15 novembro, 2009

Retorno


No começo dos anos 90, um jovem rapaz apaixonado por estórias incompletas se apresenta a um cinema, era sua primeira ida. Não menos incompleto como suas estórias prediletas, alcança a tribuna da bilheteria e reclama um ingresso para a sessão. Logo que consegue direciona-se para as poltronas, sem sacos de pipocas e refrigerante. Sozinho.

Pela manhã, imaginavam sua alegria para os comentários e, por pouquíssimo tempo entre o intervalo do banheiro e a saída para a escola, nenhuma palavra de satisfação foi ouvida. Nem mesmo o nome do filme comentou. Os argumentos e idéias mais brilhantes estariam por vir, não naquele momento nem naquela situação doméstica, afinal, o maior de todos os desejos humanos, para aquele jovem rapaz, era a solidão de um apartamento de médio tamanho no centro da capital. Não se sabe se seria a única sensação, mas a mais evidente, certamente.

Após chegar da escola, ainda com o mesmo semblante, o rapaz se queixa do clima: - Aqui faz um calor desgraçado! Disse à mãe, ainda preocupada com o preparo do almoço. Ela acena com a cabeça afirmativamente tentando concordar e logo que desocupasse do fogo iria chamar sua atenção e escutar um comentário, entretanto esperava demais daquele que um dia chamou de “filho querido”.

Satisfeito pela comilança, o rapaz lançou-se ao quintal para mais uma vez imaginar situações de desconforto com amigos e pessoas imaginárias. Elas não se comunicavam, ele não queria ouvi-las, na verdade. Tinha uma espiritualidade duvidosa, desde sempre. Achava graça de alguns fatos pouco hilariantes. Chegou até a rir quando soube de um suicídio mal concluído. Não, o jovem rapaz não era um canalha, nem uma pessoa de difícil convívio. Pelo contrário, chamava sempre os amigos para uma rodada de suco e biscoitos, quando se sentia muito ansioso. Era de muitas palavras alegres. Quando criança procurava ler todos os letreiros que encontrava pelo caminho de volta à casa. Ainda não adulto procurou esclarecer alguns significados, palavras estrangeiras e símbolos universais. Concordava consigo mesmo ao ler um livro, mesmo que fossem apenas as primeiras páginas. Lia pouco, contudo. A inteligência lhe foi grata, porém. Passou mais um dia em sua vida. “O tempo – dizia o rapaz – é a nossa mais deliciosa criação.”

01 novembro, 2009

Pegues

Faça isso sim
encantes
provoques a cada foto
Em cada retrato
Pois sendo ocular
me exergo maior e mais
Mais e mais... teu.

Amante de tua boca
sempre
Língua solta
fala precisa
Olhos contrários
Parcela de Um
Animado em dois.

Não me digas!
Ou melhor, digas sim!
declares

Ao menos uma vez
novamente só
que o nosso desejo
é vivo.

Mostres!
Eu ordeno... mostres!
Ordenes a mim, por favor
agora sabes
que meu peito é teu.

Derrames o teu suor
chames
chames o calor que há

Acertes o foco
Já não é mais um instrumento
é tão somente
o teu olhar para o meu.

Pegues
Pegues novamente

Mas pegues.
E não se esqueças
Somos nós.

Declames
Declames o teu desejo
Usando o que de maior valor
é meu: o teu olhar.

24 setembro, 2009

O novo olhar

Nem um pouco cansado de te ver
mesmo em foto.
Foi em uma tarde de inverno, chuvosa.
Contrária à predestinação de cada corpo e a tudo.
Que então eu declarei.
Precisava sentir a emoção se fazer palavra
e foi aceito por ti, unicamente.
Compreendido naquele instante
nosso. Vivido...
Foi em uma tarde de inverno
que libertei-me para ti
Declarando o meu gostar
e assim foi feito.
Vivifiquei o olhar
Nunca cansado de direcionar a ti
Rompendo moral e costumes.
De modo maior
Surpreendi-me, quando recebi o teu primeiro dizer, com letalidade.
Palavras ousadas.
Hoje não só minhas
Nossas!
E precisava declarar
e assim foi feito.
Foste a primeira parte de nossa relação
a declarar
E eu?
Servido de ti
Se dado mal, foi feito pelo gostar.
Se para o futuro elas se lançaram, palavras e emoções.
Lá estarei para envolve-las com meu corpo.
E não só estarei.
Alcançando-te, ainda.
Por fim palavras
Regozijem!
Pois o belo está em vós, também.
Amo-te, amo-te.
Por todo o nosso sempre.

17 setembro, 2009

Das revelações momentâneas

Até parece um dia comum de inverno. Não que eu quisesse pensar na estação e clima exclusivamente, nas temperaturas que influenciam meu descanso e o pouco repouso após o almoço. Mas o tempo agora, este em que vivemos, me traz algumas inquietações: viver sentindo o mórbido cotidianamente e inebiar-se com o frescor da jovialidade alheia.
O outro parece atraente, sem receios, descobridor das sensações, pesquisador de temáticas antes inexplicáveis e ousadas, ouvinte do passado e recriador do poético moderno. Surge desse modo uma questão: onde este jovial ser se insere na sociedade local, cada vez menos própria de uma leitura histórica e ativa politicamente, e qual papel representa para mim?
Em textos outrora escritos vivifiquei minhas vontades de contribuir com parcela de leituras acadêmicas e reflexões feitas, como a não discriminação de gênero e sexual, a manutenção e modesto consumo dos bens industrializados, a (re)valorização dos direitos políticos e humanos etc. Todos os bens humanos modernamente pretendidos, insistentemente discutidos e propositadamente pertencedores de propósito desconsiderável pelos detentores do poder local e internacional.
Mas que nada! O valioso som que a dúvida permite imprimir pelo jovem, naquele instante de atenção, parcialmente desconsiderado, valeu para uma nova impressão pessoal: o fundamental viver coletivamente. A nova tentativa, a firmação do passo e ritmo de leitura para as ações políticas, a maneira de reverter a violência velada e muitas vezes descarada dos ignorantes, o diálogo harmonioso nos espaços familiares, a intenção pelo todo no ambiente público e, mais ainda, a perspectiva pelo fortalecimento do saber, a fim de recomeçar os processos pessoais, foram recapitulados.
Quase sempre permiti tratar sobre o antigo em vista de uma recriação do viver humano presente. Hoje, precisei perceber mais atento o novo, o que está aqui comigo e junto a mim para encontrar um humano sentido de vida. Sem amarras ideológicas. Próprio de si. Próprio para o outro.
(Re)encontrei o sentido já enfraquecido. Contudo, fico especulando como uma criança: o que há nos olhos desse jovem que me idolatra?
Se a relação presente me permitir, voltarei a reescrever sobre o novo. Caso contrário, retorno para o conforto do antigo. Ouso aproximar minha intenção a de Claude Lévi-Strauss, que em entrevista proclamou não estar para o mundo que será ocupado por bilhões de pessoas e sim para o mundo das sociedades do passado, cujas análises foram feitas.

