17 janeiro, 2014

Desterro

Fomos criados para pertencermos a tantas coisas. Não seriam coisas, mas situações, contudo. Momentos intermináveis em companhias agradáveis e instantes tão supérfluos ao lado de desconhecidos. O que sempre almejamos, mesmo para o bel prazer, pela satisfação de sermos notados por alguém declaradamente próximo, é a incerteza de nos pertencermos e pertencermos aos outros. Pertencimento não é uma escolha tão fácil e pasmemo-nos: nunca será, pois as decisões nos desenergizam de maneira quase absoluta. Atribuímos qualidades desconexas para a natureza humana e sequer pesquisamos o outro profundamente. Formulamos desenhos, esboços e cálculos para reflexões infundadas, haja vista que o horizonte da dignidade paira além do natural. Sorrimos mais para dentro porque ao nosso redor substituímos verdades passadas. Quase verdades, exclamaríamos. Aguardamos pacienciosamente declarações de pessoas caracterizadas por suas falas e pouco por suas ações virtuosas. Valemo-nos de competições e apimentadas conversas acirradas. Testamos a dignidade o tempo todo: a alheia, provavelmente. Suplicamos desejos que jamais se revelarão. Pretendemos vontades eternamente idealizadas. Seria a dignidade alheia tão vorazmente mastigável que não é possível admirá-la, mesmo sabendo, que pelo resto de nossa existência, inexistirá o retorno? Ao som de Frédéric Chopin, prelúdio em E-Menor, ópera 28, número 4, encerramos, cônscios de nossas emoções.

03 janeiro, 2014

Um sobre mim


Indivíduo mais louco, nunca vi ... Mais irônico, mais sarcástico, mais "Fantástico !"... Nunca vi...


Você mostra as pessoas a realidade, de forma tal que é "como é que se fala isso em português mesmo?"... Impossível dizer a emoção que você faz seus alunos sentirem em suas aulas.


Isso não é coisa de um simples ser humano, é coisa do André ...
Alunos que sempre estarão a te admirar... como a mim... Nunca vi... 

Desculpe te tratar como professor, mesmo fora das salas de aula, mas para mim ser professor é como ser um Deus... Deus do conhecimento... E é isso que vejo em você, alguém cujo conhecimento é voltado para fazer com que as pessoas saiam da ignorância... 

Entre muitas frases sobre você, quis mostrar o quão importante você é em minha vida... Um muito obrigado, de um alundo eternamente agradecido, por ter me apresentado a melhor coisa existente na vida... a arte do pensar e do saber.

H. S. L.

20 dezembro, 2013

Espera

Há uma frieza tão grande nos gestos que acabei conquistado pelo medo. Não o receio de perder ou ficar perdido, mas de sonhar. Costumo negar o verbo sonhar. Acontecem instantes tão supérfluos que precisaria reaver o meu ser por completo, incluindo os tais momentos de prazer. Prazeres? Parece-nos tão formosos e estáveis. Farsa! O que somos senão instantes de busca para satisfação de desejos... Ah, basta! Não pode haver mais negações. Não nos alertaram, quando infantis, que o esperar assemelha-se ao sofrimento da perda?

09 setembro, 2013

Nostalgia

Talvez seja anúncio desprovido de pretensões mundanas. Talvez seja o anúncio de um devir mais calmo. Pode ser que as vivências tenham se (re)encontrado. E o que as circunstâncias provam quando estamos com a consciência tranquila? Com que humor enfrentaremos o tardio, o passado ressentido e a amarga ideia de que não fomos desonestos? Que profundidade há na tentativa de ser justo consigo e com os pares? Quisera ter aquela que sempre me retribuía os meus escritos com gentileza e entusiasmo. Sinto falta de ser aquele que por anos atrás se perdeu e se transformou nessa forma humana menos incauta.

09 julho, 2013

Por uma noite igual a anterior

Perplexo comungou de um instante de verossimilhança: causava arrepios ao comentar sobre os detalhes. Eram eles os mais sapecas da noite, envolvidos os participantes em um jogo fraternal. Na espreita do acaso suspirou: "Que os dias sejam tão gentis como a suave brisa matinal em plena primavera." Acontece que ainda era inverno... E continuou: "Que os sons embalem o corpo em pleno cotidiano e que para o melhor possua sempre a vitalidade ao acordar." Já não era tempo de invejar e sim, propriamente, esperar o bom e honesto afeto. Já se fazia madrugada e nem ousavam as nuvens oferecer mais águas. Continuaria por quanto tempo desejando um máximo de sentimento que até então não surgira? Quer-se muito em tempos de escassez de vontades.

