22 junho, 2010

Em arte contemporânea

O que você sempre quis ser
Davi
uma obra de arte eternizada em nossa mente


O que você sempre quis ser
Davi
uma obra escultural presa no imaginário do amado


O que você sempre quis possuir
em retrato emoldurado, estático
presente em nossa vida


O que você sempre quis ter
minha devoção ao olhar sua forma, dita perfeita


O que você sempre quis ser
o não erro das mãos dos deuses


O que sempre foi
a ausência do ser por estar fora de si
porém, perpétuo em mim


O que você sempre será
a destruição dada pela partida
por não estar mais vivo em nossa vida


O que nós sempre seremos
um quadro incompleto do artista morto


Davi, Davi
Eternamente só, perfeitamente mal feito.

30 maio, 2010

Rogo


Para aquele que deseja um reinado

Por um pequeno descaso, ele desejou. Desejo que brotara de uma simples oração: “Por favor, informe-me o nome de um livro deste autor que estamos analisando, quero ler mais sobre ele.”
Oração feliz. Graça. Profissão de saber. Verdadeiro propósito humano. E agora, estou cá! Verdadeiramente encantado e atado, definitivamente, por aquele olhar.
Vou explicar o que ele quis dizer quando afirmou: “Você não precisa viver uma punição.” Significa: vá e seja dele. É nele que há liberdade, após conhecimento pessoal, e se faz germinar e por todo o sempre ser alimentada. É com a liberdade que podemos recriar a humanidade mesmo sem força e apatia. Foi com ela que os instrumentos usados pelos populares resistiram as mais equipadas forças armadas. É por ela que até hoje milhares de pessoas morrem. “Antes de nos tornarmos mártires”, ele reclamou pela última vez, “tome o meu afeto e se torne livre.”

Daquele que um dia desejou ser seu rei.

07 maio, 2010

Releitura

Após uma releitura do passado. As verdades e mais incertezas se fazem notadas. Que se aprenda com as dores! Que se aprenda com a solidão.
André Martins



O Amor: promessa e Dúvida
Marcia Tiburi

Amor é uma palavra que precisamos hoje usar com cuidado. Para os poetas é uma palavra bonita, para os conquistadores sexuais ou religiosos, é estratégica. De outro lado, é sincera tanto quanto é confusa, para muitos amantes que, adolescentes ou maduros, se perdem em suas promessas. Não há amor sem promessa de felicidade, já dizia Sthendal, escritor do século XIX. Amantes são aqueles que vivem em nome do amor, que o praticam à procura de um ideal de felicidade que só o amor parece realizar. Quem acredita nisto pode bem ser chamado de romântico.

Para os descrentes, porém, os que desistiram de amar, amor não passa de uma palavra em desuso. Algo nela pode soar a pieguice ou sentimentalismo. Melhor deixá-la de lado, pensa o decepcionado. Mera máscara sem rosto, rememoração do ressentimento de não se ter mais a realização da promessa na qual acreditara, o amor, para muitos, está fora da ordem. E, por isso, fora de moda e mesmo algo banal.

AMAR O AMOR, DUVIDAR DO AMOR


Além daquele que olha o amor com a dor que lhe restou há alguém que ainda crê no amor, ainda que seja seu crítico. Talvez o amor não tenha sido a parte feliz de sua sina e é melhor analisá-lo racionalmente como qualquer objeto. Nele pesa a voz de ilusão do amor interna a uma promessa ideal. Algo que faz duvidar dele. Ainda que ao duvidar se esteja buscando chegar, de algum modo, perto do amor. Só a dúvida poderia nos levar a ter esperança de, algum dia, chegar à certeza. O que há de mais certo sobre o amor, é, todavia, que ele é plenamente incerto. Mesmo assim pensar nele é um prazer mais que romântico.

Neste caso, como palavra, o amor é menos substantivo e mais verbo. Intransitivo, o que simplesmente é e não se conjuga, como no título do romance escrito em 1923 por Mário de Andrade “Amar, verbo intransitivo”. Ama-se o amor, mais do que alguém que amar. Quer-se amar, amar é preciso, mais do que saber o que é o amor. Definir o amor é o que menos importa. Neste título, porém, há uma definição do amor, a de que ele é um sentimento que se vive, não importa quando, nem onde, nem em relação a quê.
Talvez o amor sobre o qual tanto falamos esteja hoje longe de nós à medida que confundimos a riqueza da expressão amor com a paixão. Falta-nos atenção ao amor quando o confundimos com a simples paixão que é o desejo autoritário e desenfreado por alguma coisa ou pessoa. É como se o amor fosse algo que nos toma e que não podemos compreender, quando muito ter sorte com ele, ou aceitar o sofrimento, a dor com cuja rima já não podemos deixar de vê-lo.

AMOR PLATÔNICO


O amor está presente no nascimento da filosofia. No período clássico da Grécia antiga, o amor é uma das questões mais importantes. Podemos dizer que a filosofia começa com a descoberta do amor. O amor é o que nos faz pensar. Na base do amor está o espanto, o encantamento. Para os filósofos antigos, o amor não é uma palavra complexa, mas três: eros, philia, ágape. Cada uma delas tenta designar um sentimento que é bem maior que a palavra com a qual é expresso. O sentimento nunca é simples, a palavra que o batiza também não.

