06 julho, 2016

Impossível

Olhe ali, novamente o danado se fez. Basta um sinal da paixão para o desgraçado aparecer com o cinismo típico enfiado na face!
Com as coisas do coração não se deve cutucar com vara curta. Onça é bicho mais dócil que o coração humano. O coração humano. Ele tem forma de lábios expressivos e hálito virgem. O coração humano tem pernas resistentes e mordeduras adequadas.
O coração humano tem cabelo sem volume definido. Voz menos rígida que o tempo e o vento do inverno. As mãos doadoras de afeto gratuito. Simpatia no olhar e entrega sem receios. Afinal, de nada valeria a dignidade humana sem o disfarce da plenitude do coração. Por mais que flameje o seu ritmo, não é da mente o domínio do êxtase.

17 maio, 2016

Feliz aniversário

Esteve muito próximo ao fogão, enquanto sua avó preparava a sopa. Como sempre, já faziam ventos temperados em sua porta e por isso precisariam se aquecer. Tecia aos poucos, justamente porque ainda era muito infantil, cada vez mais admiração por ela, e por isso acreditou ser amor, por aquela senhora com lenço branco envolto na cabeça e que usava cotidianamente um vestido florido.
As mãos se tocavam e ele sabia, desde tenra vida, que ela era sim o calor de que ele mais precisava naquele dia, pelos dois considerado especial. Era uma comemoração, orgulhavam-se. Ela jamais se esqueceria, enquanto viva e ele afetuosamente esperaria o momento.
Ela estendeu a toalha de mesa e pediu que ele se acomodasse muito perto, para que a sopa não lhe ferisse. Apoiou-o, sem queixumes. Dispôs o prato e um copo vazios, ainda. Ele sorriu como sempre o fizera por sentir a proteção irradiada de sua avó. O aroma dos vegetais animava ainda mais os dois. Os pães já estavam dispostos para que seus braços curtos pudessem alcança-los. Ela estendeu outro copo para que ele bebesse água, imediatamente. Ele se regozijou. Como que em postura para prece, agradeceu à divindade sem que a avó o solicitasse, mesmo acompanhando. Ela serviu uma concha, ele logo apalpou o pão mais branquinho. Ela ajeitou o prato mais próximo à boca, ele assoprou, de modo quase adulto, o caldo já na colher. Ela sorriu como se quisesse nutri-lo com mais amor, além da sopa, ele ao máximo cuidado agradecia com apenas um olhar. Ela não se sentou. Ocupando ainda o estado de vigília, aguardou cuidadosamente o fim da refeição e ele consentiu em ajuda-la. Eram cúmplices. Ela encerrou a lavagem da louça, ele firme rente à pia. Ela retirou o lenço da cabeça enquanto ele voltava do banheiro com os dentes escovados. Ela se trocava enquanto ele retirava o cobertor e se dispunha para baixo do manto. Ela o beijou a testa e declarou: “Feliz aniversário, meu filho.” Ele torcendo a ponta do nariz e em comemoração pela lembrança, respondeu: “Obrigado vovó!” “Durma bem, meu querido!”, ela encerrou.

Durante toda essa passagem, nenhum som foi desconhecido. Nenhum olhar embaraçado. Pouco contraste por causa da iluminação modesta. Jamais ruídos de desatenção. Nada fosco o inacabado. Tudo amorosamente redondo.

Quando crianças, somos dispostos a viver como crianças sempre em aprendizado e nunca como crianças que já aprenderam e vivenciam ao menor afeto singelo. Esquecem-se de nutrir, nas crianças, o saber sobre a saudade de quem nos ofereceu os primeiros sinais de amor. Hoje, já homem, ele só desejaria aquele abraço, aquelas mãos e o olhar que, silenciosamente, acalmariam qualquer corpo da dor.

