovem corpo sofrer da incapacidade de amar? Qual o tamanho da dor que o transformou inabitado? Sem alma!
Voz vazia, pele sem textura, abraço sem força, mãos ocas, cabelo sufocado pelo chapéu, olhos vendados pelos óculos escuros: poderia, se houvesse refinamento, ser um personagem de histórias de suspense, mas que de fato não passava de um trailer trash. Péssima produção. Verdadeiramente egoísta. Olhos ocos. Monstro!
Exitei, confesso. Envolvi-o, com engasgos na garganta, de palavras doces para meus companheiros. Fingi, declaro. Orquestrei uma aproximação. Engoli o seu orgulho e o modo como me rejeitou na frente de outros. Desumano! Já não me afetava mais.
Provoquei um cenário de paixão sólida. Não se empolgue, era apenas uma atuação.
Hoje você deu a sua própria conta. Criou prova contra si. Amarrou-se de vez no abismo da insensatez. Que a sorte livre os bons de seu caminho.
Se tivesse me solicitado, falta em razão da sua limitação cognitiva, eu o teria conduzido, mesmo que de má-fé por sua escolha, em um modo mais criativo de se vingar de quem não tem a culpa de você ser em nada especial. Você se faz vítima de uma vida que, de fato, não tem sentido algum. Ademais, eu não quis acreditar que pudesse ser uma verdade: seus olhos estavam vazios e continuava a conduzir o próprio corpo para a ruína. 
Desejaria a você a sorte de poder um dia, preencher seus olhos com desejos mais verdadeiros que seus beijos e totalmente mais reais que suas palavras. Quando me atenho minha visão para a última imagem sua vejo você debruçado em cima de uma mesa escolar, adormecido, com postura patética de um jovem que já desfalecido espera vingar-se da humanidade por sua única incapacidade de se fazer feliz e a fazer outros encantados, numa enfadonha cena ridícula de conquistas medíocres, de posturas abjetas e singularidades nada originais. Despeço-me, sem olhar para sua direção.

02 março, 2020

O nome delas

Por muito tempo, na verdade por todo o período que compreendo pela razão sobre a minha existência, eu me incomodo com meu sobrenome. Não necessariamente, apenas, contra o sobrenome, mas com o ritmo que ele dá e a sonoridade incabível em conjunto com o meu nome.
A história já se inicia nefasta e desafortunada porquê não fui eu quem o ritmou - penso mais que seja por uma questão de sonoridade que de ritmo, mas manterei aquele primeiro - e tão menos poderei alterá-lo: é que a lei dos homens excepcionam a mudança e a minha situação não se faz regra.
Verdadeiramente, o primeiro incômodo foi ser retirado do útero e ter sido depositado em um berço sem realeza (o que antes na adolescência incomodava mais). Por vezes, reclamei, apenas para mim, sobre a questão. Minto! Havia comentado com um ou dois sérios colegas de convívio, nada muito profundamente.
O segundo ponto é que minha mãe deu a minha tia, irmã de meu pai, a oportunidade de escolher o feito, e assim o fez: contam que era por causa de um mentor espiritual ou que poderia ser em razão de um personagem novelístico na época de meu nascimento - um gajo muito garboso, comentaram. 
O fundamental ponto, contudo, é que o nome completo não se alinha! Demônio!
Ele se faz, quando chamado por inteiro, harmônico, mas, infortunadamente, quando separado parece uma tirania de gritos e resmungos. Para completar a inquietude, ainda possui em dupla de títulos: são dois nomes e dois sobrenomes. Apesar de não ser uma chamada original, não é penetrante aos ouvidos mais sensíveis a ponto de perturbá-los: "é só um modo de falar", haviam me alertado. Ninguém comenta em uma trivial conversa o título completo de uma pessoa física! Sempre aos pedaços ou por cognome. Ali outra perturbação: nunca se referiram a mim e muito menos por minha permissão por apelidos, o que demonstra a minha aptidão em ser nomeado pelo que foi registrado em cartório mesmo.
É um sentimento de não pertencimento, não sabe?
Anos preocupado em como eu poderia me apresentar, surgiram opções. Todas derivadas e comentadas, criticamente, dentro de minha mente, com suas respectivas emoções. Lá vão!
Opção primeira: usar os dois nomes e o seguinte sobrenome. Fica grande e sem sonoridade. Deprimente. É como se a pessoa corresse e quando estivesse com a máxima velocidade o espaço se acabasse. Ponto.
Opção segunda: usar os dois nomes e o último sobrenome. Incompleto, mas forte. Mesmo assim não me parece adequado para uma apresentação formal, sabe? Um nome de autoria de obras clássicas. Não que meu nome seja de representação antiga, apesar de sua origem ser deveras arcaico. Mas o som, entende? Traz um humor de antiguidade e minha aparência ainda reluz jovialidade.
Opção terceira: o primeiro nome 