22 agosto, 2009

A nossa imagem

Eu procuro a tua imagem
Parece ensino de criança
Tu corres de minha visão
Como se eu não pudesse encontrar-te
Fora de mim
Mas
Para mim
Tu és um adulto

Procurei a tua imagem hoje à noite
Com respingos de ingenuidade
Não a encontrei como antes
Pois hoje sou um homem
Feito homem
Por ti

Procuro a tua imagem
Desejo da minha parte
Ainda, parte infantil
Leve, sem presas
Sem moral
Sem dono

Procuro a tua imagem
Assim
Leve, verdadeiro
Homem

Para mim tu és
A imagem mais bela que já vivi

E eu, moço
Frágil pareço
Esperançoso por fim.

01 agosto, 2009

Uma imagem do Céu

Por caminhos a peregrinação percorre.
Sem perceberem, as beatas e as crianças espalhadas entre o andor estão ocupando seus espíritos.
Causos juvenis são ditos entre as moças mais crescidas. Espalhando a descoberta de si mesmas pelo olhar entre as rendas, cerceada tantas vezes pelas vozes idosas.
O gesto discreto da carola, cujo rosário ocupa um lugar privilegiado no campo de visão do pároco.
Ele, contudo, suado, espera a próxima parada para um brevíssimo descanso. O repouso, por fim, apenas na hora da morte. Um sufoco, quase. Alívios momentâneos.
Os coroinhas estão postos ao lado do andor. Talvez eles sejam os mais próximos da benção.
Os auxiliares adjacentes parecem reproduzir a ordem do dia como se estivessem cumprindo a penitência outrora passada. As orações são árduas para aqueles que as Letras não se fizeram íntimas.


A jornada parece findar perto da lateral da capela.

Chão batido, parede rebocada e telhado disforme.
O vento abana as saias rodadas das senhoras de bem.
O chapéu do senhor procura alcançar outra razão.
Quase em seu proposto lugar o andor é bamboleado.
Um dos moleques que o segurava tropeçou.
E com um enorme susto, suspiros e tristeza são postos livremente.
Esperam o resultado fatal do desatento gesto.
Ouve-se ruído de pesar. Preces balbuciadas feitas à luz do nervosismo. Pretensões de ajuda. Mas não adianta nada, o feito já foi feito.


O santo, mesmo de barro, cai no chão seco.

Desfazem-se das comedidas posturas e furtam do profano os mais comuns dizeres de ofensa.
O santo caiu, entretanto não quebrou.
O mais próximo cata a estatueta e põe novamente no sacro sustento. E, longe do perigo, a última prece ao santo é proferida.
Na seguinte missa, o pároco envaidecido terá muitas confissões a receber. Palavras dadas ao vento são despropósitos, mesmo que por espanto, ainda mais se forem emprestadas ao infortúnio.

13 julho, 2009

A questão nacional - contemporaneidade, literatura e identidade nacional

Recentemente recebi este questionário que atende uma questão muito importante e que enxergo ser necessária nas escolas, pelo menos nos ensinos fundamental e médio. Abaixo entrevista dada a
O romance "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, permite levantar alguns questionamentos em relação ao mundo contemporâneo. Entreviste uma pessoa culta!
Luiza Duque. O nacionalismo é uma caracteristica presente e marcante no Brasil contemporâneo?
André Luiz. Sim, pois foi criada uma identidade nacional graças a grupos bem mobilizados. Houve dois movimentos que permitiram criar um sentimento de Nação: o primeiro, podendo atribuir um caráter histórico, foi a independência política, no século XIX. Ela foi um movimento aonde grupos mobilizados se preocuparam em criar uma nova sociedade. Uma sociedade em que os fazeres não dependeriam mais de Portugal; e o segundo momento, também histórico, mas com aspecto cultural-artistico, foi o da Semana de Arte Moderna, em 1922, São Paulo.
Estes dois momentos sensibilizaram e criaram um sentimento pela Nação. Entretanto, por falta de leitura política e histórica, a população hoje como que se desfaz dos acontecimentos passados e se anima nacionalmente em momentos esportivos (COPA e OLIMPIADAS).

Luiza Duque. Ainda é possivel afirmar que existem grandes ideiais sendo defendidos no mundo atual? Exponha seu ponto de vista e, em caso afirmativo, apresente exemplos.
André Luiz. Existem dois grandes ideais, os quais impulsionam grandes idéias. Os dois maiores são o consumismo e a ecologia. Um se contrapõe ao outro. São divergentes. O consumismo é forçado pelo capitalismo e a ecologia é impulsionada pelo Movimento Ambientalista.

Luiza Duque. Na sua opinião que problemas existentes no mundo atual são merecedores de crítica e quais as possibilidades de solução que você apresentaria para eles?
André Luiz. Violência e consumismo. Contra as ações violentas é necessária mais leitura e a revalorização de ideias como a tolerância religiosa e liberdade. Para o consumismo uma das soluções seria a reeducação das sociedades para um consumo necessário, para a sobrevivência e não por necessidades superficiais (status, enriquecimento e deslumbre).