16 maio, 2016

Desconforto

Passamos a maior parte dos vinte anos reclamando. Como ainda não fiz quarenta, penso que os trinta não serão muito diferentes.
Há poucos anos, declarei em boa voz que não gostava de dormir. Para a maior parte das pessoas, não considerando aquelas que nem sequer ousaram levantar as pálpebras para me censurar, eu estava em devaneio, dizendo: “Ah, mas é você mesmo.” Ou: “Mas você também...” Ou, por fim: “Só você mesmo.”
Independente das formulações, a mensagem sempre é a mesma e absolutamente previsível: você não é normal, e se for, está delirando.

Quem se desconforta é o outro que está habituado a pensar que viverá para sempre. Quem se desconfortou, outrora, é porque percebeu que o finito é imprevisível e, somente, ele o é. Quem se desconfortará, poderá não ter mais instante intrigante para viver as circunstâncias. O que eu tenho a ver com o desconforto dessas pessoas? Tudo, eu sou tudo a ver.

25 abril, 2016

O senhor não pode

Nem sempre pensou no que se poderia entender por música. Seus ouvidos eram órfãos de composições. Comandos sonoros não o empolgavam, embalavam ou qualquer envolvimento sensorial. Hoje, disposto a classificar o comportamento de outrem, se esquece da sensatez e aplica, indevidamente, juízos pouco nobres sobre a atenção que recebe. Pobre senhor de uma consciência de si aparentemente inabalável. Perturbável príncipe de um reino sem súditos.

26 fevereiro, 2016

Pare

Risos. É somente isso que nos causamos. Nada de implicâncias, mas as mais dóceis provocações. Risos e mais risos. Pareciam infinitos ao seu lado. Eu deitado em seu colo e quando ausente sua atenção: mordendo suas bochechas. Risos quase intermináveis. Risos com sabor de melancia para mim. Risos e hiperisos. Mais e mais risos. Anteontem lembrei-me de como suas mãos insistiam em me fazer cócegas... Panaca! Risos. Sofro de outro mal: o de provocar risos. É quase improvável que vá me torturar a fim de ter o mesmo que eu faço com seu corpo sobre o meu. Risos e outros mais risos. Leves toques e quentes intenções entre nossos corpos. Ora eu por cima de seu corpo, ora você reclamando da nossa brincadeira. Pulo sobre seu corpo já deitado na cama. Risos e quase gargalhadas. Lá está esperando o morno e eu sempre oferecendo o fervente. Pulo em cima de você e temos o que? Claro, insuperáveis risos. Você tenta se esquivar, mas sabemos que está adorando. É como um pueril ser que se enxerga novamente na infância. A minha alegria nunca foi pertencer a você, mesmo de alma. Minha alegria era ter seu rosto risonho gravado em minha mente. Ah! Risos ingênuos. Que frescor era encontrar-me convosco em sonho ouvindo um elogio, recebendo suas mãos em minhas pernas e seus lábios em minha carne. Suor e risos. Nada mais era importante. Nem o ar que você me fazia, desesperadamente, esquecer. Quantas vezes me sufocou de alegria? Para mim, sim, a alegria é o maior sufocamente de risos até doer e doer mais a barriga. Dor. Dores. Lá estávamos em nossa cumplicidade de risos. E depois para parar o encontro de risos: bocas tocantes e mornas com línguas entrelaçadas. Lá estive em plena alegria e como tudo que é mais puro e incrível para mim, acabou. Risos desenxabidos. Resta-me, hoje, uma leve lembrança de seu rosto. Onde estariam meus risos sabor pão-de-mel agora? Por Deus...

25 fevereiro, 2016

O sonho

Acordei um pouco entristecido. Na verdade, incrivelmente entristecido. Cogitei em não laborar. Mal vi a claridade da manhã. Silêncio lá fora. E ali, ainda deitado, permanecia com muita vontade. Contarei o motivo pelo meu desânimo.