Aprender a beijar

De todos os aprendizados que me ofertaram o mais incrível que não consegui, ainda, apreender foi beijar. Beijar... Beijo já começa com a segunda letra do alfabeto. Nada demais até ai. Com o tempo, e com a perda do envergonhamento juvenil, começamos a beijar bochechas com mais ênfase. Concordo com os críticos de que beijo desavergonhado é melhor, contudo, não me satisfaz. A envergonhação intimida até os mais bravos.
Certa vez percebi, conversando comigo mesmo, que beijo desajeitadamente. Até ai nada demais, também. Aprendi a coordenação motora, sei caminhar sem tonteadas. Consigo ficar por poucos minutos com uma perna só. Sei olhar com atenção e presteza as características de quem (ou do que) me afeta. Sei até “pisar em ovos”, como dizem os mais humorados, mas, infortunadamente, não aprendi a beijar.
Ouvi muitos clamores dos inebriados por aventuras românticas de que o beijo, só por seu ato de realização, elevaria as sensações e se bastaria. Bastaria...
A quem se basta? Ao patético desafortunado que mal consegue chupar umas laranjas? Ao ridículo que deseja os lábios de alguém que não lhe deposita ao menos uma piscadela? Ao esdrúxulo casal, em banco carcomido da praça, envolvendo-se em prisões desnecessárias a um espetáculo grotesco em frente à população invejosa? Ou a você que nunca permitiu ser beijado (a) com afinco?

05 julho, 2019

Nu chão

O que fica em nós quando o outro faz escolhas egoístas? Talvez o corpo já usado e cansado. Talvez a sensação de esperança. Talvez um reencontro e, por que não, um talvez "você seja melhor no próximo relacionamento"... Amoroso? Provavelmente enganoso, mas não amoroso. Dedicação e ingratidão fazem parte do mesmo horizonte e de sua história. Estariam na mesma linha com o menor dos esforços. Banho e cama eram fartos, mas seu desânimo consigo mesmo era demasiado. Sufocante! Não para mim, contudo. Escolheu uma aventura tão sem graça que não tinha mais palavras para a desfaçatez. Nem mesmo seu cúmplice, por mais asco que se possa existir nesta cidade conseguiria preenchê-lo, teve dignidade em lhe defender. E o que ganharam? Só perdas incríveis. A mim.
O que sai de nós quando o outro não sabe que nos ama ou se esforça para gostar? Fingimento, talvez. É como o tingimento de tecido. Não se quer a cor ou o estado original e tenta florear, paquerar, iluminar, acreditar etc. Quaisquer sensações oriundas de apenas um lado de uma pena de relação é a medida mais saudável para a consciência. Mas a quem estamos enganando quando invocamos a consciência? Só se tem consciência ("com ciência") quem pratica a ética e ética é vivenciada desde a tenra idade. Começamos quando estamos nus. Totalmente. Aos poucos a imagem da mulher vai se distanciando e vai se apresentando a própria imagem. Se se pedirem hoje, por curiosidade, que você mesmo fizesse seu autorretrato, provavelmente, não conseguiria. Há imagens ainda em construção e o horror interno parece nos atrapalhar. Eu vi o seu horror e o mais engraçado é que não me incomodei em nada com ele, com você, com vocês. Quando não mais nus, estaremos ainda no chão. Algumas pessoas se levantam e seguem vivendo. Você se recusa a levantar. A se levantar do chão gélido. Gélido como o coração de algumas pessoas... como o meu próprio coração. Frio como o seu coração é. Quando imerso em prazeres o sorriso era farto, mas quando se precisava crescer ai as dificuldades, as falsas impressões e erros da humanidade ficavam tangentes. Que coisa, não!? Do chão frio e da nudez para a insensatez. Não nos culpemos, foi tudo ótimo... ao menos eu soube viver a algum lado qualquer, independente de você. Já nem conhecia mais você e reconhecia de que lado estava. Esteve do lado do cinismo. E do meu lado eu me apaixonei, porque escolhi viver. Jamais poderia exigir, me enraivecer por sua ingratidão. Jamais! E não farei isso. Fique tranquilo. Vou contar sempre a minha versão dos fatos. As pessoas que façam seus julgamentos. Afinal, mesmo sendo sincero e sem uma gota de pretensão pessoal, quem vive e ama viver ao redor de companhias, tentando conhecê-las e entendê-las, pode ser acompanhado até mesmo por um animal.