Eros é o amor como desejo. Na obra de Platão trata-se de um sentimento que compõe a própria filosofia, o modo como se pode pensar. Não apenas desejo do belo, do corpo de outro, anseio de alegrias carnais, mas, sobretudo, é o sentimento que compõe o desejo de saber o que está para além do corpo. Quando se ama alguém, do ponto de vista platônico, se ama o que está além do que se vê. Se ama, inclusive, o que não se vê. Por isso, a curiosa expressão “amor platônico” tem uso corrente em nosso vocabulário. Com ela procuramos expressar o amor que vive de ser teoria sobre si mesmo. Ele se auto-alimenta. É uma espécie de amar como verbo intransitivo. Um amor sem prática, pura admiração, pura contemplação. Contemplação, ver algo, é o termo pelo qual se traduz a palavra “teoria”. Podemos dizer que o amor platônico é um amor teórico, um amor que se compraz em ver, olhar, pensar no que se vê. O que se vê, porém, não corresponde ao olho do corpo, mas ao olho da alma.

ALÉM DO AMOR


“Filia” significa amizade. Filosofia (Philia+Sophia) é uma espécie de amizade pela sabedoria. A amizade é próxima do desejo, pois ambos querem chegar ao mesmo lugar que é o bem. Apenas é um pouco diferente de Eros, pois na Philia a racionalidade exerce sua força. Ela designa um passo além do desejo enquanto este é fortemente platônico e contemplativo. Na amizade constitui-se um laço que vai além do contemplativo ainda que dele precise, que ele permaneça em sua base.

De um amigo queremos ficar perto por admiração e respeito. Ao mesmo tempo a amizade envolve a noção de companheirismo, de estar junto do outro. O amigo é o que se une ao outro em nome de algo comum. Quando a palavra filosofia foi forjada no século V a.C. na escola pitagórica, ela se referia ao grupo de filósofos reunidos na prática de uma vida contemplativa, uma vida em nome da sabedoria. A filosofia era uma prática de vida que se realizava entre amigos.
Ágape era o amor que se tinha por tudo o que existia. Era o amor desinteressado, o amor pela vida. Sobretudo, Ágape define um amor pela natureza, é o amor altruísta. Amor que envolve uma determinada compreensão do mundo como morada do humano dentro do cosmos, como ordem da natureza e da cultura. Os gregos acreditaram no amor como uma potência essencial a tudo o que existia, assim como o cristianismo primordial. Como poderíamos hoje retirar o amor da banalização à qual foi lançado e restituir seu sentido maior, aquele que leva à liberdade humana? A resposta a esta pergunta exige o próprio amor.

Fonte: http://www.marciatiburi.com.br/textos/quadro_oamorpromessaeducida.htm

31 março, 2010

Fora de pauta



André Luiz Martins Pereira (1)
Claudia Regina da Silva (2)

Esta semana uma matéria foi publicada por uma revista de tiragem semanal sob o título "Ideologia na cartilha” (31 de março de 2010), tecendo inconsistente crítica às disciplinas de Filosofia e Sociologia, recentemente implantadas nas escolas brasileiras, taxando de obsoleta e ideologicamente comprometida a inserção de tais matérias pelo Governo Federal. Desnecessário ter estudado Teoria Social, disciplina obrigatória nos cursos de jornalismo, para saber que é mais uma tentativa desse veículo midiático de incrementar sua indiscreta postura elitista e vender notícias.
A matéria expõe a aplicação da Sociologia e da Filosofia no ensino médio brasileiro. Explica, segundo o jornalista, que mesmo existindo as diretrizes do Ministério da Educação, muitos Estados Federativos fizeram seu próprio currículo, incorrendo assim em conteúdos “rasos”. Certamente, isso pode ocorrer, mas não de forma generalizada como quis transparecer a reportagem, desacreditando da funcionalidade dessas disciplinas.
Tomemos como exemplo a violência urbana. O mesmo pânico causado por ela é generalizado no país; entretanto os nortistas não trafegam por entre morros nos quais os chefes do tráfico de drogas entram em conflito armado para permanecerem no poder local, o que não descarta que aqueles não sofram outras ameaças devido a conflitos de outra ordem.
Tal abordagem passa por uma necessária percepção crítica a qual a Sociologia se propõe. O mesmo exemplo, tratado sob o foco das Ciências Sociais, pode ter seu ancoradouro na disciplina de Filosofia, que entenderá neste caso, os valores morais que circundam o fenômeno, estudados sob o prisma da Ética.
O jornalista situa alguns exemplos desmerecedores sobre a inclusão das novas disciplinas, podendo destacar o seguinte: no Acre, segundo ele, “uma das metas do currículo de sociologia é ensinar os estudantes a produzir regimentos internos para sindicatos de trabalhadores”, e opina - “verdadeiro absurdo”. O autor questiona uma prática pedagógica sem contextualizá-la, o que impede maior aprofundamento analítico, contudo faz-nos pensar sobre o papel inverso que se deflagra, sobretudo em escolas particulares: a reprodução de conceitos elitistas e consumistas. Valores, largamente discutidos pela Sociologia e Filosofia.
Se por um lado há uma preocupação com a “cartilha panfletária” como apregoa o texto, há por parte de educadores comprometidos, a reflexão sobre atitudes empregadas pela ideologia liberal, pois que tem formado uma cidadania capenga de jovens politicamente acomodados e apáticos com a realidade social. Pior ainda, é ver a escola reproduzindo tais valores quando um estojo de grife ou um tênis da moda (legais ou pirateados) passam a ser determinantes no espaço escolar.
A matéria ainda continua desfilando sua oposição, diz que a Sociologia como a Filosofia estão recheadas de ideologia de esquerda e “conceitos rasos”, aproximando o Brasil de outros países latino-americanos e distanciando-se dos países avançados. Vale ressaltar que, embora não mencionado pela reportagem, países avançados em Educação formal, segundo o IDH, são a Finlândia, Suécia e França. Nesta última, o contato com os estudos sociológicos ultrapassa as horas propostas pela grade brasileira.
O que se verifica na leitura dessa reportagem-artigo é a existência de um temor explícito pela crítica à sociedade capitalista, empreendida pela ideologia socialista e sua influência tanto na formação dos profissionais da Sociologia e da Filosofia quanto de sua aplicação conceitual nas escolas pública e privada. Verdadeiro equívoco, acreditar que um professor, ao expor a teoria marxista estaria abalando os vértices do capitalismo. Outros sujeitos sociais têm aclamado tal discussão: basta ver o empenho e critica dos ambientalistas por uma sociedade economicamente sustentável e menos desigual.
Adiante!
O que o jornalista pretende é deslocar a atenção de uma nova postura educacional, válida, inclusive em outros países, sendo desenvolvidos ou não, para o retorno em sala de aula a uma metodologia conteudista e acrítica, contrapondo-se claramente ao que normatiza a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). O receio que toma os editorias desses comerciantes midiáticos é uma previsão clara contida nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) para a Sociologia e Filosofia no ensino médio.
A metodologia de ensino tradicional já provou não ser capaz de ajudar a compreender e resolver os fenômenos sociais e morais do país. Procurando descredibilizar a inclusão dessas disciplinas que possam ser ferramentas para tal propósito, é estar na contramão da cidadania e do fortalecimento dos valores humanos, e que as instituições escolares podem tão bem contribuir, assim como a mídia, que parece esquecer-se desse compromisso.
Em tempo: respondendo a ironia do jornalista a respeito da biografia do pensador Rubem Alves (Rubem, quem?), lembramos o que dizem os alunos: “Joga no Google que você acha”. O que infelizmente não foi possível ao procurar o nome do referido jornalista Marcelo Bortoloti. Marcelo, quem?
(1) Sociólogo e Consultor Empresarial
(2) Professora de Literatura e Produção de Texto