Estávamos numa festa e seus olhares pareciam ser só meus. Seu corpo já está ocupado com outro corpo, eu sei, mas não cometeremos traição. Seus olhares com os meus sempre foram cúmplices, lembra? Entretanto, o receio me impedia uma aproximação. Os festeiros, empolgados, subtraiam-se de nossas vistas. Éramos apenas eu e você e seu outro corpo, enciumado, porém. O que eu mais desejava era um cumprimento como bons parceiros, pois sei que não há amizade entre amantes doadores. Mas você nunca provocou isso, não é!?
Em outra cena diferente, para minha total surpresa, conversávamos dentro de um ônibus que iria para um destino desconhecido. Eu ali, extasiado e completamente perplexo, conversava como se nosso ontem fosse uma rotina e aquele hoje consagrasse o meu desejo com a sua permissão. Foi tudo muito rápido e intenso – ao menos para mim. Você ria. Sua boca parecia querer se depositar sobre meus lábios, já mornos. Seus olhos quando não fitavam os meus estavam em minha boca. Elogiou meu sorriso e o perfume de minha roupa. Em instantes, movimentou o corpo como se fosse sair. E, subitamente, beijou minha bochecha esquerda. Tentei resmungar algo, mas nenhuma conjugação saiu. Sentia que sua parada já estava próxima e quando me confirmou que desceria eu questionei: “Para onde vai?”, acompanhado com o pensamento da maior esperança do cosmo de que me entoaria um convite para lhe acompanhar. E ainda com o sorriso nos lábios respondeu: “Para casa.” Pensei em me despedir, mas já havia descido. Não se despediu como a etiqueta pede, não era seu forte ser gentil comigo. Creio que foi em minha impressão a real certeza de que gostou de estar, mesmo rapidamente, ao meu lado. Impressão... Seu beijo, macio como sempre, foi o elemento principal que não me fez querer despertar. Talvez uma terceira cena onírica juntos? E quem sabe conquistaria a mim mesmo para tentar um roubo: seu beijo em meus lábios saudosos.

Abri os olhos com a maior dificuldade. Levantei-me e após um banho sai. Entrei no carro, liguei o rádio e a música daquela sua cantora predileta tocava. Depois de ficar verdadeiramente desperto tive consciência de que você não vela mais por mim. Laborei, mesmo desenxabido. Ao retornar à casa, sentei-me no sofá-divã. Olhei o teto e repousei o olhar na poltrona que você se sentou, umas duas vezes, com meu pijama de inverno. Inspirei o ar pesado na sala quase rubra.  Preparei o almoço. Sentei-me só. A mesa cheia de temperos e condimentos. A leve brisa que corria pela porta aberta. O cheiro do alimento não me motivava a dar a primeira garfada. E notei que algo ficou claro em minha mente: lá estava você. Ao som de Onde estará o meu amor?, interpretado por Maria Bethânia, contive-me. 

17 fevereiro, 2016

Bata

Bata como se sua força não fosse finita
Estrangule a mais degradante parte minha
A mesma que dilacera por séculos a humanidade: orgulho

Bata, bata sem comiseração
Pois o canto que me ofereceu não é mais sutil que seu braço distante dos meus ombros
Menos doloroso que sua mão em minha orelha
Mais árduo que o osso que se quebra na mandíbula

Bata
Bata quantas vezes quiser
Bata com esse sorriso que esfrega em minha memória
Essas mãos sólidas e sem calos que penetra em minha carne maxilar
Ainda quero que bata na minha boca
Mas, por favor, não se esqueça de todo o resto, já inválido

Bata
Bata com tanta vontade que me faça chorar
Chorar por ter sido pouco ou mesmo desimportante
Fui ser o mais desagradável possível em sua vida