13 janeiro, 2019

Eu estive lá fora sem você

Hoje vi que morremos mais rapidamente num lugar que amamos, mas que não é possível haver amor.  Se há, pessoalmente não percebi. Nem notei! Hoje acompanhei uma noite com brilhos que iluminavam meus olhares e entoavam divertimentos. Mas eu, logo eu que era da noite, já estou morto. Ela se fez fúnebre. Como se estivesse me enterrando na cidade cinza.
Hoje morri mais depressa porque a minha ira não foi contida. Foi incentivada pelo calor incomum. Houve desajuste, implicância, desventura, raiva, descontrole, revanchismo, regateirice, rusticidade, desprimor, inconveniência, ruralidade, aniagem, desmesura, asselvajamento, desamabilidade, despolidez, indecorosidade, insolência, impolidez, incivilidade, indelicadeza, desconsideração e pavor. Justamente porque não quis me ver. Inventou um descuido sobre meu contato. Desfez de minha amizade. Desonrou minha atenção e, quando me escreveu, ousou me culpar. Morremos! Eu já vim morto para cá. Não me interessa saber sobre seu estado já que não quis me atender.
E por que motivo morri mais depressa na cidade cinza? Foi porque a minha mais sincera demonstração de cuidado não foi feita pelo amor.

08 janeiro, 2019

Lábios

Há uma mistura em você: dentro de você há um você que você não vê. Alguns poderão até vê-lo, mas sempre enxergarão o sorriso que você demonstrar e o som que entoar. Percebem mais facilmente a face séria, mesmo musicada, também.
Na verdade você sorri para você mesmo, infortunadamente por pouca idade, você não percebe você mesmo: não, necessariamente, você, mas a mistura que é você.
Na verdade, verdade mesmo, há um você sóbrio, que não quer se enganar a você mesmo e a ele. Você até percebe que você está em você, vinculado, moldado, envolvido, relatado, musicado. É uma mistura quase conexa perfeitamente. Quase porque é você que ouve sempre, mas não você, é aquele você. Você ouve outros vocês em vozes alheias. Um você que se vive com o outro você pela música. Há até lábios livres em você.
Na verdade, sem falsas ideias e desonrosos sentimentos, você ao se voltar para você acaba sendo o você que sorri, por um lado, mas fica sisudo no outro lado: é a mistura, sabe?
Você não se perde, mas também não se alcança, justamente, porque o você ao tratar sobre você que está rindo, é o você mais vívido enquanto você fica sério. É pura mistura, ocupando o mesmo lugar no espaço.
Você não precisa entender você, ainda. Você nem deve ouvir você, enfim. Você, talvez, nem pretenda. Bastam vocês.

