O entrevistador questiona o
teólogo sobre o simbolismo presente nas religiões. O teólogo responde complementando
sobre a perda do mistério, que está banalizando as expressões de crença atuais.
E termina: “com a perda do mistério perde-se também o fascínio”. Mais uma das
minhas inquietações existenciais que refletirei pelos próximos dias.
Sou humano, sou real e sou vivo. A matéria não me domina, apenas me suporta. Minha essência forma-se a todo momento, assim como um despertar confuso e inseguro. Meu inconsciente realiza-se a favor de outrem. Minha animalidade revela-se quando estou só. A solidão confidencia-me poucas mentiras. Sabes quem eu sou? "Eu sou o que sou!" (O Criador)
21 outubro, 2014
10 outubro, 2014
Devir
Ontem nos pareceu tão farto. Quase como um glutão que devora
memórias.
Ontem se apresentou tão extenso
quase infinito
dono de um poderio sem virtudes.
Com maquiavélica vontade se apossou de entranhas corporais
expurgou recentes acontecimentos
destronou líderes incorruptíveis
deixou-nos órfãos
fez-me singular e não mais plural.
Ontem
fez de todos nós humanos desafortunados.
Ontem, ah o Ontem!
Com o auxílio do tempo personificado em vontade
legou-nos apenas bons momentos
que
em suas grandezas históricas
desapareceram das intenções.
Ontem
Fez de nós mais comuns que o habitual.
Ontem
eu usei o instante como utilizo de mim mesmo em dúvida
havendo somente uma força que habita em humanos
para não nos esquecermos.
01 outubro, 2014
Queiramo-nos
Entre abocamentos ficamos nós uns
nos outros. Inexiste a possibilidade desse fenômeno não acontecer,
independentemente das primárias intenções. O interlocutor repassa a intenção ao
receptor e ali se firmam sóbrios, quietos e cúmplices. Faltam detalhes,
contudo, nos futuros comprometimentos e as pequenas parcelas de cada um se
expandem involuntariamente. Deixam-nos inseparáveis de modo que há vontades
comuns e sinceras.
Quando cerramos nossos olhos
retorna-nos a imagem, do nosso pretendente à boa companhia, exclamando afetos
brandos, consistentes. Pedem-nos, assim. Quando cerramos os olhos em dias de
luto apontam-nos o reflexo de nossa alegria desvelada em face alheia. Por
segundos reconhecemo-nos em uma atmosfera sem paralelos: é como se fôssemos,
nós e as boas companhias, um só ser em conexão. Há paz. Hoje, em dias de
desvínculos, há prodígios quando nos tornamos nós. Precioso é o franzino feixe
que mantém os espíritos unidos por minutos desavergonhados.
Ao cerrarmos nossos olhos e
relembrarmos das boas companhias e elas em retrato estiverem ofertando um canto
de boca imensamente distante do outro canto de boca são elas mais que boas
companhias, são nossas.
24 setembro, 2014
Por favor
Tornamo-nos tão essenciais quando
pertencemos aos olhos alheios. Mudamo-nos por verdadeiros motivos interiores,
capazes de nos trazerem o bem. Mudamo-nos o nosso universo por momentos
singulares, respirações necessárias e toques de paz. Mudamos o nosso mundo.
Reescrito
Fomos (re)criados para
pertencermos a tantas coisas. Uma delas é a nossa fantasia, a mais brutal
capacidade da invenção mental. Outra é a pessoa humana. Não seriam coisas
propriamente, mas situações que nos impedem de verificar nossa universal e
precisa vontade de sermos um conjunto e propomos, erroneamente,
de nos tornarmos seres únicos. Entretanto, estamos ali por nós mesmos,
diariamente, com inquietações, ressentimentos, fluidos de alegria e esparsos volumes
de solidão. Pensáveis momentos agradáveis em companhias honradas, por um lado,
e instantes tão supérfluos ao lado de desconhecidos: tornados paródia da vida
contemporânea. Ironicamente, aqueles rapidamente encerrados pelo cronômetro
enquanto estes parecem perdurar milênios.