27 maio, 2013

A sensação do envenenamento



Justiça não é bem escolha. É a seiva de toda humanidade, por certo. Ela é atemporal. Dois detalhes existiram: o primeiro e menos ingênuo é que eu sempre soube de seu interesse – eu ainda, como antes, continuo chamando a atenção de pessoas inexperientes no amor; o segundo foi a descoberta da sua destacável qualidade: insensatez! Da sua insensatez! O que me leva a não denominar sua presença nesse escrito na segunda e íntima pessoa. A pior sensação é saber que eu nunca lhe amei como julgou me tratar em suas tentativas de me manter aprisionado naquela suposta relação: “te amo”, como dizia desavergonhadamente, já não é uma conjugação valorizada hoje em dia, principalmente para quem já escutou essa expressão verbal centenas de vezes, justamente por pessoas parecidas com você: fracas. Fraqueza que é menos contagiosa com o passar dos momentos afetivos, descobertas de que em nossa vida social o mais importante é se tornar vil! Tão vil que adestramos as palavras para nos mantermos menos afetados pela poção: veneno produzido pela menor capacidade que já encontrei nestes últimos anos. Em qual estado da natureza julgou possuir autoridade para ousar me inebriar com palavras tão esparsas, profundamente ocas e insensivelmente aprisionantes? Torpe! Ínfimo cadáver sem ética! Monstruosidade fugidia e que em momentos descontraídos esquecia-se do disfarce. Nunca poderá me assombrar, nem mesmo agora em que após o término de uma relação enfraquecida foi, propriamente, mais honesta a aquele que o permitiu recolher, por simples instantes, sinceridade. Bondade, ora! Serei misericordioso, contudo. Afinal estamos em patamares diferentes. O tempo o sentenciará! Com meu auxílio determinarei: a jamais adentrar novamente na carruagem em que por dias o vento pretendeu abençoar sua face. Não só pretendeu furtar-me, mas sim ao tempo e a ele não se ofertam devaneios gratuitos. Ele é rancoroso. Você se tornou tão vulnerável que os ramos dourados dos antigos mitos jamais encobrirão seu corpo. Quer mais indesejável veredicto? Para toda a sua história de vida estará envenenado! Contudo, há uma alternativa, agora. Não sou eu quem a ofereço certamente. Somos seres no mesmo embalo de vida humana. Criou para você um labirinto! Se reparar as virtudes, poderá reconhecer antes do término de sua respiração a contemplação e a magnitude de uma vida sadia, apesar dos enganos comuns cometidos. Todavia, se por fim, em leito de morte, houver esquecido as virtudes, findará envenenado pela própria soberba e a ela Prudêncio, poeta romano, recomendou a modéstia, vigiando-a durante toda a jornada. Somos nossos próprios algozes. Cabe a você o despertar, ausente meu auxílio.

04 setembro, 2012

Por fim


Já sabemos que tudo que tenha vida um dia se desfaz. Desfaz-se a forma e a essência. Fica, contudo, a lembrança: de ser presença sincera, de ter conquistado felicidades, de superar em conjunto as limitações e violências. Já se sabe, também, do fim inesperado. Das incapacidades de fazer reviver alguém em nosso cotidiano. Mas o pior é enterrar alguém tão próximo ainda vivo, mesmo sem essência. Sufocar com terra ou até mesmo queimar momentos, imagens, auxílio e cumplicidade. O fim não pode ser em si mesmo, mas no outro. Arde demasiadamente no peito de quem ouviu os rumores maternos e se compadeceu. Se a mão atinge não foi em vão: porque lá havia o último fragmento de amor. “A mão foi minha, o gesto foi teu.” Medéia

25 junho, 2012

Mais uma noite


Ontem o coração me deu mais uma batida
Talvez com menos proezas
Certo de que vou me iludir mais uma vez.

Todo dia me parece insólito
E já estou acordado para ele
Envolvo-me em vazio.

Eis um suspiro
Dado entre as pequeníssimas graças
Mais humanas, mesmo não podendo me servir.

O passado é demasiadamente sufocante
Porque houve tentações
E as mesmas não se aniquilam.

Os humores são diversificados
A brisa para alimenta-los não passa pelas janelas do meu quarto
Pois bloqueadas estão para acomodarem a escuridão.

Ninguém dá atenção aos pormenores cotidianos
Citadino nenhum percebe o mal em si dentro de um quarto
Ali deve haver sossego e há farsa.

E escurece novamente
As ideias revolucionam o descanso
O anseio me desfaz.


29 maio, 2012

Gula

E se o beijo é dado sem propósito não pareceria com aquele que foi permitido ontem.
Eram 23 horas e o hálito combinava. Vontade era de proporcionar mais vontade, bem ali, muito próximos.
As palavras inquietas não podem ser presas por tempo qualquer. Basta falar que será ouvido. Pois se ouve com o coração e a mente limpos.
Bagunça está quando há beijos intercalados com sorrisos: misturasse uma inquietação em possuir mais exemplares com desejo de permanecer daquele modo confortável.
O beijo fogoso acontece quando a gula é um devaneio concordado entre ambos.
Faz-se companheirismo em vidas, outrora tão distantes. Espera-se, brevemente, mais.