Luiza Duque. O que você pensa a respeito da influência de culturas estrangeiras sobre o modo de vida dos brasileiros hoje?
André Luiz. As influências sempre existiram. Entretanto, graças à globalização essas influências passaram a ser mais intensas. Certamente, o modo de vida dos brasileiros vai receber diretamente novas características culturais estrangeiras. Contudo, cabe aos brasileiros definir o que é bom e o que é ruim para a própria cultura.

Luiza Duque. Dê exemplos de algumas citações do mundo contemporâneo que mostrem como certas idéias radicais, quando defendidas de maneira extremista, podem conduzir também a resultados negativos.
André Luiz. Não me recordo de citações diretas feitas por pessoas, mas a ação política mais extremista que pude notar foi a política externa do Governo de George W. Bush, a favor de uma pretensa democratização em um país, como foi a guerra no Afeganistão, cuja cultura e pensamento são muito variados se comparados aos dos Estados Unidos e a maior parte do Ocidente. De mesmo modo ocorreu com o Iraque.
Fim.

28 junho, 2009

A Deus

Entregam-no a Deus,
aos deuses e deusas de uma eterna redescoberta pela duração temporal.
Duração de uma humanidade ainda com achados esparços,
fendas e rachaduras.
Com dignidade em reconstrução.

Assim como nós, você em vida ludibriou-se pelos prazeres
e encantos humanos.
E assim os fazemos.
Nós e aqueles!
Para onde iremos caminhar apesar de sua ausência?
Para um desconhecido fim?
Exatamente.

O que posso oferecer é um antigo dilema: está no desconhecido. Hoje para mim e para todos.
Escuro!? Certamente.
Claro!? Apenas durante as orações e despedida.
Adeus.
A Deus.

À memória de Lucas G. Fioreze
(* 02/02/1988 + 27/06/2009)

07 maio, 2009

Por que eu não consigo aprender o ofício de um poeta?

“O verdadeiro poema é sempre pedagógico.”
Mário Faustino

Por que eu não consigo aprender o ofício de um verdadeiro poeta?
Apesar de anos tentando espremer um punhado de saberes para compor um conto, obtive, entretanto, um conjunto poético: substancialmente ignóbil.
O que fazer para poder ser um poeta? Seria um desejo absurdo? Por que não me contento em não ser um artista do ritmo das palavras? Se é que um poeta o deva ser.
Eu mal posso escrever meu próprio idioma. Aquele que me fez cidadão de outrem, preso a outrem, endividado pelo resto dos dias em solo.
Realmente pretendo esculpir um novo eu, distante das influências que já recebi e ainda me perturbam. Poderei? Como é fácil ser palerma no momento da apresentação.
Mas a questão fundamental ainda é a mesma: por que eu não consigo aprender com o fantástico delírio do enlace matrimonial das palavras, soltas, às vezes em forma ingênua, desenfreadamente humana, sincera nas pontuações e nobre no objetivo? Por que? Qual a razão por eu não ter percebido quanto mal me fez a ausência de um poeta? As verdades contidas em um adormecer abraçado a ele, sem frescuras e receios. Saberia, por fim, como viver sem me desgastar com pretensas insuperáveis emoções. Não quero me apoiar no discurso famoso do romantismo: ah sim! As emoções são os mais nobres objetivos da vida. Então, por que a razão? Não se separa a água do óleo assim, despropositadamente.
Não devo, pois os anos me furtaram da leitura poética, aprofundar esta inquietude. Deixo algo incompleto, pois devo recuperar algo que nunca me ofereceram. Aqui trataremos de minha história. Como receio comentar sobre algo particular em folhas de papel universalmente impessoais. Quem nos legou essa herança? A escrita é para o agir livre, não para completar frestas mal-acabadas.
Saber? Saber sobre uma história pessoal chocha, quase sem brilho, sem vontade de viver, principalmente quando os completos 13 anos se fizeram.
E onde está a atenção no aprender com a poesia? Deve estar no calabouço mental de um quase feliz, com suas quase teses de vida e um rancor no coração. Não! Não existe mais rancor, mas o que é um dizer sem expressões piegas? Veja um conto inglês famoso no ocidente! Tornou-se um ícone do romantismo mundial, como se o oriente todo se vangloriasse de um texto eleito como sublime pelos próprios ocidentais. Cadê a possibilidade de aceitação ou desapreço. Vive-se o cotidiano recebendo dizeres de negação e querem nos fazer ler algo que jamais sentiremos. E por que? Porque é e pronto! Quem irá revidar a lança jogada por um nobre? Somente um nobre, pois tem leitura. Agora eu? Eu? Sequer leram um dizer meu que jamais sairá em um jornal de grande circulação nacional. E agora ainda sabem que não fui apresentado à poesia.
Tudo bem! Escrevo para mim mesmo. Quem quer saber de algumas verdades? Mesmo que sejam as identificadas por mim. Se forem minhas, que fiquem comigo até o dia em que perderei a possibilidade de reconhecer os signos e as representações. Após isso, fica a critério de um outro quase feliz, com suas quase teses de vida e um rancor no coração – mesmo que seja apenas para um cenário primário – publicar dizeres sem aprendizado.
Como conseguir quietar o ser se não foi possível aprender a se-lo? Como? Da mesma forma que se acham pedras, pedregulhos, pedrarias sem selo no “meio do caminho”?
Minha lição existe e deve ser singular, ausente de impulsões e ânimos literários: deve ser a que me permite viver sem amarras no peito.

23 março, 2009

Arte do saber

Veio como se viesse do tudo
Parou-me, completamente.
Imaginei...
Não sei o que.
O por que...


Anos sem surpresa.
Desejei...
o que?

Sim, eu sei.
Pretendi ao menos saber.
Quisera, por vezes, não ser.

Conhecer como conhece a natureza.
Sabe como um saber da arte, um ofício.
O viver.

Um desejo em mim, paira.

Veio,
veio como se quisesse possuir algo que,

em olhos melancólicos, não me contou.
Contou sozinho um conto do saber.
O seu saber que auxiliei ser.
O ofício aprendido.

Veio,
veio como se desejasse um saber maior meu,
os que se parecem com os fios dourados que possui.

Declare! Faça-se saber.

A quanto tempo se preparava para mim?