O que sempre conquistamos,
mesmo para o bel prazer, pela satisfação de sermos notados por alguém
declaradamente próximo é a incerteza de nos pertencermos e pertencermos a ele,
simultaneamente. Duvidamos e essa é a mais catastrófica das sensações, após o
luto. O receio habitante em nossas entranhas nos eleva a seres ou essências quase
sem humanidade, imediatamente. “Não queremos mais sofrer!” sentenciamos, pois, para
alguns que nos brindam com suas crenças já fomos ofertados às entidades extra-humanas ou ao universo que gira e por isso não há mais razões em lutar pelo desejável. Pertencimento, todavia, não é uma escolha tão saborosa
e pasmemo-nos: nunca será, porque as decisões nos desenergizam de maneira quase
absoluta. Há aqueles considerados
heróis que nunca desistirão de singulares conquistas, porém.
Atribuímos qualidades
desconexas para a natureza humana e sequer pesquisamos o outro profundamente. Não
temos tempo. Fica sempre para depois ou para nunca mais. Desfazemos farta
paciência para despender com o passado, afinal existem tantos futuros férteis
no mundo terreno... Já nos distanciamos de nossos propósitos, desse modo, e fugazmente
almejamos a felicidade duradoura, o inatingível idealizado, o insólito constante
e o comum disforme. Formulamos desenhos mentais sobre pessoas, esboços sentimentais para
predestinados e cálculos de intenções para desenxabidos seres, haja vista que no
horizonte da dignidade paira o querer. Sorrimos disfarçadamente mais para dentro porque ao nosso
redor substituímos as verdades passadas. Quase verdades, exclamaríamos. Tentamos e
já que não se sustentou deve ser descartado, afinal, às entidades extra-humanas
ou ao próprio movimento do universo cabe o dia em que iremos viver uma grande
experiência vital. Aguardamos atentamente por demonstrações irreais de
fidelidade de pessoas caracterizadas por nossas pretensões e pouco por
desavergonhadas ações virtuosas. A atitude já expressou o gosto pelo conhecido,
sabido, esperado e seguro.
Valemo-nos de
competições e apimentadas conversas acirradas para demonstrarmos a
superioridade de consciência, raramente encontrada nas saudáveis relações
humanas. O elemento motivador do virtuoso é a associação entre o tempo e os
saberes. Julguemo-nos por nossas imperfeições e esqueçamos as maravilhas
conquistadas pela empatia, originada em um descanso durante a jornada do
cotidiano. Teatralizamos estupidamente a dignidade o tempo todo: a alheia, frequentemente,
por medo. Suplicamos desejos que jamais se revelarão, por empáfia. Pretendemos
vontades eternamente idealizadas, ainda que as neguemos, desafortunadamente.
Seria a dignidade alheia tão vorazmente mastigável que não é possível admirá-la
enquanto dura vida, mesmo sabendo, que pelo resto de nossa existência
inexistirá o retorno após o seu desterro? Com o gasto do tempo em vida já
anulamos quase que automaticamente as possibilidades. Quando frágeis em dado momento seremos condenados por todo o infinito. Adotemos o ideal do super homem nietzschiano ao passo do
mais vagaroso animal terrestre ou ainda nos apoiaremos na clássica fórmula
política em que apenas os deuses e os monstros vivem sozinhos? Ao som de
Frédéric Chopin, prelúdio em E-Menor, ópera 28, número 4, encerramos, cônscios
de nossas decisões.
06 setembro, 2014
Diário
“Na natureza nada se cria, nada de perde, tudo se
transforma.”
Antoine Lavoisier
Antoine Lavoisier
Não é de costume eu me encontrar
comigo durante a rotina diária. Hoje, contudo, inesperadamente dois fenômenos
naturais me esclareceram algumas questões.
Estava ali, parado comigo em
reflexivo esforço, quando percebi, solitária uma flor cuidada com muito esmero
por uma mulher muito especial. Veio a mim uma imagem tão confortável: aquela
mulher cuida tão bem daquela solitária flor que sua beleza não se esconde,
apresentasse franca e com um singular encanto. Também estava, além de solitária
em sua única capacidade de ser, com suas pétalas voltadas para baixo, mesmo em
seu esplendor.
Percebi, rapidamente, que atrás
de uma beleza há um cuidado tão dedicado que as transformações do cotidiano
passam a ser mais conquistas que desencontros, conclui.
Logo, direcionando meu olhar para
o lado, e ainda pensativo, encontrei um gato preto sozinho em si e desenvolvendo
sua atividade instintiva. Seus pelos pretos e completamente pretos me levaram a
acreditar que a sua vida não se reduzia a estar em si, unicamente, e sim em
completar o ciclo de vida de sua maneira mais adequada e esperada.