07 maio, 2012

Ilusão


Foi um dia de encanto, julgo assim. Não me pertencia a tarde, sobretudo a lua cheia que nos banhou. Senti forte sensação de esperança e nos tivemos. Lá estávamos cúmplices e distraídos. Cooperamos nas palavras, gentis palavras. Sorríamos conforme o movimento do corpo nos desinibia e os instrumentos conduziam. Havia inúmeras pessoas, mas não as notei.
Foram as frutas, as de dentro em forma de suco e as usadas como luvas sobre o corpo, acalmando-o por meu excesso anterior.
Fomos bobos, olhares cruzados para uma sentença de final qualquer.
Senti a felicidade por estar ali. Vivi! Totalmente pertencente a mim. Sabendo que por um determinado tempo seria de minha vista. A aflição era ouvir: “Preciso ir embora”. É perene esta sensação quando juntos.
Conversamos como responsáveis pelos nossos destinos apesar da timidez. O sorriso ofertado era suficiente, demonstrando sinceridade. Alento. E o medo sendo acalmado em mim por tentar sufoca-lo, contudo.
Ouvia poucos ruídos ao meu redor. Existiu um círculo a nossa volta cuja pretensão só se direcionou para a unicidade, para quem me conduzia. Mesmo assim meu coração não palpitou aceleradamente. Por que não? Deve ser porque criamos história.
Brincamos de acordo com o ritmo do ambiente, sobre os trilhos de uma infância que para mim e para você não retornarão. Nunca fomos crianças juntos para poder permitir um presente encantador. Unicamente de minha parte, talvez. Deve ser pela maciez de sua voz, pelo descompasso charmoso dos seus gestos, pela incompreensão de não viver vontades comigo que vivo esta ilusão. Acabamos como o usual. Uma cama saudosa, um corpo solitário e uma grandeza que se intimida por pensamentos existencialistas. Já está ausente.
Comprometer-me-ei com esta confissão sabendo, por fim, que certo dia nós não mais dispostos estaremos para um dócil passeio, apesar de cooperar com seu pedido de espera. O agora foi tornado memória e existirão noites que a solidão será desavergonhadamente íntima.


24 abril, 2012

Entrega

teve um dia
certo momento noturno
que fiz meu declarar
contudo, não esperava a inércia
queria ação
vontade
libido
entrega
e não vieram
queria que a entrega e a condução
fossem para mim
como um guia experiente
era só se entregar
seria com jeitinho doce
sem pressa de ser amado
sem inibição de ambos
mas com impulsos afetivos
pelos detalhes mais excitáveis do corpo
pelo beijo com vontade de saudade na despedida
sem receios
sem neuroses
ausente ciúme
entregar-se
ah a entrega!
por fim, não veio

16 abril, 2012

Partida

Vou me desfazer de mim pelo todo que pensei ser.
Esquecerei, contudo, a indisposição

A ausência é natural
como tentar lembrar de uma memória valorosa.
Como estender os braços às paixões flutuantes.

Não volterei a ser como estou.
É sabido.
Sentirei novos impulsos.
Conquistarei partes intocadas.
Iniciarei apenas se me confortar com sua permissão.
"Está tudo bem!"

Terei outra face, outro espírito.
Mesmo sendo tentativa
irei.
Quero um preto e branco
para que em chumbo e cobre
realize a mim.
E comigo só.
 Kain Hallis - Iluminação Solitária

15 abril, 2012

Escolhas

Não esteve lá
havia escolha
escorreu em meu rosto
vermelho rubro de minha descrença
senti como uma desconexão
o mesmo desabor de ontem.

Num momento sinto sua pele
um olhar me provocando
noutro um vazio inenarrável.

Só precisava parar de pensar
no quanto um abraço seu me recomporia
traria fartura
traria cores e, por fim,
vida.


Fizeram poucos anúncios
deve ser por este motivo
que ainda não me desfiz todo.

Pareciam lágrimas
as mesmas que caem quando está ali
longe
pareciam.
Instante despido
ausente a razão.

Por que se aproxima?
Por que?



09 abril, 2012

Olhe


Repare o desejo
Aquele que provoca o mais profundo do seu peito
É este mesmo o executor de um sentido
Talvez o frio e o por que não o menos humano
Deveria ter calado quando permitido
Poderia eu ter me esquecido de sua face
Permitiria os Céus esquecer sem muita dor?
Quero mesmo é descansar em um abraço pedido
O mesmo, embora, fácil, concedido.
Daquele sem jeito recolhido
Sem palavras e destemido
Eu havia fracassado.
Fracasso lidera minhas intenções
Não se ludibriam as emoções
Deveras inquietas e maltrapilhas
Sem vontade se fez o meu clamor
Agora só me restam as verdades
Para o meu puro e intocado coração admirar
Sem precedentes esqueci-me dos detalhes
Com costumes revirei-me no cobertor
Frio que antes não consumia
Na mais privada das certezas me terá
Espero ter ao menos um aconchego
O mesmo que sentirá aquele que se pronuncia ser o seu amor