16 março, 2009

Questões?


Passado, presente. Deram-me a incerteza, duvidei e sustentei por alguns meses a vontade de ser alguém. Alguém interessante para uma vida em grupo. Pronto para viver o novo. Disposto a construir algo inacabado. Retomá-lo!
Deram-me algo que não consigo me livrar: a consciência livre. Clara, agora, nem tanto.
Até ontem certos caminhos trilhados, bons projetos.
Até ontem figuras espalhadas, livros abertos na estante.

Em um artista me tornei, ele declarou. Até me surpreendi. Hoje, não sei ao certo. Deram-me, contudo, a dúvida. A surpresa não fazia há anos parcela pouca de mim.
O caminho original traçado não se força com tanta vontade. Várias intenções. Auxílio verdadeiro, crê?
Eu propus requerer certezas em um momento pouco equilibrado, coerente com o fluxo de vida humana. E, no entanto, incerteza. Pluralizemos: incertezas. Eu até declarei!
Homem da filosofia, da ciência ou do mercadológico? Creio que passo a questionar minha função social ou qualquer outra função que tenha possuído. Creio que já não sou mais o mesmo que o planejado. Que "nós" planejamos. O fabuloso projeto de vida humana, sustentado até agora por um milhão e meio de vontades. Porém, não somente minhas, mas profundamente desejadas por mim.
Ontem estava seguro. Ontem estava menos faminto. Ontem menos cônscio. Ontem estava quase totalmente "nós".
Futuramente, devo voltar para o olhar primitivo. Básico, mal feito, mas já feito. Entreaberto. Pouco fechado.
Futuramente, irão me incomodar com perguntas, das quais saberei a maior parte. Ou desejarei desconhecê-las.
Presente, futuro. Como se reconstrui pudesse acalmar a mente. Uma mente antes atribulada, inquieta; hoje, um turbilhão.
Façamos um fogoso propósito: deixem-me sem o privado. Retornemos ao "nós".

25 janeiro, 2009

Dó em mi

Fui procurar nos estudos sobre o tempo,
o motivo para te querer bem.
O mesmo para me fazer viver.
O mesmo para te satisfazer.

Criei uma razão em dó.
Não criara razão nenhuma, outrora.

Agora, te fizeste presente no inconsciente
Novamente!
Passara desabercebido por uma nota, dó.

Passado e presente
quisera um futuro em dó.
Recebera o meu intuito
num desejo em mi.

Prêmios, chateações...
Chega!
Até quando irás negar o teu desejo por mim?
Até quando irás repreender tua consciência em ré?
O nosso futuro, então, em si.

11 janeiro, 2009

Esperando


Ao contrário da maior parte das pessoas, tenho vivido minha paixão ao lado de amigos e amigas. Também pudera: voltei-me a atenção e o que encontro? Amizades. Amizades em arco-íris, grandemente.
Anteontem, quis poupar-me de agudas esperanças: a maior, foste tua presença. Tu vieste meio a um encontro amigável. O que diriam? Tramas do acaso histórico? Certamente, não. Tiradas do destino? Indubitavelmente, não.

Acompanho as tuas ações sem mesmo desejar acompanhar. Não crias outra razão a não ser me atrapalhar a quieta vontade de ser um liberto? Liberto de teu corpo suado, cheirando acrílica. Liberto de uma mente em que enxergo estruturas arredondadas, cujo plano de fundo é uma bahia brasileira. Livre totalmente, como se possível fosse, de tua pop e aguda voz. Brasileiramente, livre de um homem que me inspiraria o último dos meus sobrenomes e a minha primeira fatia nominal, envolto, sobretudo, em um rebolado travesso.
Voltes para tua liberdade antropofágica. Voltes para o âmago da desesperança sobre o solo amargo da solidão enferrujada. Barulhenta, sim! Para uma fantasia perigosa, incerta. Para noites deslumbrantes e uma companhia infantil. Para as luzes ofuscantes que te engolirão desenfreadamente. Para a saudade do lar. Para, então, bem perto do nosso inferno.
Desistas de tudo, menos de ti. Porque aqui viverei esperando, ou, ao teu lado reconquistando.

02 novembro, 2008

Aqui te espero


Parece-me que nunca vivi para mim.
Outrora, anunciei o meu fim.
Hoje, pretendo a ressurreição de minha alma.
Engano.

Uma alma fortalecida, imagino.
Fortalecida pelo luto
Uma alma que foi renovada pelas noites de pânico,
pela profundidade do vazio,
por tua ausência.

Fortes minhas artérias e veias são o bastante,
pois esnobaram a dor causada pela doação perpétua.
A eternidade terá fim, creio,
ao menos para o meu ser.

Basta de querer te encontrar nas tranquilas lembranças, em uma cena filmada no decorrer de tua exposição.
Sobre o que dizeste?
Para quem o dizeste?

Saber é doloroso,
tu não o vives, ainda.
Cava-te até mim, cava-te!
pois, no abismo, não permanecerei só.



(Obra de Tomie Ohtake, Sem título, 1960)

03 setembro, 2008

Escolhas


Quando disseram às lideranças antigas de que a majestade é para um único senhor, muitos esqueceram da grandeza que é a humanidade: o desejo de vivenciar os outros e se esquecer de si mesmo. Outros, cônscios de sua tarefa, seguiram as próprias crenças. Seguiram reservados.
Hoje, as lideranças não são escolhidas... talvez nunca foram... São cada vez mais exigidas, não importa como.

Saiba, temos a cada momento menos oportunidades de revelar nossas potencialidades. Em momentos singulares dirão: "É verdade, ele fez! " ou, então, "Não, não foi possível!"

Figura: Péricles.

07 agosto, 2008

Não leias

Duas inspirações musicais. A arte imita a vida, mesmo?

Cara Valente
(Composição de Marcelo Camelo. Interpretação de Maria Rita)

Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir
Foi escolher o mau-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pôde se entregar
E agora vai ter de pagar
Com o coração, olha lá
Ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo cara valente
Mas veja só
A gente sabe
Esse humor é coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás
Da cara de vilão
Então, não faz assim rapaz
Não bota esse cartaz
Que a gente não cai, não

Ê! Ê!
Ele não é de nada,
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só
Um jeito de viver na pior
Ê! Ê!
Ele não é de nada,
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só
Um jeito de viver nesse mundo de mágoas.