Ao retornar, lembro de admirar
novamente a flor solitária, cuidando para que minha memória um dia, lá no futuro que
desejo distante, me faça revê-la em imagem. O gato, aquele com pelos pretos e
completamente pretos, driblou-me e se adiantou a frente e, parando me
olhou com seus olhos de gato preto e completamente pretos. E conforme me adiantei
mais próximo a ele, levantou-se e correu para perto da janela que lhe
pertencia, pretendendo escala-la com maestria. Antes, novamente olhou-me com seus olhos de gato preto e completamente
pretos. Foi ai que aprovei que a ele também eram dados bons cuidados e suprimentos
ofertados por uma mulher atenciosa, muito especial.
Éramos três solitários em uma
tarde de sensação térmica agradável e atmosfera reflexiva. Já se desfizeram os dias em
que me desconfortava um encontro comigo. Verifiquei, por fim, que estive em
três ótimas companhias: a solitária flor com pétalas para baixo, o gato com
pelos pretos e completamente pretos e eu.
02 julho, 2014
Sabemos
Eu sei que você não está ai agora por mim. Talvez nunca esteve ou mesmo tentou estar, incomodado possivelmente com sua própria existência. Pretendo saber que esteja em outro.
Incertezas circundavam minha mente. Sufoco as sentimentalidades, mas... ainda há migalhas para se desfazer.
Certa vez os mais novos me impuseram uma sentença: você deve estar ocupado demais com os outros e se esquece de si mesmo, não? Quem irá amá-lo?
Desde os primeiros momentos de consciência percebi que seria responsável, enquanto vivo, por minhas ações, falas, compromissos e alma. Alma inquieta, persistente na amizade. Inconformada com as ilusões alheias. Mais uma alma qualquer entre tantas outras. E assim se fez: preciso hoje do desconexo, do frouxo e do insensato.
Bastava apenas um momento certeiro para me manter senhor. Singular, especial e, para mim, eterno. O que se abandonou foram os laços e gestos, não a memória. O saber surgiu para me acompanhar por muitos anos, possivelmente.
Ontem me chamaram de esperançoso, hoje me chamam de estúpido? Porém, vou continuar, exclamei! Bastava-me um adeus insensato como os anteriores, pois inconformado, manter-me-ia intocável. Já não posso mais agradecer-lhe pelo retrocesso, mas sim pelo devir.
Ó Céus, não havia percebido! Não o trato mais na segunda pessoa...
15 março, 2014
Temor
Não havia notado o terror lá fora que nos cerca. Em um nada de instante nos tornamos suspensos de nós mesmos. É meu caro amigo... a facilidade de movimentos corporais que existia em nossas pretensões, propulsora de escolhas individuais, na história da humanidade nunca existiu de fato.
Nos tempos escuros da Idade Média o translado era uma aventura: havia monstros, seres sobrenaturais, espíritos andantes, seres mágicos e tenebrosos. Fazer a mudança de uma cidade para a outra era um desafio assustador para todos os que se amavam. "Cuidado meu filho!" tornou-se a expressão universal do cuidado materno. Espalhou-se para os confins, até mesmo nas ilhas menos povoadas. Onde quer que estejamos seremos obstáculos para outros. Há sempre alguém por todos os lados. Até em cima, em aeronaves, e embaixo em caixões. Alguns, polidos, mesmo sem cumprimentos respeitosos, jamais visualizarão nossas faces. Somos eternos desconhecidos. Restam-nos poucas virtudes, mas a mais necessária no trânsito de humanos é a coragem. Como eu pensei em lhe ver, meu nobre amigo, no afeto mais confortável e seguro para que se lembrasse do ventre que lhe permitiu existir. Como eu senti no despertar de segundos de horror que você viveu a mesma insegurança de estar em uma realidade tão imensa, capaz de nos trazer as imagens do terror antigas.
Entre as virtudes cardinais tomistas quero lhe oferecer, meu herói, a fortaleza. É ela que nos assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. Ainda irei rever o movimento afetuoso dos seus lábios demonstrando a superação do mal.
18 fevereiro, 2014
Tânatos
Parecíamos dois ingênuos corpos
em movimento até eu desacreditar na esperança. Lá adiante teremos mais provas
sobre dada fraqueza.
Minha vontade era de abraçar o
travesseiro e não largá-lo enquanto houvesse inquietações em minha mente. Vovó já
alertava sobre os riscos de não dormir bem, mas ela nunca me explicou como
deveria ser esse bem.
Houve emoção em cada palavra. Sempre
há de nossa parte. Como é prazeroso quando as amadas pessoas conseguem com
simples termos dar ânimo às vontades particulares enfraquecidas pelo roteiro
dramático da vida humana.