28 outubro, 2018

Se eu pudesse


Se eu pudesse eu o abraçaria. Eu o deitaria em meu colo e contaria as mais humoradas histórias fantásticas da humanidade. Todas as mais fantásticas histórias porque eu não pretendia doar a ele o pouco, por mais intenso que seja o infinito da imaginação humana.
Se eu pudesse eu o beijaria as bochechas para que se sentisse mais meu e menos do nada. Afeto deveria ser linguagem entre humanos. Todas as línguas deveria se satisfazer com o afeto, por mais diversas que sejam as culturas.
Se eu pudesse eu o contemplaria. Já não basta o tempo que o universo lhe determinou para um fim e ainda a luta que tenho que travar contra o finito para que a memória sempre esteja frutífera? Não, não basta o menos.
Se eu pudesse eu o viveria. Para que sofrer sozinho se abraçar acalenta o corpo e desperta a alma para a vida?

A cor de Adão

Por pouco a mão divina não recobriu o barro com saliva distinta. Já deveria ser a sétima vez que o Criador tentava modelar a Criatura. Criatura de pouca substância, mas com forma bem aguda e delimitada. A medida deveria ser: a mínima não poderia superar a metade do comprimento do membro inferior e a máxima não ultrapassaria o dobro do membro superior. Entretanto, não queria o Criador deixar a natureza monótona e resolveu implementar exceções e casualidades nos nascimentos futuros.
"Já viu a cor do barro?", interpelou o arcanjo. "Não existe barro branco.", condescendeu o anjo. "E sobre qual peça Ele deverá se ocupar?", demonstrando receio."Rerum novarum.", arranjou o outro. "Devemos aguardar, Ele já se atrapalhou anteriormente."

31 agosto, 2018

O especialista

Parecia estar em mais um tempo de descobertas. Não era antigo demais para deixar de perceber os grandes detalhes estéticos humanos: as curvas; e tão pouco jovem o bastante para se esquivar na timidez da idade. Foi com uma lupa ocular, quase de nascença, que o fez ter um olhar de perito. Descobrir curvas humanas. As mais belas, todavia. Com o passar dos anos, aprimorou o foco e, como se gracejasse em conversa alheia, notou! Era demasiado observador e não era por curvas quaisquer: era pelas mais formosas, as que aquietavam-se num corpo ordenadamente... num corpo...
Antenado com as Artes, pousou sua atenção em quadros renascentistas e foi se debruçando, logo, em outros tantos de posteriores épocas. Da Vinci! Ah, Da Vinci! Como queria ter presenciado os diálogos que tivera com aquela mulher. Seu nome se parece com poema e sua face era a verdadeiro despropósito: seria o seu esplendor. Seria... é! Que curvas! Levemente davam vida àquela face. Uma demorada sombra nos lábios superiores levaram a criar uma sensação de paz. Qual sensação mais nobre repousaria em seus lábios?
Adiante, recuperou a concretude da vida. Esqueceu-se, porém de orar para a luz. Despreocupou-se com o contraste e... ZAP! Perdeu-se. Foram noites e madrugadas sem sonhos. Manhãs que inexistiam formas. Apenas abstrações. Retas. Losangos. Triângulos. Caducos. Vazios. E, certa vez, de repente... surge uma curva discreta, em um sorriso desavergonhado. Certeiro. Acertado. Dado a requintes de bom trato. De entortar o pescoço para admirar. Vejam só! É, então, ai que renasceu a cor, o brilho e uma luminosidade cujo contorno deve ficar gravado em mim para sempre.

13 junho, 2018

A vista

Mesmo que eu tenha essa repulsa por outrem, o mais verdadeiro asco pelo animal, ele sempre esteve presente em minha vida. É como a esperança, algo desafortunado que nos impede de o exercício da real felicidade, mesmo quando ela se compreende, apenas, como passageira.
Eu não permito aproximações minúsculas. Considero isso um desatino.