O Mundo é um Moinho
(Composição de Cartola)

Ainda é cedo amor
Mal começastes a conhecer a  vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

27 julho, 2008

Descoberta primeira

Envio

Já não se sabe o momento exato de partir e
não quero me entregar tão cedo.
Aquela paixão que eu senti quando te conheci, não está rolando mais faz tempo.
Já não vejo mais o brilho dos teus olhos para mim.
Nem sei se ainda posso mesmo te fazer sorrir. Creio, porém, que sim.
Cada momento que passamos juntos foi aprendizado, apenas para mim, aparentemente.
Mas tudo o que foi bom se acabou. O pior, permanece, enfim.
E quando penso em ir embora, tu não queres dar motivos. Amedronta-se!
Disse que estou perdendo a paixão que tenho no coração. Se ainda há coração, devo ter perdido.
Eu fico disfarçando, finjo que não entendo e em pouco tempo relembro tudo outra vez.

Resposta

Tuas palavras não me prenderam momentaneamente.
Enxergo, claramente, teus desejos.
Fontes. Inspirações. Desejos egoístas.
Fogo como provocação. Súbita vontade de me ter, mesmo arredio. Inconfesso.
Se meu foco... Se foste tu... Seria e não é...
Teríamos juntos o outono mais sombrio.
Faltas e acomodações.
Requeres momentos. Dúvidas vis. Inseguro de mim e de nós.
Olhares esparsos nos cercariam.
Pois bem, foi!
Hodierno, vivifico o perpétuo.
Jamais o momento.

21 julho, 2008

Várias Noites

Esses bichos são a extensão da miséria.
Voam como se fossem os donos do ar.
Ar que se eu respirasse profundamente
Perderia-o.

Destrói-se, hoje, quase tudo.
Inclusive a esperança do ser.
Ser ambiente, ser vivo e ser gente.
Pior seria se não pudéssemos nem viver.

Gente, eu vivo em um ar
Ares e males
Vivo, porém.

Vieram e me contaram
Contaram que o ar virou morada de bicho
Um tormento gratuito
Atraso de sono
Coceiras
E eu vivi.


Cama, colcha
Se nos faltam os retalhos
preferiríamos a palha.
Ai sim! Feito, pois.
O barbeiro majestade.
O grilo minha depressão.
O pernilongo minha insônia.

Ouvi tanto bicho ao me deitar
Que se eu sonhasse... com a mata
Estaria cravado.
Pensei, contudo:
- Aqui jaz um defunto!
Jaz, aqui, um bicho.

27 junho, 2008

"No Paraíso da Ilusão"

Após uma década, ainda consigo, graças a uma memória vigorante, recordar-me dos sorrisos desta autora. Ao lado do barulho, da rotina embaçada, dos vultos humanos e do desentendimento vil relembro-me do encanto que é receber um sorriso ao invés de uma indiferença. O credo no humano não me permitirá, mesmo que doa, arrastar-me para longe de ti.
Graças ao sorriso dela, também, posso reafirmar meu desejo em viver. O seu exemplo é maior!
Transcrevo um breve poema, que expõe uma ferida ainda aberta. Minha alma sempre o possuiu, contudo.

Gostaria

Gostaria de não gostar de ti
então saberia como é viver em paz
Queria ser capaz
de te esquecer
Por que tua imagem não sai da minha mente
e pára de me perturbar?
Gostaria de um dia acordar
e em ti não mais pensar
Quero ser quem eu não sou
viver o que não vivo
e sentir o que não sinto
Ou ao menos saber o que não sei
não pensar em quem penso
e não amar a quem eu amo
Não gostaria de ser normal
se o normal das pessoas for amar e sofrer
E tão-somente correr para bem longe
e deixar de te pertencer.

Paula Bueno
(Janeiro, 1998)

09 junho, 2008

Resistirei

Par
Hoje acredito em nós,
não juntos, menos separados,
mas distantes. Longe, porém.

Humanos
Perdemos, vivemos
Voltamos e circulamos como o vento bravio
outrora manso, sorrateiro.

Perdi, perdi forças
Perdi
em batalha, mãos alheias feriram.
Incentivadas pelo demasiadamente humano.

A Fidelidade se perdeu
E tentou me levar com ela.
Perdemo-nos em um círculo de dizeres ignorantes.
Perdemo-nos no início da relação amigo-amorosa.

A Fidelidade cobrou-me ciúme.
Desejei perdê-la, então.

Perdi a Fidelidade para o ciúme,
algo dado, repassado, ignorante, vil.
Infortúnio de crença!
Transeuntes desamparados
por algo perpetuamente herdado.

Viram-nos amantes-amigos
Reviraram-nos pelos lados menos conscientes.
Julgaram os lados internos.

Não perdi somente a Fidelidade.
Perdi minha oração para o humano,
abaixo de um Céu empobrecido pela tormenta das mudanças atuais.

Sem questões, apenas afirmações claras.
Cônscias, resistentes.
Inemocionais.
Solitárias.

Jamais nos perderei.
Cativo-te, cativo-lhos.
Eterno responsável.
Entretanto,
perdi a Fidelidade para o ciúme.

02 junho, 2008

Amor-amizade

"O amor em forma de amizade deveria impregnar todas as relações e estender-se a toda a humanidade, porque @s amig@s se aceitam em suas limitações. [...]
É próprio desse amor não haver dominador(ra) nem dominado(a). [...]
É movida pelo desejo de justiça, igualdade de oportunidades e efetivação da dignidade humana: ama-se a tod@s sem exclusividade."