Bata
Bata com a indiferença
A mais ardida das dores que você poderá me tocar
Não me olhe nos olhos quando desferir o golpe
Não ouça meus reclames
Ignore o pedido de perdão
A clemência não deverá atingir seus ouvidos
Quanto mais seu coração
Não traga mais, compartilhando, o mesmo cigarro
Bata
Bata como se eu fosse o mesmo que o seu traidor preferido
Aquele que o feriu sem pudor, repetidamente
O mesmo desumano cínico que permitiu
Que o seu corpo repousasse em outra cama, ferido

Bata
Mas por favor bata para haver morte, de vez
Pois não há no mundo todo um só alento
Que me faça esquecer definitivamente
O brilho nos meus olhos que só você permitiu criar
ao se aproximar

Eu repetirei o clamor até você se impor
Bata!
Bata!
Bata para que meu coração deixe de estar partido
Que átrios aguentariam tão forte pulso de sangue de uma única vez?

Por favor!
Somente bata
Bata de uma vez, desgraça!
Bata por todas às vezes que sentou em meu sofá a minha espera
Enquanto em banho me dedicava a outro riso
A outra espera
Bata por saber que eu fiz o mais rápido tempo em trajeto apenas para não o deixar sozinho por mais instantes ociosos
Bata porque eu amei

Pelos deuses, estúpido! Bata!
Como eu queria estar lançado à sorte, novamente
Ao menos teria ar em meus pulmões
Ares que não usei enquanto você não queria mais um trago

Bata!
Por Deus me bata, vil!
Bata com a mesma força de quando foi surrupiado
Para que não carregue mais, por fim, essa mágoa
Já não estamos mais nos mesmos lugares
para sempre?

Bata!
Mas bata dentro de mim!
Não bata no mundo
Nunca no mundo
Porque ele revidará
Em sua simetria não poderá haver marcas
Já há aqui um peito cicatrizado sem vontades de continuar

Ó, por tudo que é mais nobre nesse universo consumista!
Por todas as partículas que nos compõe
e virtuosas ações de nossas mães
Bata!

Bata!
Apenas bata, sem cansaço
Procure bater com o ritmo do relógio
para não descompassar
Bata!

Quero estar em leito de morte e sentindo a dor que é o toque de seu desafeto
Que horror eu causei para receber em vida tamanha provação?

Bata, por Deus, apenas para me livrar desse fragmentado que arranha minha mente
Bata em minha cabeça para que ela se dilacere!
Não admito mais ser esse monstro ao ver sua imagem em retrato e não me constranger

Bata
Bata com o tamanho da minha saudade
Cânion entre peles alvas
Rostos decentes e pueris
E bocas marcadas por falsas sabedorias

Eu quero a morte!
Sem poder ouvir a sua voz
Talvez a ínfima das partes que me resta
Já não existe mais com alegria
Que todos saibam
Que morri infeliz
Descontente
Desgraçado

Bata, ser vil!
Ao menos bata
para não ser mais um "saco de batatas"
Para o meu propósito final
Pois já não nos temos mais na segunda pessoa do singular.