23 maio, 2018

Amado

Eu sei, bem como você também, que as imagens que porventura sobressaiam em algum intervalo do nosso dia-a-dia são sobre nossas memórias e não parecem menos árduas do que antes do distanciamento. Podemos seguir em frente com nossas escolhas em nossas vidas sem sentidos: ao menos tento aproximar você do meu suplício, e ainda iremos nos esbarrar, mesmo naquelas mais longínquas lembranças que ocupam o mais profundo de nossas mentes. Não haverá cobrança mais, pois prescreveu o tempo de nossa amizade: agora somos apenas memória. O distanciamento nos auxilia e, simultaneamente, nos perdoa, mesmo que seja apenas uma ilusão. Você e eu não fomos uma escolha, nós nos escolhemos. Eu e você não fomos apenas uma idealização de perfeita irmandade, eu pereci e você não se importou. Você e eu não fizemos devaneios, não houve oportunidade. Eu e você seremos apenas conhecidos num oceano de sofreguidão. Nós seremos somente passado. Temos, ao menos, uma cicatriz em comum: o medo de não sermos amados.

21 julho, 2017

Quando

Quando você se apaixonar o mundo vai se tornar diferente, na verdade as pessoas se apresentam diferentes. No fundo, no fundo, nada mudou. Nem mudará. O vento continuará a soprar em cantos que antes você não percebia. O vento... o ar é o elemento essencial para seus pulmões, mas quando você se apaixonar, nem irá notar os arrepios que ele provocará.

Quando você se apaixonar a tela do cinema passa a ser o aconchego ao lado de quem se admira. Realmente, nada se transformou. O ator continuará a ser o protagonista ilustre, enquanto o vilão está a assombrar as mentes inquietas dos cinéfilos. O filme... a cena é um recorte de uma história essencial para nossa distração e entretenimento, mas quando você se apaixonar, não perceberá que as mãos já estavam juntas, desde o começo.

Quando você se apaixonar os trabalhos acadêmicos não serão um imenso entrave, enquanto você tenta focar sua atenção nas leituras e escrita. De fato, as coisas permanecem como estão: em cima da estante de livros e anotações espalhadas. As anotações são pedaços de um lembrete que não se pode esquecer. As anotações... as palavras são fundamentais para a coerência do texto, mas quando você se apaixonar, de repente notará que o sorriso já se fazia em seu rosto.