(Texto de Neusa Vendramin Volpe e Ana Maria Laporte. Adaptação de André Luiz Martins)

21 maio, 2008

Lição de casa


1. A respeito do Congresso Nacional, qual é a relação entre a produção legislativa em larga escala e a eficácia das leis no que diz respeito a implantação e respeito. A grande quantidade de projetos apresentados anualmente pelos parlamentares, tanto do Senado como da Câmara dos Deputados é realmente necessária e útil? Qual o efeito real desta grande quantidade de leis na sociedade? Esta é beneficiada em suas necessidades mais urgentes?
Nicolle, precisamos compreender a democracia representativa como a ação política mais exercida ultimamente. Ela é o suporte desta organização política. A representatividade está custosa para nós. Está deturpada, sem motivos claros e pouca expressividade coletiva. O coletivo é o principal, mas está escondido. Nossa Constituição é impressionante, mas não é respeitada integralmente quando devemos implementá-la, por exemplo. A implementação passa por critérios que a população não entende muito bem. Talvez nem mesmo o jurista... fruto dessa mesma população... As políticas públicas são determinadas ainda pelo amargo sabor do populismo... Então, o beneficiamento delas também está comprometido. A quantidade de projetos de leis demonstra confusão e não clareza sobre a realidade social daqueles (as) que pretensiosamente usam um tal título de experiência: “vida pública”. Título para mim inexistente. Não é mais aceitável a representação caduca. Rotação das lideranças já! É preciso repensar a democracia representativa, reorganizá-la, por fim, coletivizá-la. Um dos maiores problemas não está nos projetos de lei, mas naqueles (as) que os pensam.

2. Comente a oposição quantidade x qualidade dos processos legislativos.
Quais critérios precisaríamos aplicar? Perceba que utilizo “precisaríamos” porque é fundamental que a população recrie um sentido político para a representatividade. Mas esta mesma população está apática. Não (re) conhece nem mesmo as necessidades sociais.
A quantidade dos projetos de lei, como afirmei anteriormente, é a demonstração clara de confusão. Disputas e conchavos são comuns! Seriam aonde a coletividade fosse privilegiada? Negociações existem, também, e não é de todo uma característica desaprovada.
A qualidade dos projetos de lei, contudo, nós percebemos diariamente. Os projetos de lei atendem satisfatoriamente às necessidades sociais, como segurança, habitação e alimentação, por exemplo? Enumero estas por acreditar que sejam mais urgentes de projetos de lei eficazes. Não precisamos rediscutir a resposta, nós sabemos a resposta... É imperativo dialogar (para não reproduzir mais violência) sobre a representatividade e a eficiência dos projetos.

3. Há em nosso país, um predomínio do Executivo sobre o Congresso Nacional no que diz respeito a apresentação e aprovação de projetos e fiscalização?
A sugestão dos representantes políticos era fazer com que a população acreditasse em uma “harmonia” entre os Poderes. É fácil encontrar esta palavra norteando a relação entre o Executivo e o Legislativo, nas Leis Orgânicas (diretrizes municipais). Penso que no Congresso Nacional isso não seria diferente, afinal é ele que propõe as diretrizes para os Estados e Municípios. O impressionante é reconhecer que “a moda” não pegou.
O cenário é semelhante a esse: a população apática reclama, o Executivo procura atender, pressiona e gasta muito dinheiro no Congresso Nacional tentando resolver os assuntos que a opinião pública adota e adora criticar (e só), gasta na implementação dos projetos, gasta na fiscalização das políticas públicas... Agora podemos perceber por que é tão alta a taxa de juros?
A população ainda tem auxílios esclarecidos e importantes. Sinalizo apenas dois de muitos outros: os Movimentos Feministas e de Mulheres e os Movimentos GLBTT.

4. Existe, em nosso país um certo desconhecimento, descaso e falta de peso nas leis aprovadas votadas no Congresso Nacional? Este fenômeno, acontece em decorrência da alta produtividade legislativa?
Possivelmente. O mecanismo está falho. Não posso acreditar que os projetos venham para tranqüilizar a população, e sim para resolver as necessidades sociais por uma duração temporal respeitável. É custoso este mecanismo.

5. Sobre a questão da linha de sucessão presidencial, qual é o motivo para que o presidente do Senado seja o terceiro e o presidente da Câmara dos Deputados o segundo?
As representatividades crêem na onipresença política, ou seja, as oligarquias que governaram no passado do país legaram essa tradição de mando-governo para as nossas lideranças políticas. Sempre foi uma relação muito complicada. Veja, nós, momento ou outro, ouvimos um quase provérbio ecoar: “estão fazendo política!”. Vamos avaliar nosso verbete e entenderemos melhor o que nos foi dado de herança política. Sugiro uma questão provocativa: como poderemos ser mando-governados, considerando a sucessão presidencial, pela representatividade política que se manifesta apenas a seu favor, sustentada por muitos pares e absolvida pelos (as) que entendem imunidade parlamentar sinônimo de onipotência?

6. Apesar de pertencerem a um mesmo poder – Legislativo – é possível dizer que o Senado e a Câmara dos Deputados apresentam competências distintas. Em sua opinião, qual é a principal diferença entre as duas casas que as relacione diretamente com os seus representados: os Estados membro, no caso do Senado e o povo no caso da Câmara dos Deputados.
Não nos enganemos! As prioridades políticas no Congresso Nacional são os índices sociais (para as organizações internacionais se sentirem mais animadas para os investimentos privado e público) e a economia. “Time is money!” é comum ouvir pelos lados de lá...

7. Como a questão das imunidades material, formal e foro privilegiado expressam a garantia de uma independência do Poder Legislativo?
Expressam garantias particulares. A população deve julgar as ações das representatividades políticas, sempre. Como aceitar, então, que existam mecanismos de privilégio para elas? Algo não se apresenta muito sincero nesta organização...

8. Ainda sobre as prerrogativas, porque um parlamentar que cometeu crime envolvendo dinheiro público em exercício do mandato, por exemplo, pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal? Quais as implicações desta medida? A impressão é que o parlamentar se beneficia deste privilégio. Isto é verdade?
O bacharelismo nos permite compreender, mesmo após mudanças nominais, mais profundamente este assunto. Como seria possível um escravo questionar um senhor após uma decisão de punição? Em que momento o operário pode propor ao empregador que reveja as orientações administrativas? Que cidadão ou cidadã ousa perguntar a validade de uma decisão judicial?