08 janeiro, 2016

O Don Juan

Você bem que viveu intensamente ao meu lado por alguns anos. Pensei várias vezes que o meu gostar não seria finito. Bobagens que se fixam na mente de pessoas de minha idade. Sua pele branca, voz altiva e detalhes que apenas o bom observador, como eu, poderiam notar, sacudiram meu coração. Eu, mesmo seguro despreocupei-me quando estava em sua presença. Foram horas um ao lado do outro. Como irmãos de sangue, grau que sempre reivindiquei, pensava a cada momento que meu gostar fosse cristalizar e engrandecer. Também pudera, nós humanos somos sempre trapaceados por nossas ideologias e sentimentos infantis. Os meus sempre foram muito claros para você e agora caros a mim. Verdadeiramente, não escondi qualquer nuance sobre minhas vergonhas. Mal eu pude reparar que elas apenas o feriam. Eu declarei aos cantos dessa cidade mesquinha que o seu nome era mais que um gostar, era amor. Havia em nós dedicação, companheirismo e uma sutil alegria. Qualquer casal amoroso nos invejaria. Qualquer casal fraternal reclamaria. Os meus sonhos, os maiores, foram todos compartilhados com você. As minhas falhas e queixumes. Doei-me. E agora? Não tenho mais a sua companhia. Não sei se tenho mais o mesmo amor. Tenho a mim mesmo, como sempre tive. Dores divididas são sempre eternas. Isso você descobrirá. A qualquer momento podemos nos tropeçar. Devo cair ou negar nosso passado? Se eu não mais o vir, caberá a mim o título de Pedro, aquele chamado também de “o traidor”? O tempo faz graças e malefícios. Como não o controlamos, apenas vivemos suas decisões, eu cá, mesmo adoecido, e você, ai, sabe-se como, seremos atingidos pela aguda e avassaladora flecha do desconhecido, antes da morte. A cada momento sinto esvair de minha mente o seu sorriso deslumbrante. E a certeza de que eu não me aproximei da cela que havia preparado para mim. Mãos em meus ombros? Jamais ousou se aproximar de um corpo com tamanha felicitação. Cabeça em meu colo para um cafuné inesperado? Ainda bem que eu soube teatralizar. No fundo eu já sabia de tudo. Confesso: era uma nova relação, porém. Talvez não para você. Há anos venho refletindo sobre minhas limitações e me esquecendo das astutas habilidades. Resisti e não cedi aos possíveis encantos oriundos de sua natureza direcionados a mim. Talvez estivesse ai a sentença de nossa finitude. Claro, eu mesmo me esquecendo de verificar minhas lembranças, dei atenção àquela “voz” intuitiva que sempre me salvou. Parece que devo a mim mesmo o fabuloso modo de me distanciar dos humanos, pois deles só encontrei o dissabor ou estou eu tomado pelo desterro arfante da desesperança. Tenho em meu mural de fotos sua imagem e a cada dia, desde nosso distanciamento, relembro cada “eu te amo” que proferiu a mim, para que jamais eu volte a acolher novamente alguém em zelo. Ao som De tanto amor, de Roberto Carlos, encerro.

06 dezembro, 2015

Marília Pera

Eita, que meu coração se acabe em revolta e depressa se refestele com as finalidades da natureza física. Eita, que o corpo não resistindo ao transbordar da vivacidade humana se exploda em pedaços aquietados pela própria energia. Vai-se morrendo devagarinho, sem pressa. Quando não estamos do outro lado de nós mesmos e morremos é como se nossa existência estivesse derrotada, falida. Quando pensamos que somos nós os barões de um interior é ali, no ressentimento de que não somos heróis de nós mesmos, que o fim se inicia. Do nosso outro lado de cá, ficam as cicatrizes, as mágoas, as conquistas, os flashes de lembranças que só são revividos graças à eficiência de uma parte da natureza física.
Seja noite ou tarde, não importa o horário exato, desde que não seja pela manhã, o ócio se aproveita e vai roendo a carne. A pessoa quanto mais experiente é mais o corpo vai resistindo ao crescimento de nossos lados internos. É forte demais a humanidade de alguém que se entrega em arte. É demasiadamente incrível como uma só mergulhada no lago do teatro e do canto nos faz condenados a uma vida imensamente bela.
É na manhã que partimos para o sagrado, o pueril, o eterno silêncio e também árduo embruscamento. É pela manhã que todo início parece não ter término, que toda imensidão pode ser revelada e que todo ar nos revigora.
Há mais certezas na manhã que a tarde, mesmo preguiçosa, e a noite, a mais lasciva das forças, podem alcançar.

21 outubro, 2015

Quando eu morrer

Quando eu morrer qual será o último filme assistido por mim?
O desgosto não arrependido que me amargará a garganta?
O sonho não realizado confortavelmente?
A música ouvida e gravada no histórico?
A página do livro lido incompletamente?
A deliciosa refeição sem sobras e o sabor do suco que degustarei?