Queria ter me esquecido da
infância, ao menos não precisaria mais daquele colo maternal para poder me
confortar em momentos quase desesperadores de minha jornada.
Queria poder negar os instantes
que gravei em minha memória após ter sido afetado pelo amor de vovó em seu
colo.
Desejo de todo modo que a vida
não procure mais ser ceifada de meu corpo, pois a força que possuo está
gradativamente sendo acidentada.
Bastemo-nos de reclamações e
voltemos a admirar a poesia. Somente a fantasia poderá nos revigorar.
17 janeiro, 2014
Desterro
Fomos criados para pertencermos a tantas coisas. Não seriam
coisas, mas situações, contudo. Momentos intermináveis em companhias agradáveis
e instantes tão supérfluos ao lado de desconhecidos. O que sempre almejamos,
mesmo para o bel prazer, pela satisfação de sermos notados por alguém
declaradamente próximo, é a incerteza de nos pertencermos e pertencermos aos
outros. Pertencimento não é uma escolha tão fácil e pasmemo-nos: nunca será,
pois as decisões nos desenergizam de maneira quase absoluta. Atribuímos
qualidades desconexas para a natureza humana e sequer pesquisamos o outro
profundamente. Formulamos desenhos, esboços e cálculos para reflexões
infundadas, haja vista que o horizonte da dignidade paira além do natural. Sorrimos
mais para dentro porque ao nosso redor substituímos verdades passadas. Quase verdades,
exclamaríamos. Aguardamos pacienciosamente declarações de pessoas
caracterizadas por suas falas e pouco por suas ações virtuosas. Valemo-nos de
competições e apimentadas conversas acirradas. Testamos a dignidade o tempo
todo: a alheia, provavelmente. Suplicamos desejos que jamais se revelarão. Pretendemos
vontades eternamente idealizadas. Seria a dignidade alheia tão vorazmente
mastigável que não é possível admirá-la, mesmo sabendo, que pelo resto de nossa
existência, inexistirá o retorno? Ao som de Frédéric Chopin, prelúdio em E-Menor,
ópera 28, número 4, encerramos, cônscios de nossas emoções.
03 janeiro, 2014
Um sobre mim
Indivíduo mais louco, nunca vi ... Mais irônico, mais sarcástico, mais "Fantástico !"... Nunca vi...
Você mostra as pessoas a realidade, de forma tal que é "como é que se fala isso em português mesmo?"... Impossível dizer a emoção que você faz seus alunos sentirem em suas aulas.
Isso não é coisa de um simples ser humano, é coisa do André ...
Alunos que sempre estarão a te admirar... como a mim... Nunca vi...
Desculpe te tratar como professor, mesmo fora das salas de aula, mas para mim ser professor é como ser um Deus... Deus do conhecimento... E é isso que vejo em você, alguém cujo conhecimento é voltado para fazer com que as pessoas saiam da ignorância...
Entre muitas frases sobre você, quis mostrar o quão importante você é em minha vida... Um muito obrigado, de um alundo eternamente agradecido, por ter me apresentado a melhor coisa existente na vida... a arte do pensar e do saber.
H. S. L.
20 dezembro, 2013
Espera
Há
uma frieza tão grande nos gestos que acabei conquistado pelo medo. Não o receio
de perder ou ficar perdido, mas de sonhar. Costumo negar o verbo sonhar.
Acontecem instantes tão supérfluos que precisaria reaver o meu ser por
completo, incluindo os tais momentos de prazer. Prazeres? Parece-nos tão
formosos e estáveis. Farsa! O que somos senão instantes de busca para
satisfação de desejos... Ah, basta! Não pode haver mais negações. Não nos alertaram, quando infantis, que o
esperar assemelha-se ao sofrimento da perda?
09 setembro, 2013
Nostalgia
Talvez seja anúncio desprovido de pretensões mundanas. Talvez seja o anúncio de um devir mais calmo. Pode ser que as vivências tenham se (re)encontrado. E o que as circunstâncias provam quando estamos com a consciência tranquila? Com que humor enfrentaremos o tardio, o passado ressentido e a amarga ideia de que não fomos desonestos? Que profundidade há na tentativa de ser justo consigo e com os pares? Quisera ter aquela que sempre me retribuía os meus escritos com gentileza e entusiasmo. Sinto falta de ser aquele que por anos atrás se perdeu e se transformou nessa forma humana menos incauta.