9. Existe, no Brasil em seu sistema bicameral, alguma supremacia de uma casa em relação a outra?
Acredito ser inaceitável a supremacia. Acontecem sim conflitos discursivos e opiniões contraditórias. Esforços emaranhados e dúbios. Uma imensa confusão de responsabilidades. Atrapalha, certamente, os espectadores (nós). Enfim, tudo está muito próximo lá dentro e o que diferencia mesmo é a burocracia empregada. Ela precisa ser diferente ou aparentemente diferente. Acredito como validade de poderes, apenas.

10. Porque o sistema de eleição de representantes das duas casas são diferentes?
Nicolle, você acreditaria que as representatividades políticas também não entendem muito bem o razão desta medida? A impressão que nos passa é que são ocupadas com muitos assuntos e necessidades. Tudo parece muito rápido, não acha? Por isso precisam ganhar mais fôlego. Respirar fundo, acalmar os ânimos e pensar melhor no que irão exclamar. Planejar o futuro do país. Como é comum ouvir: “nas eleições nada é certo!”. Fica clara a preocupação, inclusive da população que reproduz sem avaliar corretamente: “é ano de eleição!” Apresenta-se um cenário de vale-tudo, afinal é eleição e vão ganhar com isso.

11. Existe hoje, na população brasileira, uma impressão de que o parlamento é nulo dentro do poder político. Porque isso ocorre? Este fato tem relação com a questão governabilidade x representatividade, onde um político, durante a eleição se coloca como pai e representante de um determinado grupo e, terminado o período eleitoral, passa a não governar para o mesmo?
Cresceram as lideranças populistas na América Latina. No Brasil não seria diferente. O Congresso Nacional controla diretamente nosso cotidiano. É o exercício legítimo da representatividade. Na outra margem está a população... apática, justamente porque há anos não se satisfaz com políticas públicas eficientes e pensadas para a coletividade. O particular e o público se entrelaçam e está dificílimo mudar isso. A ação governamental (o que você chama de governabilidade) está destoada das representações executiva, legislativa e judiciária porque não conhece a realidade social profundamente. Baseia-se em “acho que o mais importante é asfalto e médicos e médicas em posto de saúde” e não em uma educação que privilegie o esclarecimento. Não acredito nas ações assistencialistas empregadas pelas Secretarias e Ministérios. O (a) desempregado (a) não tem que trabalhar! É penoso trabalhar. Você já deve ter ouvido que segunda-feira, ou qualquer outro dia útil para o trabalho após um feriado, é absurda. A idéia entristece quem trabalha. Cansa só o pensar em ir para o trabalho, ver os colegas que não suporta mais, participar de comemorações de aniversário etc. O nosso imaginário reproduz isso, e o pior, passamos para nossas crianças. Então, por que é que existe tanto “Vale-Um”, “Bolsa-Tudo” etc.?
As representatividades políticas fizeram, com sucesso, a lição de casa, mas a virtude já vinha de períodos antigos. A lição: não socialização do conhecimento – o que alguns despropositados chamam de “emburrecimento da população”. Não acredito nisso! A ditadura censurou os (as) filósofos (as) e os (as) cientistas sociais. Espero que agora a implementação das disciplinas Sociologia e Filosofia no Ensino Médio permita a médio e longo prazo reverter essa situação.
Resultado: apatia política da maior parte da população brasileira. Uma sugestão? Socialização do conhecimento, ou seja, privilegiá-lo.
Obrigado.

Entrevista a Nicolle Lemos, acadêmica de Jornalismo da Universidade Mackenzie, em 20 de novembro de 2007.

23 abril, 2008

Idéia inicial

Começo a pensar que existem pessoas para maior doação e poucas sentimentalidades...

10 abril, 2008

Liberdade

"A angústia é a possibilidade da liberdade, só essa angústia é, pela fé, absolutamente formadora, na medida em que consome todas as coisas finitas, descobre todas as ilusões. Aquele que é formado pela angústia é formado pela possibilidade e só quem for formado pela possibilidade estará formado de acordo com a sua infinitude. A possibilidade é, por conseguinte, a mais pesada de todas as categorias."

Soren Kierkegaard (1813-1855)

02 abril, 2008

É isto um homem?

Vocês que vivem seguros
em suas cálidas casas,
vocês que, voltando à noite,
encontram comida quente e rostos amigos,
pensem bem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece a paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno.
Pensem que isto aconteceu:
eu lhes mando estas palavras.
Gravem-nas em seus corações,
Estando em casa, andando na rua,
ao deitar, ao levantar;
repitam-nas a seus filhos.
Ou, senão, desmorone-se a sua casa,
a doença os torne inválidos,
os seus filhos virem o rosto para não vê-los.


LEVI, Primo*. É isto um homem? Tradução de Luigi Del Re. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000. p.9.
* Primo Levi (1919-1987), escritor e químico italiano, sobrevivente de Auschwitz.

31 março, 2008

Diário e girassóis azuis

Hoje recebi a visita do Dr. Compixote, da Universidade Universal das Esferas Maiores, do Curso de Ciências Progressivas e Cósmicas, do Departamento do Movimento Dialético e Raciocínio Lógico. Publicou recentemente uma obra em que trata sobre algo... Intitulou-o Estudo Avançado para uma Epistemologia em um Futuro Saudável. Conceituou rede teífica, uma caricatura do exercício da aranha, de Karl Marx, no texto Jornada de Trabalho, em O Capital.

21 março, 2008

Linguagens

"Você roubou meu sossego.
Você roubou minha paz.
Sem você, eu sofro.
Com você, eu sofro mais."

(Uma brincadeirinha do Zé Celso)


"You stole my tranquility.
You stole my peace.
Without you, I suffer.
With you, I agonize."

(Tradução para o inglês de Thiago Nascimento)

13 março, 2008

Nosso jeito

Eu pensei em ligar para ti,
não pude
estava em São Paulo
Se não fosse a saudade
A saudade de encostar minha testa na tua
Eu estaria livre de ti.

Eu pensei em ligar para ti,

não pude
esperava mais uma vez
a confirmação do meu sucesso
longe,
bem longe de ti.