Quando eu morrer
Qual será o gesto incompreendido que afetei outrem sem intenções grosseiras? E as provocações?
As palavras mais doces que proferirei?
O encanto escondido e não declarado a um confidente?
A mensagem sem resposta no aplicativo do celular?
O lençol ainda desarrumado na cama que descasei sozinho?
A cor do sabonete ainda no chão no banheiro?
O meu perfume preferido não esborrifado?
A minha paquera conquistada e ainda em flertes comigo? Os minutos de espera até saber que nunca mais irei escrever a ela.
A contagem correta e precisa dos anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos vividos e compartilhados?

No exato momento de minha morte
Qual será o nome da pessoa que ouvirá o último bater de meu coração?
O primeiro de meus amados parentes e sua reação?
Os últimos lábios encontrados inebriadamente junto aos meus?
A minha sagaz cantada dada ao meu amor?
A derradeira curtida em uma foto?
O primeiro comentário virtual de pêsames?

A minha mais bela imagem que lembrarei de você?

17 setembro, 2015

O que eu vi em você

Percebi a primeira olhada que sua boca merecia um beijo. Um beijo que seria demorado, um pouco sem fôlego. É como eu tenho beijado ultimamente: sem fôlego. Enxerguei atentamente que seus lábios, porém, não estão preparados nem para um beijo, quanto mais para um beijo sem fôlego.
Olhei mais agudamente e ainda não tive aquele frio quando pensei em doar um beijo a alguém. Um boca que parece doar um beijo seco, assim você se mostrou.
Imagine! Um beijo árido em contato com outro sem fôlego. O que eu vi em você foi apenas a promessa de que um dia, novamente, encontraremos nossos lábios doados a seus reais benfeitores.

31 agosto, 2015

Daquele seu jeitinho

Era domingo. Mais um domingo qualquer e eu percebi o quanto você me faz falta. Nada contra o meu presente, mas você me faz muita falta. Na verdade, muita coisa me faz falta hoje. Na mais pura verdade, falta a todos nós tanta coisa que prefiro cometer erros pela própria falta de palavras que pelo excesso.
Sem desmerecer o meu presente, mas o seu toque me faz muita falta. Era ele que me deixava nas alturas do conforto emocional. Adorava a sensação de balançar meu cabelos por entre seus dedos. Sem pestanejar, lá eu estava no nosso mundo de ingênuas decisões, com os corações quietinhos e as mãos mornas do afago. Você me ouvia falar atentamente. Quase não me interrompia. Era eu o seu rei e você era todo o meu império. 
Por mais que eu não queira desdenhar o meu presente, o seu cheiro me faz imensa falta. Ele emanava um aroma de serenidade para as confusões mentais tão indignas que me submetiam as alheias almas que eu insistia em chamar de companheiras.
Jamais negaria o meu presente, mas a nossa história construída junta me faz insuportável falta. Eram os meus planos de vida que eu falava e você, como a alma mais atenta que já encontrei, acalentava minha angústia e dúvidas sobre o futuro com apenas uma entrega de olhar.
Você me faz falta porque temos um passado que eu tentei manter, no presente, mais duradouro possível. Você me faz ainda muita falta porque não é apenas mais uma memória que tento cobrar a mais pura nitidez do passado. É sim o passado que sempre nos procura e bate em nossa porta. Ah sim! Ele sempre baterá à porta, ali no futuro.

20 agosto, 2015

Fosso

Por maior que seja a falta
Nós nunca seríamos
Fomos
Aprendi que o ímpar é mais seguro que as derivações geométricas
Quem morno fica por muitos anos no espaço?
Qual gosto tem a boca que por vezes já foi mastigada?
Que aroma de pele não se torna gravado em mente insensata?
Qual rotina não os levará à própria sorte?