29 maio, 2017

Hoje eu sonhei com você de novo

Ontem eu estive chateado. Chateado com o mundo e com seus habitantes, os mais próximos a mim ao menos. Nada dramático, apenas chateações que surgem no decorrer do dia. Eu sei a fonte principal do descontentamento que me perfura e, como sempre pretendo, evito expor o ser insuportável que habita em mim.
Quando me deitei, tentei escapar da vis intenções que percorreram a mente. Eram coices e desequilíbrios emocionais e em nenhum deles vocês esteve. Era final de dia. Passei, contudo, meses tentando sentir raiva da sua ausência. Confesso que não é comum eu conviver com amáveis sentimentos sobre as pessoas, mas nessa situação parece ter me preenchido imensamente de amor, desde quando caminhávamos juntos à noite no Parque.
A maioria das pessoas não entenderam esse convívio. Talvez, nem mesmo nós dois entendíamos. Pois foi assim que nos distanciamos: casuisticamente.
Tenho a impressão, contudo, de ter deixado você me amar muito além do permitido. Como se fossemos um casal encantado. Perderíamos nossa independência, afinal nos conhecíamos muito bem, ou, como se queira hoje, diplomático, conhecíamo-nos o suficiente para não arriscarmos um devaneio emocional.
Quando percebi que estava sonolento o suficiente para cerrar os olhos, veio a mim a sensação de incompletude, abstenção e vazio. É ruim esse sentimento, mas como estamos em tempos de absurdos, desfiz-me dessa empatia por ele. É degradante a um homem quando se apercebe que está com saudades de alguém que amou e esse alguém ainda vive. Está no limite do ridículo, pois o pensamento não arreda e continua circulando imagens passadas.
O sono foi se apossando de mim e como sempre me inquietei. Passado um tempo que não percebi, já estava em sua frente. Seu rosto devidamente delineado demonstrava sisudez e antipatia. Também pudera, já não estávamos mais abençoados pela graça da intimidade. Questionei se estaria com saudades de mim. Deu um sorriso acanhado e desenxabido. Eu entendi e por dentro algo agudo perfurante rompeu, rapidamente, a borda de esperança que resistia. O tempo é o pior inimigo dos humanos, mesmo os mais fraternais. Não resmunguei, por certo, em sua frente. Tentei remediar o abismo ali posto por você com outra pergunta, mas me esqueci qual era. Você se virou, andou alguns passos incontáveis e soltou que estava de partida. Eu, querendo insistir, e mesmo desmotivado, deixei-o quieto e com o seu andar nos distanciamos. Você desapareceu para aquele sempre.
Acordei, pouco menos emburrado que a noite anterior. Tomei-me pelas águas em banho e deitei-me novamente entre o lençol remexido e os travesseiros. Esqueci de desligar o abajur e, ainda sonolento, voltei a procurar sua imagem em sonho.

03 abril, 2017

Alcance

Desculpe-me, eu passei o dia inteiro evitando pensar e ver suas postagens na rede. Passei horas entre o cansaço de um final de semana intensamente juvenil e as primeiras horas da futura semana em um domingo sem esperança. Já devo ter reclamado ao menos todos os domingos sobre o ar que paira durante esse que é o mais desastroso dos dias. Preciso descansar... Descansar do que? Um dia de folga para quem, para o coração, para a mente, para a vontade de repetir o beijo? Folgado é o domingo, pois bem ele foi criado para isso! Que os diabos me lambam!
Eu sei, eu sei... o que aconteceu já é passado. Eu sei e nunca me privei de experimentar novas relações, mas... não tem porque me envergonhar, não é mesmo? Eu consigo pensar que foi bom para você, enquanto para mim, além de surpreendente, foi muito bom. Eu diria ótimo. Eu sei que haverá garbosos pensamentos sobre o seu desempenho, envolto em um olhar despretensioso, demonstrando agradecimento, mas é que o mais importante agora seria a minha sinceridade. Também não estou me empobrecendo... O ponto não sou eu, necessariamente...
Por que eu escrevo isso? Porque quem já está endurecido de solidão dificilmente se sente íntimo do afeto alheio. É claro que o meu pessimismo amoroso não me levará a nada, mas se ao nada estou imerso e o pensamento positivo não resolveu até hoje, o que me impediria de me esbaldar no pessimismo?
Eu cheguei em casa o mais rápido possível. Ninguém me esperava. Eu acabei me banhando novamente. Esqueci de fechar a porta e acabei nu em frente ao espelho. Por ter saído do contato com o seu corpo e ao enxergar o meu reflexo foi como se eu houvesse me visto pela primeira vez e tomei-me, por hora, de um outro pensamento: a feiura.
Com o passar da idade e das capacidades, as pessoas parecem se certificar de que melhoraram em todos os aspectos: falácia. Elas aprendem, assim como eu tentei lhe ensinar, que o tempo amplia nossas percepções: idiotia! Nem eu acredito nisso. O tempo, por ser o mais poderoso dos deuses, só destrói. Eu e minha pretensão de ser grande num futuro em que o fim é certo, determinado e imponente já me faz pensar em quão ridículo me tornei. O mesmo fim que parece estar a minha certeza sobre meu alcance é o fim que eu mesmo me encontro, ao menos em um dos períodos da jornada diária, todos os dias.
Lá vou eu, novamente, na seara da improdutividade emocional. E não faça essa cara de compreensão e entendimento. Onde estão as suas reações emocionais? A fonte da minha angústia está nas grandes pretensões que eu lancei para que as alcançasse sem muito esperar. E o que eu alcance? Beijos e afetos menos responsáveis. Celibato compulsório por me arriscar em aventuras imorais. Dúvidas sobre o meu real desejo, enquanto me definho dentro do meu quarto, que você nunca visitará.
O mais interessante é que sua beleza não deve se fixar em minha vontade, somente em minha memória. Seu encanto deverá ser de outro e não meu, afinal não ensino a beijar e nem a surpreender as pessoas. É como se você soubesse que eu iria ao seu encontro e eu, magicamente encantado, me permiti reviver essa experiência: a do beijo alheio ofertado a mim, sem minha iniciativa.
Antes que você se vá, saiba que o nosso tempo de intimidade foi, profundamente, satisfatório e doce para mim. Inexistem explicações a partir de agora, concordo...