30 março, 2010

Personagem - Marcus Moura

a André Luiz

Há um personagem invisível em todas as minhas narrativas. Ele é um tanto cubista, quanto hermético. Ele só se permite descrever pelo que diz. Não ouso narrar seu corpo, sua história, seu psicológico. Ele não me permite. Aparece, diz algo e se vai. Desvanece da mesma maneira que apareceu. Ao terminar um texto, releio e ele está ali, impassível, invazável, instransponível. Junto os ângulos e nada se forma. Hermético e cubista.


Reli todos os meus textos a fim de defini-lo, achá-lo, determiná-lo, mas não consigo, sua indizível presença sempre se faz ausente no fim. Vou entendo-o, e quando penso que tenho alguma conclusão sobre, me sinto no vazio do não ser novamente. Ele vem e mais uma vez pisca, sorri aquele sorriso inconfundível que só ele tem. Mofa da minha falta narrativa. Sorri para minha incapacidade de flagrá-lo no salto que procede em minhas histórias noturnas.


Assim, vou me trucidando aos poucos, com vontade de achá-lo totalmente. Ele seria o ser a quem procuro há tanto tempo? Viajo sempre por lugares nunca antes transpostos e sempre o tive aqui, dentro de minha própria palavra, minha linguagem encenada? Ele não vai aparecer nessa narrativa, não o permito. Já tomou por demasiado meu verbo, meu destempo, meu ressentimento. Tenho raiva dele, quero vê-lo fora de toda expressão poética a que me proponho. Mas não posso. Tenho medo. No final, será que ele vai me oferecer a pérola que tanto busquei nessa viagem que procedo de norte ao sul do meu corpo? Silêncio.


É ele. Mais uma vez apareceu para me descentrar, desconcertar, desconstruir. Sorriu, entortou a cabeça daquele jeito especial e me ofereceu os braços. Me aproximo, creio que não percebe minha irritação. Abracei-o e lhe beijei o pescoço. Tinha vontade de mordê-lo. De ver seu sangue jorrando por todos os lados me banhando, e, finalmente, me mostrando o que havia de mais íntimo do seu ser impegável.


Contive-me, somente beijei seu pescoço, meus lábios se ergueram num sorriso simples. Por que não vem comigo? Não me aceita? Não se revela? Dê me um pouco do que eu preciso. Do que eu desejo. Me retire desse turbilhão enfurecido que toda a minha existência se tornou. Salva-me. Meus olhos demonstram o sentimento que expresso por palavras? Só ele poderia dizer, porém não o diz, nem mais sua voz se faz presente. Já se foi como sempre vai. Para aquele reino onde reina intocável.


Não tenho mais forças para prosseguir. As palavras me faltam, por sua falta. A raiva passou, agora, fico a espera de seu próximo retorno, de seu próximo sorriso. Só que ao invés de um abraço, forçarei um beijo na boca. Não posso ter seu sangue em meu corpo, terei pelo menos um líquido íntimo em mim. A saliva há de me revelar o que desejo? Será dividido comigo metade daquele segredo?