Eu pensei em ligar para ti,

onde a modernização
permitiu encolher escolhas.
Se não fosse a saudade
Aquela mesma da testa e do "pânico".
Aquela mesma que no verão me fez retornar para teus braços,
teus beijos e carícias ingênuas.
Eu estaria fortemente
apaixonado por mim,
Sem outrem, ninguém.
Sem ti.

Eu pensei em ligar para ti,

não para ouvir-te
mas, sentenciar-te.
Pois o bem lançado
a mim é,
sejas tudo, sejas quem tu és.
A saudade... do início...
Ah, a saudade!
Deixei-a em São Paulo.

16 fevereiro, 2008

Lispectoriando

Toda vez que fumo, lembro-me de Lispector
Não de suas causas vividas, pouco de seus amores
Toda vez que fumo, lembro-me de Lispector
Pelos momentos que passou solitária, ausente
Rica, enluarada em várias regiões do mundo
Pobre, desgastada por enxergar paredes, salas e prédios
Maravilhosa, sob a companhia dos livros.

Toda vez que fumo, lembro-me de Lispector
Não de seus amores, talvez um
somente ela
Só e a sós

Toda vez que me encontro, lembro-me de Lispector
Pela semelhança de ser
Não do estado,
Não da criação
Sim da ausência.

13 janeiro, 2008

A violência contra os humanos

Eventos cotidianos acontecem sem a vigília do Estado. Os centros urbanos incharam e as políticas de habitação e transporte não suportam devidamente as necessidades sociais, entendidas como necessidades de mercado para muitos analistas. Outras formas, como os resultados do não reconhecimento cívico, pelo Poder Público, exibe uma democracia frágil, uma economia de mercado e de capital atrasada e uma política representativa desgastada pelos ofícios oligárquicos.
Antes pensado como território de exploração, hoje o Brasil ainda preserva a "herança rural" apresentada à história política por Sérgio Buarque de Holanda e "economia atrasada" por Caio Prado Junior.
A distância de renda entre as populações ricas, médias e pobres oferecem um campo farto de ações violentas e desumanas (atrasos de benefícios, suspensão de direitos e garantias trabalhistas, filas, conflito armado no interior do país sem o acompanhamento do Poder Judiciário, assaltos a instituições de crédito popular - mercearias, bares e lanchonetes - morosidade burocrática etc).
Hoje, nem os super-heróis poderão civilizar o país, justamente porque esta idéia não se fortaleceu além do Atlântico Norte.

09 janeiro, 2008

Pares e par: a reconstrução do amor romântico

Para o humano que seja vivo como o Verde-Vida.

Que me ame como ama a "curva livre e sensual" das formas e o estético aplicado à vida e a mim. Não desejo que me ame pelo que fui e poderei ser, mas pelo que tento ser a cada momento. Par, casal, namoro... tanto faz... prefiro o pronome nós.
Talvez o par, o casal, o namoro perfeito não exista concretamente, mas é válido, perpetuamente, a reconstrução das possibilidades e das verdades vividas.

21 dezembro, 2007

Não Vale a Pena

Autores:Jean Garfunkel e Paulo Garfunkel
Intérprete: Maria Rita


Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar
Que é uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequeno
Mas vai e vem e envenena
E me condena ao rancor
De repente cai o nível
E eu me sinto uma imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido
Dos amantes mal-amados
Dos amores mal-vividos
E o terror de ser deixada
Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida
E é pra não ter recaída
Que não me deixo esquecer

Que é uma pena...

29 novembro, 2007

Entoar

O respeito às pessoas mais experientes demonstra o quanto a sociedade compreende sobre sua história.
O dizer "viver é melhor que sonhar", interpretado por Elis Regina, com a música "Como Nossos Pais", revela o desejo humano pela manifestação de sua natureza política: nós humanos precisamos viver, e mais, viver por um longo período.
Valerá questionar: por que a experiência de vida dos/as idosos/as não é facilmente impressa, escrita, e falada? Por que, em sua maioria, encontramos mais jovens no mass media e poucas experiências amadurecidas?
Repensar o passado, ou apenas notá-lo, não é um exercício apenas daqueles/as que se debruçaram a vencer o terror (ainda para os jovens) da finitude vital, mas daquele/a que vive coletivamente e não apenas sonha.
Se o/a jovem perceber que poderá não alcançar a terceira idade, será possível reconciliar o diálogo com as diversas experiências, o bem-estar com a saúde e o viver com o sonhar.

20 setembro, 2007

Abrigo


Poderíamos viver sem abrigo?

Talvez eu pudesse respirar profundamente o ar fresco de uma manhã manhosa pelo sol. Prometer carícias às crianças desamparadas. Reanimá-las com um mínimo afeto.

Sobreviver à ligeireza de uma atividade habitual. Romper o ignorar verdades. Suplantar os pré-conceitos. Reanimar a ternura. Permitir o entendimento. Promover um diálogo harmonioso. Responder ao exercício da responsabilidade e da clareza. Verificar a humanidade. Planejar o verbo... E por que esquecer de relembrar as felicidades?

Contar momentos para as crianças que só vivem o fantástico quando estão dormindo... Desse modo, elas passariam a respeitar a humanidade. Verdade ou mentira. Amor ou ódio. Tanto faz! Depois do meio-dia todo ar é quente em meu abrigo.

17 agosto, 2007

Feminino


Não pude esperar, e logo que acordei, sentei-me rente a cama macia... Esqueci de agradecer-te.
Eles querem, ainda, corrompê-la. Novamente...
O que seria da saúde que me comporta sem tua força viril?
Como sustento pensamentos lúcidos, lembrando-me justamente de teu afeto feminino?
Ouço constantemente os queixumes das crianças. Desorientadas e famintas...
Sem tua essência não seriam porções humanas, mas corpos tomados por apoucada humanidade.
Ausente o afeto viril feminino que sai de teu toque elas morreriam... não o corpo, mas o espírito.
Nem mesmo o mais desonesto homem seria capaz de suportar por séculos a mentira de que a ti foi dita: de que foste a parte que nos trouxe os males.

Pandora, de Odilon Redon. 1915.