09 julho, 2013
Por uma noite igual a anterior
Perplexo comungou de um instante de verossimilhança: causava arrepios ao comentar sobre os detalhes. Eram eles os mais sapecas da noite, envolvidos os participantes em um jogo fraternal. Na espreita do acaso suspirou: "Que os dias sejam tão gentis como a suave brisa matinal em plena primavera." Acontece que ainda era inverno... E continuou: "Que os sons embalem o corpo em pleno cotidiano e que para o melhor possua sempre a vitalidade ao acordar." Já não era tempo de invejar e sim, propriamente, esperar o bom e honesto afeto. Já se fazia madrugada e nem ousavam as nuvens oferecer mais águas. Continuaria por quanto tempo desejando um máximo de sentimento que até então não surgira? Quer-se muito em tempos de escassez de vontades.
27 maio, 2013
A sensação do envenenamento
Justiça
não é bem escolha. É a seiva de toda humanidade, por certo. Ela é atemporal. Dois
detalhes existiram: o primeiro e menos ingênuo é que eu sempre soube de seu
interesse – eu ainda, como antes, continuo chamando a atenção de pessoas inexperientes
no amor; o segundo foi a descoberta da sua destacável qualidade: insensatez! Da
sua insensatez! O que me leva a não denominar sua presença nesse escrito na
segunda e íntima pessoa. A pior sensação é saber que eu nunca lhe amei como
julgou me tratar em suas tentativas de me manter aprisionado naquela suposta relação:
“te amo”, como dizia desavergonhadamente, já não é uma conjugação valorizada
hoje em dia, principalmente para quem já escutou essa expressão verbal centenas
de vezes, justamente por pessoas parecidas com você: fracas. Fraqueza que é
menos contagiosa com o passar dos momentos afetivos, descobertas de que em
nossa vida social o mais importante é se tornar vil! Tão vil que adestramos as
palavras para nos mantermos menos afetados pela poção: veneno produzido pela
menor capacidade que já encontrei nestes últimos anos. Em qual estado da natureza
julgou possuir autoridade para ousar me inebriar com palavras tão esparsas,
profundamente ocas e insensivelmente aprisionantes? Torpe! Ínfimo cadáver sem
ética! Monstruosidade fugidia e que em momentos descontraídos esquecia-se do
disfarce. Nunca poderá me assombrar, nem mesmo agora em que após o término de
uma relação enfraquecida foi, propriamente, mais honesta a aquele que o
permitiu recolher, por simples instantes, sinceridade. Bondade, ora! Serei
misericordioso, contudo. Afinal estamos em patamares diferentes. O tempo o
sentenciará! Com meu auxílio determinarei: a jamais adentrar novamente na
carruagem em que por dias o vento pretendeu abençoar sua face. Não só pretendeu
furtar-me, mas sim ao tempo e a ele não se ofertam devaneios gratuitos. Ele é
rancoroso. Você se tornou tão vulnerável que os ramos dourados dos antigos mitos
jamais encobrirão seu corpo. Quer mais indesejável veredicto? Para toda a sua
história de vida estará envenenado! Contudo, há uma alternativa, agora. Não sou
eu quem a ofereço certamente. Somos seres no mesmo embalo de vida humana. Criou
para você um labirinto! Se reparar as virtudes, poderá reconhecer antes do término
de sua respiração a contemplação e a magnitude de uma vida sadia, apesar dos
enganos comuns cometidos. Todavia, se por fim, em leito de morte, houver
esquecido as virtudes, findará envenenado pela própria soberba e a ela Prudêncio,
poeta romano, recomendou a modéstia, vigiando-a durante toda a jornada. Somos
nossos próprios algozes. Cabe a você o despertar, ausente meu auxílio.
04 setembro, 2012
Por fim
Já sabemos que tudo
que tenha vida um dia se desfaz. Desfaz-se a forma e a essência. Fica, contudo,
a lembrança: de ser presença sincera, de ter conquistado felicidades, de
superar em conjunto as limitações e violências. Já se sabe, também, do fim
inesperado. Das incapacidades de fazer reviver alguém em nosso cotidiano. Mas o
pior é enterrar alguém tão próximo ainda vivo, mesmo sem essência. Sufocar com
terra ou até mesmo queimar momentos, imagens, auxílio e cumplicidade. O fim não
pode ser em si mesmo, mas no outro. Arde demasiadamente no peito de quem ouviu
os rumores maternos e se compadeceu. Se a mão atinge não foi em vão: porque lá
havia o último fragmento de amor. “A mão foi minha, o gesto foi teu.” Medéia
25 junho, 2012
Mais uma noite
Ontem o coração me deu mais uma batida
Talvez com menos proezas
Certo de que vou me iludir mais uma vez.