Fico a espera, por favor, retorne!


Postado originalmente em http://marcusmoura.blogspot.com/search/label/homenagem, em 19 de janeiro de 2010.

24 janeiro, 2010

Teu coração

Parecia uma conquista de gente adulta
quase me confundi.
Meus anseios desapareceram
pois sim, devido a ti.
Pareceu-nos uma intimidade
que foi somente nossa.

Soube da verdade
aquela que faltava
sobrava
implicava.

Daquela maneira assim tivera
para nós.

Somente nós pusemos às claras
novidades sem amarras
sorrisos desviados
substancialmente apimentados.

Não! Devoro esta negativa
Não e mais um não!

Meu desejo despertou
desassossegou-se em minha cama
o que tu fizeras antes.

Questionei, dentro de mim, tua emoção.
E a resposta dada
conforme o aperto de mão
o abraço controlado
Afirmou.

Durma mais perto de mim
já em sonhos te tenho.
Sem Picasso,
Niemeyer
sem fim
recomeço
sem dado à identidade
de um bororo, afim.

Deite, deite sim mais perto de mim.
Mais perto daquele coração
que por noites

enfim

amado
o revelou.

Soa, soa desejo
Estilhace o tímpano de um novo humano
Amordace a saudade
Reforce a formalidade
Daquele que me conquistou assim.

Em luto
em fuga.
Basta de ler
onde só poderei rever
os contos vazios do humano.
Conforme unicamente
o gosto do corpo.
Seguindo o ritmo dos passos
e já ausente em letras.

Deu-me como matéria
deu, mesmo sem pensar
pelo descuido voluntário do passar
o coração.

Já não pertenço aos teus sonhos?
Também a vontade que me dera
alcançou o Olimpo.

Chega mundo. Chega!
ignore meus bons costumes.
Chega!
Odiamos o plural.

Perceba sim
pelo gesto de doação
dado por ele.

Para mim
perpetuamente
possuirei.

Revivamos!
Quis me debruçar
refestelei-me
ponto.
Contudo, ó mãe!
A oferta se cumpriu
pelo preço justo.
Conquistarei definitivamente
aquele coração?

Para meu sempre
abrigado.

03 janeiro, 2010

Diálogo

Eu sinto a desgraça de não possuir
Bem como antes eu havia imaginado

Eu sei do mal que você me faz sentir
Unicamente por não estar ao meu lado

Sabemos nós que não é mais o mesmo
Graças a mim
Graças ao que pude ser pelo menos por uma tarde
Durante um intervalo

Vi ontem o quanto você me fez vontade
vontade de me doar
intensamente
unicamente
propriamente
uniformemente
antes por mim
hoje, necessário, por você

venha
consuma nosso sentimento
sossegando-se em meu peito
peito feito de algum metal
morto
frio
sem intensidade

só nos resta esperar você
rente ao meu rosto
enluarado
dourado
discreto, todavia
sem medos
sem amarras habituais
sem tudo

agora eu preciso
mais e mais
mesmo vivificado pela solidão
de não ter beijado alguém

meu amigo
de coração exclamou:
você, autor, precisa cuidar de alguém
e ser cuidado!
seja minha única vontade
esteja em minha intimidade

01 janeiro, 2010

Nova esperança




Eu o encontro todos os dias
Os dias que me faltam
São eles
Carrascos.
Eu o encontro em todos os sonhos
Subo a imaginação
Suspirando intuições
Desviei os olhares
Naquele passado que foi só nosso.
Hoje, ao amanhecer
Ela virá:
a minha esperança
por conquistas
Sabendo nós, apenas nós, os motivos.
Amanhã, pela manhã
Ela não virá mais
Seremos mais uma vez os mesmos
Com devoção
Sem gozo
Apenas intenções.
Veja o desterro em que me lançou
Note pelo menos por um segundo
O meu olhar
Devote por pouco que seja uma gota de desejo.
Para o tudo eu quero caminhar
Já iniciei os passos
Parece-me que não verei sozinho
As tardes desse ano novo.

11 dezembro, 2009

Devore

O meu pensamento não para de imaginar
inventar maneiras de conquistar o seu corpo
quando me deslumbro com seu jeito
enfim, percebo-o.

Quando lembro do brilho de minha vida
forma tão informal de representar a verdade emocional
desfaço o charme da voluptuosidade
esquecendo cada detalhe da rotina.

Vida antes desenxabida
anteriormente enfraquecida pelo egocentrismo.
Recentemente a vivifico
conforme o vazio de não lhe possuir.

Pertençamos a todos
mas o que eu quero mesmo
é deixar de pertencer somente a mim.

Apareça, vamos!
Apareça sutilmente,
semelhante ao fato feito no inverno.

Estamos em outra estação:
aquela em que o corpo desidrata.

Decida apenas fitar-me
por favor, decida.
o engano é tão bom
gentilmente fortalecido
ansiosamente canibal.

Ah a carne!

Os meus braços já estão fortalecidos
também, os meus dedos
Minha pele se faz alvadia.

Vá lá, vá! Agora não é seu momento
Em breve será um ser
Logo virão a repressão e o encolhimento
censura, apatia
nervosismo, fobia
ansiedade e
quase sempre o distanciamento.