Quando repousar, desejo que durma tão bem, como se pudesse caminhar sobre a maciez das nuvens e acordar em volto de caridade.

14 janeiro, 2017

Por que?

Sempre duvide de mim. Duvide do quanto eu possa lhe dar. Possa pretender oferecer. O que eu ofereço é artificial, momentâneo e despretensioso. Sempre desconfie do meu sorriso. Ele é rígido e seguro, mas indevido: é apenas cenográfico. Desconstrua as certezas sobre mim e muito menos acredite que esteja havendo um "nós".
Retire de sua memória as palavras dóceis que lhe ofertei quando nos apresentamos. Oferta de menos é o maior lucro conquistado. Quando toquei seu braço foi por descuido e não para insinuar desejo, porque eu não o sinto ainda. Não fico imaginando estar ao seu lado quando acordar e convidar para o cinema num sábado à noite. Minhas intenções são nulas. Eu estou nulo. Talvez eu o seja para sempre. Já não consigo mais pertencer à alma alguma. Elas são sem nutrientes para mim. Você é sem nutriente para mim. Não tem fibra, força. Jamais me estimularia. Absolutamente, desnutrição.
Por todos os santos e santas, destrua esse sentimento que ousou possuir, pretensiosamente. Você não tem sustentáculos emocionais para me pedir que fique. Seu lado é o menor espaço que eu poderia residir. Ele é claustrofóbico, deprimente, inseguro, imaturo, desenxabido, desagradável, desinteressante, impróprio, envergado, dissimulado, vil, torto, impuro, infiel, inacabado, úmido e, fundamentalmente, não meu.
Sempre duvide de mim. Procure manter distância. Seu odor altera meu humor. Fico irritado com a possibilidade de poder encostar meu nariz na sua bochecha ao cumprimento polido e exponencialmente desnecessário. Envolver minha mão por volta de sua cintura e sussurrar ao seu ouvido? Por favor! Precisaria pedir perdão aos deuses e ritualizar centenas de vezes cerimônias de purificação por ter me descuidado e permitido que você me beijasse.
Por favor, repita várias vezes para você mesmo até entender: "Ele não vai conhecer a minha mãe!". Quanto tempo a mais vai precisar para aceitar que não farei companhia a sua mãe? Nem o nome dela eu quero ouvir. Sentar no sofá e fingir empatia com ela enquanto eu espero você terminar de se arrumar: jamais! Odiando estar ali e na sua mente considerar que eu e ela já nos conhecemos o bastante e queremos o seu bem. Ela quer o seu bem, até o melhor se comparado ao que ela escolheu para a própria vida, mas eu? Eu abomino a sua pretensão de sentar ao meu lado no metrô e segurar a minha mão em frente às pessoas. Não percebeu que eu estou imensamente envergonhado? Olhe para dentro de si e veja se pode ser interessante para mim?
Sempre duvide de mim, muito pelo o que eu lhe ofereci e pouco pelo o que pensei e não ousei comentar.