Por maior que seja a minha infelicidade
Nós nunca fomos pares
Fosso
Ensinei a mim mesmo que a insegurança é mais atenta que a liberdade
Por conta minha e por minha desaventura
Quem ousa dirigir novamente a palavra para o outro, tão distante já?
Que tipo de desassossego perene eleva a rispidez de toques frívolos e medianos?
Em qual ângulo o perfil de um se torna menos simétrico e indisposto ao outro?

Por maior que esteja minha sagaz procura por outro colo
soube que nós nunca teríamos nos dado dedicadamente por muitos meses o mesmo prazer
Somos
Desaprendi a arte da argumentação, pois era por ela que me embrenhava em matas desinteressantes
Quem diria que eu esqueceria a temperatura que emanava de suas mãos acariciando meus cabelos, hoje compridos?
Que maternidade desdenharia nossa concepção, a qual somente uma mãe notou minha tamanha devoção ao seu corpo e mente?

Por menor que esteja meu instinto
Por menos ar que a minha vontade de prazer epicurista inale
Já nos condenaram os estóicos
Somos da matéria e não vamos nos felicitar nunca mais

03 agosto, 2015

21.07.15

Eu não devo deixar nunca de agradecer ao tempo. Eu não devo esquecer nunca o que o tempo é capaz de construir. Já nos bastamos de limites, ainda mais os impostos pelo senhor de todos. Mas precisamos nos fartar de tudo aquilo que ele nos oferece, como se estívessemos em um banquete por toda a vida. Ele oferece um sorriso como aquele que você possui. Quanta fartura! A simpatia e alegria de conversar como aquelas encontradas em você a cada caminhada no parque. E, claro, a mais bela e frutuosa alma como aquela que habita dentro de você. De todos os desejos realizáveis, eu espero que o tempo faça o mais justo dos exercícios: o mantenha duradouramente vivo. Vida longa meu pequeno príncipe.

30 julho, 2015

O que é, é.

É, hoje a noite é para se amar. Amar de todo jeito. Várias intensidades. É, hoje a noite é para nos termos em abraços e beijos incansáveis. Demonstrarmos um ao outro quem é que manda em nossos corações: nenhum de nós, individualmente. Pensar como um nó e não dois alinhados.
É, hoje a noite é para recordar o breve histórico de nosso convívio que não inspirou mais planos futuros. Seria hoje que consagraríamos, junto à luz da lua que lá fora brilha, todo o ardor de cada lado esquerdo de nosso peito, entre mordidas no pescoço, declarações perfumadas de interesse e chamego enlouquecedor dado na nuca, puxando os fios do cabelo.
É, hoje a noite promete ficar mais incandescente que os dias mais ensolarados do verão. Hoje, eu sei, que está disposto a enterrar, definitivamente, o mais puro toque que já ofertou a alguém, em troca de uma segurança que você não tem e jamais construirá. É, hoje a noite vai ambientar palavras doadas pela sua boca, tão singelas, mas efêmeras. Hoje, a noite testemunhará o início de seu infortúnio. É o que desejo, profundamente.

20 julho, 2015

Resposta ao ódio

Fazia um bom período de tempo que não conversava mais sobre os desafios atuais do mundo. Perdeu o fino trato, isso já era mais que notável. Perdeu-se também em pensamentos quando em rodas de conversas inúteis. Quem era naquele momento em que a leitura já não o poderia salvar mais? Quem deixou de ser, intolerantemente? Alguém demasiadamente interessante para os amores contemporâneos. Ficou calado muitas vezes. Ouviu desaforos, grandiosamente insensíveis. Reclamou certa vez, como se desejasse dar um basta às incompreensões: “você consegue ser profundamente violento comigo.” É ódio que por mim sente, hoje. Então é amor, desde o passado, que irá receber de mim.

01 junho, 2015

É

Não é a falta de seu corpo que lamento.
Reivindicaria a quem?
É dos sorrisos, comuns a nós, que foram extraviados em noites quaisquer.