Desejo que em um universo pessoal o auxílio lhe seja farto
e nele a reconstrução
Exclame "sim"!
não tente oportunizar o impossível.

Devore-os, devore-as
Sossegue em meu colo, por fim.

16 novembro, 2009

Desencantamento

Queria ter podido dizer que meu sentimento não é uma única paixão: é sentimento maior, fortalecido; hoje mesmo medroso, conscientemente vivo.
Mesmo juvenil...
Hoje você riu para mim... eu notei.
Por enquanto, esqueça o rito e só pertença a nós. Sós. Somente!
Mais uma vez o momento o retirou de meu desejo: o afeto para você se enamorar.
Você vai gostar do meu toque; adorará meu gosto; desejará meu olhar; reivindicará meu suor; perder-se-á em meu colo; vivificará nosso abraço, a fim de amar.
Quer alguém para entender o seu universo?
Eu não exigirei recompensa, apenas o que iria me entregar. Seja quando for, ou nunca.
Sabemos por certo que fomos um para o outro em um bom tempo: o periodo criador do meu amor.
Ah! Que bom! Até que um dia eu soube o que é amar.

15 novembro, 2009

Retorno


No começo dos anos 90, um jovem rapaz apaixonado por estórias incompletas se apresenta a um cinema, era sua primeira ida. Não menos incompleto como suas estórias prediletas, alcança a tribuna da bilheteria e reclama um ingresso para a sessão. Logo que consegue direciona-se para as poltronas, sem sacos de pipocas e refrigerante. Sozinho.

Pela manhã, imaginavam sua alegria para os comentários e, por pouquíssimo tempo entre o intervalo do banheiro e a saída para a escola, nenhuma palavra de satisfação foi ouvida. Nem mesmo o nome do filme comentou. Os argumentos e idéias mais brilhantes estariam por vir, não naquele momento nem naquela situação doméstica, afinal, o maior de todos os desejos humanos, para aquele jovem rapaz, era a solidão de um apartamento de médio tamanho no centro da capital. Não se sabe se seria a única sensação, mas a mais evidente, certamente.

Após chegar da escola, ainda com o mesmo semblante, o rapaz se queixa do clima: - Aqui faz um calor desgraçado! Disse à mãe, ainda preocupada com o preparo do almoço. Ela acena com a cabeça afirmativamente tentando concordar e logo que desocupasse do fogo iria chamar sua atenção e escutar um comentário, entretanto esperava demais daquele que um dia chamou de “filho querido”.

Satisfeito pela comilança, o rapaz lançou-se ao quintal para mais uma vez imaginar situações de desconforto com amigos e pessoas imaginárias. Elas não se comunicavam, ele não queria ouvi-las, na verdade. Tinha uma espiritualidade duvidosa, desde sempre. Achava graça de alguns fatos pouco hilariantes. Chegou até a rir quando soube de um suicídio mal concluído. Não, o jovem rapaz não era um canalha, nem uma pessoa de difícil convívio. Pelo contrário, chamava sempre os amigos para uma rodada de suco e biscoitos, quando se sentia muito ansioso. Era de muitas palavras alegres. Quando criança procurava ler todos os letreiros que encontrava pelo caminho de volta à casa. Ainda não adulto procurou esclarecer alguns significados, palavras estrangeiras e símbolos universais. Concordava consigo mesmo ao ler um livro, mesmo que fossem apenas as primeiras páginas. Lia pouco, contudo. A inteligência lhe foi grata, porém. Passou mais um dia em sua vida. “O tempo – dizia o rapaz – é a nossa mais deliciosa criação.”

01 novembro, 2009

Pegues

Faça isso sim
encantes
provoques a cada foto
Em cada retrato
Pois sendo ocular
me exergo maior e mais
Mais e mais... teu.

Amante de tua boca
sempre
Língua solta
fala precisa
Olhos contrários
Parcela de Um
Animado em dois.

Não me digas!
Ou melhor, digas sim!
declares

Ao menos uma vez
novamente só
que o nosso desejo
é vivo.

Mostres!
Eu ordeno... mostres!
Ordenes a mim, por favor
agora sabes
que meu peito é teu.

Derrames o teu suor
chames
chames o calor que há

Acertes o foco
Já não é mais um instrumento
é tão somente
o teu olhar para o meu.

Pegues
Pegues novamente

Mas pegues.
E não se esqueças
Somos nós.

Declames
Declames o teu desejo
Usando o que de maior valor
é meu: o teu olhar.

24 setembro, 2009

O novo olhar

Nem um pouco cansado de te ver
mesmo em foto.
Foi em uma tarde de inverno, chuvosa.
Contrária à predestinação de cada corpo e a tudo.
Que então eu declarei.
Precisava sentir a emoção se fazer palavra
e foi aceito por ti, unicamente.
Compreendido naquele instante
nosso. Vivido...
Foi em uma tarde de inverno
que libertei-me para ti
Declarando o meu gostar
e assim foi feito.
Vivifiquei o olhar
Nunca cansado de direcionar a ti
Rompendo moral e costumes.
De modo maior
Surpreendi-me, quando recebi o teu primeiro dizer, com letalidade.
Palavras ousadas.
Hoje não só minhas
Nossas!
E precisava declarar
e assim foi feito.
Foste a primeira parte de nossa relação
a declarar
E eu?
Servido de ti
Se dado mal, foi feito pelo gostar.
Se para o futuro elas se lançaram, palavras e emoções.
Lá estarei para envolve-las com meu corpo.
E não só estarei.
Alcançando-te, ainda.
Por fim palavras
Regozijem!
Pois o belo está em vós, também.
Amo-te, amo-te.
Por todo o nosso sempre.