Todo dia me parece insólito
E já estou acordado para ele
Envolvo-me em vazio.
Eis um suspiro
Dado entre as pequeníssimas graças
Mais humanas, mesmo não podendo me servir.
O passado é demasiadamente sufocante
Porque houve tentações
E as mesmas não se aniquilam.
Os humores são diversificados
A brisa para alimenta-los não passa pelas janelas do meu
quarto
Pois bloqueadas estão para acomodarem a escuridão.
Ninguém dá atenção aos pormenores cotidianos
Citadino nenhum percebe o mal em si dentro de um quarto
Ali deve haver sossego e há farsa.
E escurece novamente
As ideias revolucionam o descanso
O anseio me desfaz.
29 maio, 2012
Gula
E se o beijo é dado sem propósito não pareceria com aquele que foi permitido ontem.
Eram 23 horas e o hálito combinava. Vontade era de proporcionar mais vontade, bem ali, muito próximos.
As palavras inquietas não podem ser presas por tempo qualquer. Basta falar que será ouvido. Pois se ouve com o coração e a mente limpos.
Bagunça está quando há beijos intercalados com sorrisos: misturasse uma inquietação em possuir mais exemplares com desejo de permanecer daquele modo confortável.
O beijo fogoso acontece quando a gula é um devaneio concordado entre ambos.
Faz-se companheirismo em vidas, outrora tão distantes. Espera-se, brevemente, mais.
Eram 23 horas e o hálito combinava. Vontade era de proporcionar mais vontade, bem ali, muito próximos.
As palavras inquietas não podem ser presas por tempo qualquer. Basta falar que será ouvido. Pois se ouve com o coração e a mente limpos.
Bagunça está quando há beijos intercalados com sorrisos: misturasse uma inquietação em possuir mais exemplares com desejo de permanecer daquele modo confortável.
O beijo fogoso acontece quando a gula é um devaneio concordado entre ambos.
Faz-se companheirismo em vidas, outrora tão distantes. Espera-se, brevemente, mais.
07 maio, 2012
Ilusão
Foi um dia de encanto, julgo
assim. Não me pertencia a tarde, sobretudo a lua cheia que nos banhou. Senti forte
sensação de esperança e nos tivemos. Lá estávamos cúmplices e distraídos. Cooperamos
nas palavras, gentis palavras. Sorríamos conforme o movimento do corpo nos
desinibia e os instrumentos conduziam. Havia inúmeras pessoas, mas não as notei.
Foram as frutas, as de dentro em
forma de suco e as usadas como luvas sobre o corpo, acalmando-o por meu excesso
anterior.
Fomos bobos, olhares cruzados
para uma sentença de final qualquer.
Senti a felicidade por estar ali.
Vivi! Totalmente pertencente a mim. Sabendo que por um determinado tempo seria
de minha vista. A aflição era ouvir: “Preciso ir embora”. É perene esta
sensação quando juntos.
Conversamos como responsáveis
pelos nossos destinos apesar da timidez. O sorriso ofertado era suficiente,
demonstrando sinceridade. Alento. E o medo sendo acalmado em mim por tentar
sufoca-lo, contudo.
Ouvia poucos ruídos ao meu redor.
Existiu um círculo a nossa volta cuja pretensão só se direcionou para a
unicidade, para quem me conduzia. Mesmo assim meu coração não palpitou aceleradamente.
Por que não? Deve ser porque criamos história.
Brincamos de acordo com o ritmo
do ambiente, sobre os trilhos de uma infância que para mim e para você não retornarão.
Nunca fomos crianças juntos para poder permitir um presente encantador. Unicamente
de minha parte, talvez. Deve ser pela maciez de sua voz, pelo descompasso charmoso
dos seus gestos, pela incompreensão de não viver vontades comigo que vivo esta
ilusão. Acabamos como o usual. Uma cama saudosa, um corpo solitário e uma
grandeza que se intimida por pensamentos existencialistas. Já está ausente.
Comprometer-me-ei com esta
confissão sabendo, por fim, que certo dia nós não mais dispostos estaremos para
um dócil passeio, apesar de cooperar com seu pedido de espera. O agora foi tornado
memória e existirão noites que a solidão será desavergonhadamente íntima.
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