Não é a falta do som de suas palavras que suplico.
Ouviriam murmúrios meus? Quem?
É da conexão inegável existente entre nossos olhares.

Não é a falta dos seus comentários sobre o perfume de minha roupa.
Todas as águas do mundo poderiam lavá-la?
É do cuidado que tem quando repara em mim.

Não é a falta de um suporte que seu braço trazia a minha mão e seu ombro a minha testa.
Qual cama lhe aqueceria melhor após diversão noturna?
É do afeto que nós teimamos em negar um ao outro em silêncio.

Não é a falta de seus queixumes sobre mim e sua vida modesta.
Qual comprimido mágico recuperaria tal braveza?
É do que dividíamos para acalentar nossas almas.

Não é a falta de seus lábios permitindo que eu os mordesse.
Houve saída para o meu humor?
É do sarcasmo que nos envolvia inebriadamente durante a madrugada.

Nunca senti a falta de nossos encontros semanais, propositais.
Que deus retrocederia o grande relógio universal?
É da memória que se apagará com o futuro, por fim.

20 maio, 2015

Feliz aniversário

Ah! Pelo assopro de uma vontade existirão reconhecimentos. Expressou-se, era a única maneira de salvaguardar sua própria vida.

“Não tenho poesia para explicar poucas maravilhas em minha vida. São ímpares. Uma das mais intensas naturezas és tu. Aquele que se faz humano a cada dia. Não possuo expressão para vivenciar cada instante ao teu lado. Tu és meu, já. Tu és a mais singular alegria que uma certa divindade, ou até mesmo o destino, me ofereceu. Em todos os momentos que olho para ti enxergo a paz. Paz que em muitos dias me falta e assim me sufoco. Ao teu lado me torno gente, gente de verdade e, por essa razão, continuo a viver. Se os deuses existem, devem ter me condenado a poucos sorrisos intensos e um deles és tu. Amo-te. Amo-te como minha própria carne. Desejo que os deuses me levem se eu não mais for para ti necessário. Amo. Amo demasiadamente. Obrigado.”


E completou-se um ciclo e o início de outro, a quem pertença, logo, logo se manifestará.

13 abril, 2015

Um dia em uma loja de departamentos

Hoje, de modo quase impressionante, tive um diálogo rápido, porém frutuoso com o caixa da loja de departamentos.

Ouvi do moço: "Boa noite senhor, tudo bem"? Respondi com leve sarcasmo: "Bem para quem pode." E ele: "Verdade, né?". Continuou: "Eu não sei onde eu vi, não lembro, mas era algo coisa que falava que se o brasileiro fala que está bem ele na verdade não está!" Eu considerei: "Verdade!". Ele executando a função e colocando meus futuros bens nas sacolas: "São 26,70!" Eu interpelei com ar irônico: "Tudo isso!?" "Débito!" Ele, começando a rir: "Pode inserir o cartão!". Depois continuou, digitando repetidamente as mesmas teclas: "Esse computador é lento demais!" E eu, interessando-me pelo desfecho e já ter digitado a senha e retirando o cartão da máquina: "Obrigado!" Ele, rindo: "Não quer levar essa torradeira? Eu tenho lá em casa!" Antes mesmo que eu reprimisse a tentativa, e ele ainda rindo: "Tô brincando, tenho não!" Eu, por fim: "Valeu!" E ele gentilmente: "Obrigado senhor e boa noite! Próximo!"

Tudo muda

Eu não sou um mestre, mas sei que tudo muda. Às vezes quero acreditar ao contrário, mas além do fim tenho a certeza de que tudo nessa existência se altera, querendo ou não. As premissas estão em todos os mais desprezíveis sinais, os aparentemente insignificantes: no abraço dado, no aperto de mãos envergonhadas, no fitar dos olhos e no não esquecimento do colo seguro.