17 setembro, 2009

Das revelações momentâneas

Até parece um dia comum de inverno. Não que eu quisesse pensar na estação e clima exclusivamente, nas temperaturas que influenciam meu descanso e o pouco repouso após o almoço. Mas o tempo agora, este em que vivemos, me traz algumas inquietações: viver sentindo o mórbido cotidianamente e inebiar-se com o frescor da jovialidade alheia.
O outro parece atraente, sem receios, descobridor das sensações, pesquisador de temáticas antes inexplicáveis e ousadas, ouvinte do passado e recriador do poético moderno. Surge desse modo uma questão: onde este jovial ser se insere na sociedade local, cada vez menos própria de uma leitura histórica e ativa politicamente, e qual papel representa para mim?
Em textos outrora escritos vivifiquei minhas vontades de contribuir com parcela de leituras acadêmicas e reflexões feitas, como a não discriminação de gênero e sexual, a manutenção e modesto consumo dos bens industrializados, a (re)valorização dos direitos políticos e humanos etc. Todos os bens humanos modernamente pretendidos, insistentemente discutidos e propositadamente pertencedores de propósito desconsiderável pelos detentores do poder local e internacional.
Mas que nada! O valioso som que a dúvida permite imprimir pelo jovem, naquele instante de atenção, parcialmente desconsiderado, valeu para uma nova impressão pessoal: o fundamental viver coletivamente. A nova tentativa, a firmação do passo e ritmo de leitura para as ações políticas, a maneira de reverter a violência velada e muitas vezes descarada dos ignorantes, o diálogo harmonioso nos espaços familiares, a intenção pelo todo no ambiente público e, mais ainda, a perspectiva pelo fortalecimento do saber, a fim de recomeçar os processos pessoais, foram recapitulados.
Quase sempre permiti tratar sobre o antigo em vista de uma recriação do viver humano presente. Hoje, precisei perceber mais atento o novo, o que está aqui comigo e junto a mim para encontrar um humano sentido de vida. Sem amarras ideológicas. Próprio de si. Próprio para o outro.
(Re)encontrei o sentido já enfraquecido. Contudo, fico especulando como uma criança: o que há nos olhos desse jovem que me idolatra?
Se a relação presente me permitir, voltarei a reescrever sobre o novo. Caso contrário, retorno para o conforto do antigo. Ouso aproximar minha intenção a de Claude Lévi-Strauss, que em entrevista proclamou não estar para o mundo que será ocupado por bilhões de pessoas e sim para o mundo das sociedades do passado, cujas análises foram feitas.

22 agosto, 2009

A nossa imagem

Eu procuro a tua imagem
Parece ensino de criança
Tu corres de minha visão
Como se eu não pudesse encontrar-te
Fora de mim
Mas
Para mim
Tu és um adulto

Procurei a tua imagem hoje à noite
Com respingos de ingenuidade
Não a encontrei como antes
Pois hoje sou um homem
Feito homem
Por ti

Procuro a tua imagem
Desejo da minha parte
Ainda, parte infantil
Leve, sem presas
Sem moral
Sem dono

Procuro a tua imagem
Assim
Leve, verdadeiro
Homem

Para mim tu és
A imagem mais bela que já vivi

E eu, moço
Frágil pareço
Esperançoso por fim.

01 agosto, 2009

Uma imagem do Céu

Por caminhos a peregrinação percorre.
Sem perceberem, as beatas e as crianças espalhadas entre o andor estão ocupando seus espíritos.
Causos juvenis são ditos entre as moças mais crescidas. Espalhando a descoberta de si mesmas pelo olhar entre as rendas, cerceada tantas vezes pelas vozes idosas.
O gesto discreto da carola, cujo rosário ocupa um lugar privilegiado no campo de visão do pároco.
Ele, contudo, suado, espera a próxima parada para um brevíssimo descanso. O repouso, por fim, apenas na hora da morte. Um sufoco, quase. Alívios momentâneos.
Os coroinhas estão postos ao lado do andor. Talvez eles sejam os mais próximos da benção.
Os auxiliares adjacentes parecem reproduzir a ordem do dia como se estivessem cumprindo a penitência outrora passada. As orações são árduas para aqueles que as Letras não se fizeram íntimas.


A jornada parece findar perto da lateral da capela.

Chão batido, parede rebocada e telhado disforme.
O vento abana as saias rodadas das senhoras de bem.
O chapéu do senhor procura alcançar outra razão.
Quase em seu proposto lugar o andor é bamboleado.
Um dos moleques que o segurava tropeçou.
E com um enorme susto, suspiros e tristeza são postos livremente.
Esperam o resultado fatal do desatento gesto.
Ouve-se ruído de pesar. Preces balbuciadas feitas à luz do nervosismo. Pretensões de ajuda. Mas não adianta nada, o feito já foi feito.


O santo, mesmo de barro, cai no chão seco.

Desfazem-se das comedidas posturas e furtam do profano os mais comuns dizeres de ofensa.
O santo caiu, entretanto não quebrou.
O mais próximo cata a estatueta e põe novamente no sacro sustento. E, longe do perigo, a última prece ao santo é proferida.
Na seguinte missa, o pároco envaidecido terá muitas confissões a receber. Palavras dadas ao vento são despropósitos, mesmo que por espanto, ainda mais se forem emprestadas ao infortúnio.

13 julho, 2009

A questão nacional - contemporaneidade, literatura e identidade nacional

Recentemente recebi este questionário que atende uma questão muito importante e que enxergo ser necessária nas escolas, pelo menos nos ensinos fundamental e médio. Abaixo entrevista dada a
O romance "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, permite levantar alguns questionamentos em relação ao mundo contemporâneo. Entreviste uma pessoa culta!
Luiza Duque. O nacionalismo é uma caracteristica presente e marcante no Brasil contemporâneo?
André Luiz. Sim, pois foi criada uma identidade nacional graças a grupos bem mobilizados. Houve dois movimentos que permitiram criar um sentimento de Nação: o primeiro, podendo atribuir um caráter histórico, foi a independência política, no século XIX. Ela foi um movimento aonde grupos mobilizados se preocuparam em criar uma nova sociedade. Uma sociedade em que os fazeres não dependeriam mais de Portugal; e o segundo momento, também histórico, mas com aspecto cultural-artistico, foi o da Semana de Arte Moderna, em 1922, São Paulo.
Estes dois momentos sensibilizaram e criaram um sentimento pela Nação. Entretanto, por falta de leitura política e histórica, a população hoje como que se desfaz dos acontecimentos passados e se anima nacionalmente em momentos esportivos (COPA e OLIMPIADAS).

Luiza Duque. Ainda é possivel afirmar que existem grandes ideiais sendo defendidos no mundo atual? Exponha seu ponto de vista e, em caso afirmativo, apresente exemplos.
André Luiz. Existem dois grandes ideais, os quais impulsionam grandes idéias. Os dois maiores são o consumismo e a ecologia. Um se contrapõe ao outro. São divergentes. O consumismo é forçado pelo capitalismo e a ecologia é impulsionada pelo Movimento Ambientalista.

Luiza Duque. Na sua opinião que problemas existentes no mundo atual são merecedores de crítica e quais as possibilidades de solução que você apresentaria para eles?
André Luiz. Violência e consumismo. Contra as ações violentas é necessária mais leitura e a revalorização de ideias como a tolerância religiosa e liberdade. Para o consumismo uma das soluções seria a reeducação das sociedades para um consumo necessário, para a sobrevivência e não por necessidades superficiais (status, enriquecimento e deslumbre).

Luiza Duque. O que você pensa a respeito da influência de culturas estrangeiras sobre o modo de vida dos brasileiros hoje?
André Luiz. As influências sempre existiram. Entretanto, graças à globalização essas influências passaram a ser mais intensas. Certamente, o modo de vida dos brasileiros vai receber diretamente novas características culturais estrangeiras. Contudo, cabe aos brasileiros definir o que é bom e o que é ruim para a própria cultura.

Luiza Duque. Dê exemplos de algumas citações do mundo contemporâneo que mostrem como certas idéias radicais, quando defendidas de maneira extremista, podem conduzir também a resultados negativos.
André Luiz. Não me recordo de citações diretas feitas por pessoas, mas a ação política mais extremista que pude notar foi a política externa do Governo de George W. Bush, a favor de uma pretensa democratização em um país, como foi a guerra no Afeganistão, cuja cultura e pensamento são muito variados se comparados aos dos Estados Unidos e a maior parte do Ocidente. De mesmo modo ocorreu com o Iraque.
Fim.

28 junho, 2009

A Deus

Entregam-no a Deus,
aos deuses e deusas de uma eterna redescoberta pela duração temporal.
Duração de uma humanidade ainda com achados esparços,
fendas e rachaduras.
Com dignidade em reconstrução.

Assim como nós, você em vida ludibriou-se pelos prazeres
e encantos humanos.
E assim os fazemos.
Nós e aqueles!
Para onde iremos caminhar apesar de sua ausência?
Para um desconhecido fim?
Exatamente.

O que posso oferecer é um antigo dilema: está no desconhecido. Hoje para mim e para todos.
Escuro!? Certamente.
Claro!? Apenas durante as orações e despedida.
Adeus.
A Deus.

À memória de Lucas G. Fioreze
(* 02/02/1988 + 27/06/2009)

07 maio, 2009

Por que eu não consigo aprender o ofício de um poeta?

“O verdadeiro poema é sempre pedagógico.”
Mário Faustino

Por que eu não consigo aprender o ofício de um verdadeiro poeta?
Apesar de anos tentando espremer um punhado de saberes para compor um conto, obtive, entretanto, um conjunto poético: substancialmente ignóbil.
O que fazer para poder ser um poeta? Seria um desejo absurdo? Por que não me contento em não ser um artista do ritmo das palavras? Se é que um poeta o deva ser.
Eu mal posso escrever meu próprio idioma. Aquele que me fez cidadão de outrem, preso a outrem, endividado pelo resto dos dias em solo.
Realmente pretendo esculpir um novo eu, distante das influências que já recebi e ainda me perturbam. Poderei? Como é fácil ser palerma no momento da apresentação.
Mas a questão fundamental ainda é a mesma: por que eu não consigo aprender com o fantástico delírio do enlace matrimonial das palavras, soltas, às vezes em forma ingênua, desenfreadamente humana, sincera nas pontuações e nobre no objetivo? Por que? Qual a razão por eu não ter percebido quanto mal me fez a ausência de um poeta? As verdades contidas em um adormecer abraçado a ele, sem frescuras e receios. Saberia, por fim, como viver sem me desgastar com pretensas insuperáveis emoções. Não quero me apoiar no discurso famoso do romantismo: ah sim! As emoções são os mais nobres objetivos da vida. Então, por que a razão? Não se separa a água do óleo assim, despropositadamente.
Não devo, pois os anos me furtaram da leitura poética, aprofundar esta inquietude. Deixo algo incompleto, pois devo recuperar algo que nunca me ofereceram. Aqui trataremos de minha história. Como receio comentar sobre algo particular em folhas de papel universalmente impessoais. Quem nos legou essa herança? A escrita é para o agir livre, não para completar frestas mal-acabadas.
Saber? Saber sobre uma história pessoal chocha, quase sem brilho, sem vontade de viver, principalmente quando os completos 13 anos se fizeram.
E onde está a atenção no aprender com a poesia? Deve estar no calabouço mental de um quase feliz, com suas quase teses de vida e um rancor no coração. Não! Não existe mais rancor, mas o que é um dizer sem expressões piegas? Veja um conto inglês famoso no ocidente! Tornou-se um ícone do romantismo mundial, como se o oriente todo se vangloriasse de um texto eleito como sublime pelos próprios ocidentais. Cadê a possibilidade de aceitação ou desapreço. Vive-se o cotidiano recebendo dizeres de negação e querem nos fazer ler algo que jamais sentiremos. E por que? Porque é e pronto! Quem irá revidar a lança jogada por um nobre? Somente um nobre, pois tem leitura. Agora eu? Eu? Sequer leram um dizer meu que jamais sairá em um jornal de grande circulação nacional. E agora ainda sabem que não fui apresentado à poesia.
Tudo bem! Escrevo para mim mesmo. Quem quer saber de algumas verdades? Mesmo que sejam as identificadas por mim. Se forem minhas, que fiquem comigo até o dia em que perderei a possibilidade de reconhecer os signos e as representações. Após isso, fica a critério de um outro quase feliz, com suas quase teses de vida e um rancor no coração – mesmo que seja apenas para um cenário primário – publicar dizeres sem aprendizado.
Como conseguir quietar o ser se não foi possível aprender a se-lo? Como? Da mesma forma que se acham pedras, pedregulhos, pedrarias sem selo no “meio do caminho”?
Minha lição existe e deve ser singular, ausente de impulsões e ânimos literários: deve ser a que me permite viver sem amarras no peito.

23 março, 2009

Arte do saber

Veio como se viesse do tudo
Parou-me, completamente.
Imaginei...
Não sei o que.
O por que...


Anos sem surpresa.
Desejei...
o que?

Sim, eu sei.
Pretendi ao menos saber.
Quisera, por vezes, não ser.

Conhecer como conhece a natureza.
Sabe como um saber da arte, um ofício.
O viver.

Um desejo em mim, paira.

Veio,
veio como se quisesse possuir algo que,

em olhos melancólicos, não me contou.
Contou sozinho um conto do saber.
O seu saber que auxiliei ser.
O ofício aprendido.

Veio,
veio como se desejasse um saber maior meu,
os que se parecem com os fios dourados que possui.

Declare! Faça-se saber.

A quanto tempo se preparava para mim?

16 março, 2009

Questões?


Passado, presente. Deram-me a incerteza, duvidei e sustentei por alguns meses a vontade de ser alguém. Alguém interessante para uma vida em grupo. Pronto para viver o novo. Disposto a construir algo inacabado. Retomá-lo!
Deram-me algo que não consigo me livrar: a consciência livre. Clara, agora, nem tanto.
Até ontem certos caminhos trilhados, bons projetos.
Até ontem figuras espalhadas, livros abertos na estante.

Em um artista me tornei, ele declarou. Até me surpreendi. Hoje, não sei ao certo. Deram-me, contudo, a dúvida. A surpresa não fazia há anos parcela pouca de mim.
O caminho original traçado não se força com tanta vontade. Várias intenções. Auxílio verdadeiro, crê?
Eu propus requerer certezas em um momento pouco equilibrado, coerente com o fluxo de vida humana. E, no entanto, incerteza. Pluralizemos: incertezas. Eu até declarei!
Homem da filosofia, da ciência ou do mercadológico? Creio que passo a questionar minha função social ou qualquer outra função que tenha possuído. Creio que já não sou mais o mesmo que o planejado. Que "nós" planejamos. O fabuloso projeto de vida humana, sustentado até agora por um milhão e meio de vontades. Porém, não somente minhas, mas profundamente desejadas por mim.
Ontem estava seguro. Ontem estava menos faminto. Ontem menos cônscio. Ontem estava quase totalmente "nós".
Futuramente, devo voltar para o olhar primitivo. Básico, mal feito, mas já feito. Entreaberto. Pouco fechado.
Futuramente, irão me incomodar com perguntas, das quais saberei a maior parte. Ou desejarei desconhecê-las.
Presente, futuro. Como se reconstrui pudesse acalmar a mente. Uma mente antes atribulada, inquieta; hoje, um turbilhão.
Façamos um fogoso propósito: deixem-me sem o privado. Retornemos ao "nós".